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Elogios, justiça, Rússia. O Presidente Obama deu a sua última conferência de imprensa

ERIK S. LESSER

Barack Obama vai deixar a presidência dos Estados Unidos esta semana mas já garantiu que não se vai remeter ao silêncio depois de abandonar o cargo. Prometeu falar sempre que sinta que os “valores fundamentais” dos norte-americanos estejam a ser ameaçados

O Presidente norte-americano, Barack Obama, defendeu esta quarta-feira a sua decisão de comutar a pena de Chelsea Manning, considerando que foi feita justiça. Este foi um dos vários temas abordados por Obama na sua última conferência de imprensa, na Casa Branca. No encontro com os jornalistas, o ainda Presidente dos Estados Unidos defendeu a importância da liberdade de imprensa e abordou as relações do país com a Rússia.

Depois de esta terça-feira ter comutado a pena de Manning, militar transgénero que foi condenada a 35 anos de prisão por ter entregado à WikiLeaks telegramas diplomáticos e documentos de segurança nacional, Obama justificou a sua decisão, afirmando que Mannig “já cumpriu tempo suficiente”.

"Vamos ser claros, Chelsea Manning cumpriu uma dura pena de prisão", declarou Obama, classificando a sentença a que a soldado transgénero foi condenada "desproporcionada em relação às de outras fontes de fugas de informação".

No entanto, o Presidente faz questão de deixar claro que é apenas uma redução da pena e não um perdão. De igual forma, negou a ideia de que o seu ato de clemência esteja relacionado com a promessa de Julian Assange, que escreveu no Twitter há seis dias que aceitava voltar aos EUA (está atualmente exilado na embaixada do Equador em Londres) se Obama perdoasse Manning. “Não presto muito atenção aos ‘tweets’ de Julian Assange, por isso não foi algo que foi tido em consideração nesta decisão”, disse o Presidente.

Em relação às relações com a Rússia, Obama referiu que “é do interesse dos EUA e do mundo ter relações construtivas” com o governo de Putin. “Essa foi a minha perspetiva [da questão] durante o meu mandato, naquilo em que os nossos interesses convergiam, trabalhámos juntos”, prosseguiu.

A dois dias da posse de Donald Trump, que pretende tornar novamente mais calorosas as relações glaciais entre a Casa Branca e o Kremlin, Barack Obama acrescentou que essa sua abordagem sofreu o embate de uma “escalada no discurso antiamericano” quando Vladimir Putin ocupou a Presidência russa, em 2012, o que levou a uma relação Washington-Moscovo “mais antagónica e difícil”.

Os comentários do chefe de Estado cessante têm, em pano de fundo, a polémica nos Estados Unidos sobre a interferência, denunciada pelos serviços de informações norte-americanos, das autoridades russas nas eleições presidenciais ganhas por Donald Trump a 8 de novembro.

A comunidade dos serviços secretos dos Estados Unidos chegou à conclusão de que Moscovo, sob as ordens de Putin, levou a cabo uma campanha de pirataria informática para influenciar o resultado do escrutínio presidencial norte-americano em favor do multimilionário.

O Presidente norte-americano declarou-se ainda “profundamente preocupado” com o conflito israelo-palestiniano, alertando o seu sucessor para uma situação potencialmente “explosiva”.

“Estou preocupado porque considero que o 'statu quo' é insustentável, que ele é perigoso para Israel, mau para os palestinianos, mau para a região e mau para a segurança dos Estados Unidos”, sustentou Obama.

Referindo que Trump prometeu instalar a embaixada dos Estados Unidos em Israel na cidade de Jerusalém, o que de imediato desencadeou grande polémica, Obama advertiu o Presidente eleito contra “movimentos unilaterais súbitos” num “contexto explosivo”.

Na sua última conferência de imprensa, Obama fez também questão de aplaudir o trabalho dos jornalistas por “fazerem perguntas difíceis”, a si e aos seus assessores, e servirem como um veículo de informação para os cidadãos comuns. “Não é suposto vocês serem aduladores, é suposto vocês serem céticos. Ter-vos neste edifício (Casa Branca) ajudou o melhor funcionamento deste local”, salientou o Presidente cessante. “Por isso a América precisa de vocês e a nossa democracia precisa de vocês”, acrescentou, dirigindo-se às dezenas de repórteres que estavam na sala.

  • Perdão a Chelsea Manning. E agora, Julian Assange?

    Há uma semana, o fundador da WikiLeaks tinha prometido que se entregaria às autoridades norte-americanas caso Barack Obama libertasse a soldado transgénero que obteve e passou à organização de delação centenas de milhares de documentos confidenciais do Exército