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Boris Johnson diz que países estão “a fazer fila” para negociar com o Reino Unido

WILL OLIVER/EPA

Num artigo de opinião publicado esta quarta-feira no “Telegraph”, chefe da diplomacia britânica diz que, “sob as regras da UE, não estamos formalmente autorizados a negociar novos tratados comerciais até sairmos [do bloco], mas não há nada que diga que as ideias não podem ser alinhavadas” já com os países interessados em fazer negócio com o Reino Unido

Vários países estão "a fazer fila" para assinar acordos comerciais com o Reino Unido assim que o país abandonar a União Europeia. A garantia é de Boris Johnson, ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, num artigo de opinião publicado hoje no "Daily Telegraph", no qual reconhece que as regras da UE não permitem que o governo de Theresa May comece já a negociar com outras nações mas onde deixa subentendido que pretende começar a delinear estratégias de imediato, agora que a primeira-ministra anunciou formalmente que o país vai abandonar o mercado único e a união aduaneira e que, para compensar, pretende baixar os impostos para empresas no Reino Unido.

"Já não vamos fazer parte das políticas comerciais comuns nem vamos estar sujeitos às tarifas externas comuns nem vamos ter as nossas políticas comerciais a ser geridas pela Comissão da UE", lê-se no texto assinado por Johnson. "Crucialmente isto quer dizer que vamos poder firmar novos acordos comerciais com países em todo o mundo. Eles já estão a fazer fila. Sob as regras da UE, não estamos formalmente autorizados a negociar estes tratados até sairmos [do bloco regional]. Mas não há nada que diga que as ideias não podem ser alinhavadas" antes disso, sublinha o chefe da diplomacia britânica.

No mesmo artigo — publicado um dia depois de Theresa May ter confirmado que a saída da UE vai corresponder ao abandono do mercado único europeu e de ter alertado Bruxelas contra qualquer tentativa de "castigar" o Reino Unido por enveredar pelo caminho do "hard Brexit" — Johnson garante ainda que o país não vai "levantar a ponte levediça" apesar dos novos controlos à imigração prometidos por May, até porque "continua a partilhar dos valores europeus".

"Vamos dar continuidade à alegre exploração da cultura e civilização europeias que têm estado a expandir-se desde a alvorada das viagens de avião baratas e vamos continuar a dar as boas-vindas a vastos números de turistas da UE ao Reino Unido", diz o ex-autarca de Londres e um dos porta-estandartes do Brexit durante a campanha para o referendo de 23 de junho. "Não vamos fechar a porta aos migrantes ou levantar a ponte levediça."

Para esta quarta-feira são esperados os primeiros vereditos das autoridades europeias face ao anúncio de May, depois de Downing Street ter garantido, citada pela BBC, que os líderes da UE agradeceram a "clareza" da primeira-ministra numa série de telefonemas logo a seguir ao seu discurso.

Dentro do Reino Unido, as reações ao anúncio começaram a surgir de imediato, com o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, a declarar ontem no programa Newsnight da BBC que a "ameaça implícita" de May de tornar o Reino Unido num "paraíso fiscal" é uma "forma esquisita de tentar alcançar uma relação construtiva com todo o continente" europeu.

Já esta manhã, no programa BBC Breafkast, o ministro sombra do Brexit, o trabalhista Keir Starmer, disse que o Governo de May não tem "qualquer mandato" para "ameaçar criar um paraíso fiscal", algo que, referiu, vai empobrecer a população britânica e que é "totalmente inconsistente" com as garantias de proteção "dos direitos dos trabalhadores e por uma Grã-Bretanha mais justa".

Também em reação ao discurso de May, Guy Verhofstadt, o responsável do Parlamento Europeu pelas negociações do Brexit, escreveu no Twitter que "ameaçar transformar o Reino Unido num paraíso fiscal desregulado vai não só ferir o povo britânico como é uma tática negocial contraproducente".

Tim Farron, secretário-geral dos Liberais Democratas, também criticou a primeira-ministra britânica. "Arrancar-nos do mercado comum não é algo que tivesse sido proposto ao povo britânico, isto é um roubo da democracia."

Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia, disse por sua vez que os planos para tirar o Reino Unido do mercado comum vão ser "economicamente catastróficos" e deu a entender que deverá convocar um segundo referendo à independência do país que integra o Reino Unido e que votou contra o Brexit.