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Presidente da China vai encontrar-se com conselheiro de Trump em Davos

Anthony Scaramucci é o conselheiro que Donald Trump enviou a Davos

FABRICE COFFRINI / AFP / GETTY IMAGES

Correspondentes na Suíça dizem que reunião terá lugar esta terça-feira à margem do Fórum Económico Mundial, que começou esta manhã. É a primeira vez que um líder chinês está presente no encontro anual

O primeiro Fórum Económico Mundial (FEM) desde a vitória do Brexit no Reino Unido e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos arrancou esta terça-feira de manhã em Davos, na Suíça, ensombrado por um relatório da Oxfam onde é revelado que os oitos homens mais ricos do mundo detêm a mesma riqueza combinada que a metade mais pobre da população mundial. O documento levou Winnie Byanyima, a diretora executiva da confederação de organizações não-governamentais para o desenvolvimento, a considerar “obsceno que tanto dinheiro esteja nas mãos de tão poucos quando uma em cada dez pessoas sobrevive com dois dólares por dia”.

A julgar pelos primeiros discursos no encontro anual, o impactante relatório não está a ser ignorado. Aos presentes, o CEO da Hewlett Packard declarou esta manhã que “há um grupo de pessoas que se sente deixado para trás”, um facto que, na sua opinião, contribuiu aliás para a vitória eleitoral de Trump. “A eleição nos EUA não resultou no que eu esperava mas aconteceu e nós, enquanto americanos, temos de dar ao nosso Presidente o benefício da dúvida e a hipótese de provar que pode ser um líder responsável e sensível” (o lema do encontro económico deste ano é “Liderança responsável e sensível”).

“Ao refletir sobre o que estes líderes têm de fazer”, continuou Dion Weisler, “penso que o que as eleições dos EUA e o Brexit nos mostraram é que há um grupo de pessoas que se sentem deixadas para trás pela globalização e pelas mudanças que a tecnologia trouxe nas últimas décadas, portanto temos de pensar como dar uma hipótese a estas pessoas. Isto só será alcançado através de uma transição e transformação ponderadas da força de trabalho”.

Para Douglas Flint, diretor do HSBC, apesar das crescentes desigualdades e do fosso entre os mais ricos, um punhado deles, e o resto da população mundial, a globalização não tem de ser sacrificada como Trump parece desejar. “Não penso que o caso a favor da globalização tenha sido perdido, mas penso que precisa de ser mais bem articulado.” O enviado do “Telegraph” a Davos nota que, para Flint, a questão “O que é que a globalização já fez por nós?” equivale à questão “O que é que os romanos já fizeram por nós?”, uma referência ao “The Life of Brian” dos Monty Python. Tal como as personagens do filme listam o que Roma fez por nós, o responsável pela instituição financeira britânica, atualmente a maior da Europa, lançou-se num rol de respostas sobre tudo o que a globalização já nos trouxe.

O que a globalização esqueceu protagonizou igualmente o discurso do conselheiro que Donald Trump enviou à Suíça, proferido perante uma plateia a abarrotar, ansiosa por ouvi-lo e ao Presidente chinês, Xi Jinping, o primeiro líder do gigante comunista a ser convidado para participar neste encontro anual. “97% dos cidadãos globais não beneficiaram [de medidas monetárias como o Quantitative Easing] e as pessoas comuns estão com muitas dificuldades”, disse Anthony Scaramucci aos presentes, citado pelo correspondente do “The Guardian”. “Quando vou aos comícios de Donald Trump, existe uma real sensação de desespero. Se não resolvermos as desigualdades, dentro de quatro anos [nas eleições de 2020] os EUA vão ter um líder de esquerda que vai ser pior.”

Numa altura em que o Presidente eleito dos EUA se prepara para tomar posse esta sexta-feira, depois de uma campanha e de uma transição presidencial orientadas por uma linha protecionista para “tornar a América grande outra vez”, Davos virou-se para um aliado improvável, na figura de Xi. Os jornalistas que estão a cobrir o encontro dizem que o líder chinês vai encontrar-se com Scaramucci, veterano dos FEM, para debater o futuro da relação entre os dois países esta terça-feira, num momento em que se questiona se o isolacionismo americano vai mesmo avançar e que impacto terá a nível mundial.

Antes dessa reunião, Scaramucci falou aos presentes enquanto mandatário de Trump e garantiu em entrevista à Associated Press que o que o futuro líder norte-americano defende não tem nada a ver com protecionismo económico. “Ele só quer trocas comerciais livres e justas.” Questionado sobre que orientações recebeu do Presidente eleito, o homem das finanças explicou que Trump lhe disse apenas, “como diz sempre, ‘vai e faz um bom trabalho’.”

À ITV News, o conselheiro disse ainda que o Reino Unido fora da União Europeia vai estar “na linha da frente” para um acordo de trocas com os Estados Unidos — uma declaração que deverá preocupar Bruxelas, que surge em linha com o encontro de Boris Johnson e a equipa de Trump há uma semana e que é contrária ao aviso de Barack Obama no rescaldo do referendo ao Brexit em junho, quando disse que os EUA estariam “no fim da fila” para negociar com um Reino Unido fora do bloco regional.