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Martin Schulz: “Em vez de cortar até mais não, gaste-se em ensino e saúde”

Tiago Miranda

Presidente do Parlamento Europeu, que está de saída, falou ao Expresso sobre a Europa e a Alemanha, para onde rumará a tempo das legislativas deste outono. Martin Schulz esteve em Lisboa para o funeral de Mário Soares, a quem chama “herói”

Após uma longa passagem pela política europeia, vai dedicar-se ao seu país. Apetece-lhe concorrer a chanceler?
O meu partido [SPD, social-democrata] divulgará o seu candidato no fim de janeiro. Hoje alguns colegas estão a discutir as linhas mestras da campanha. Nas próximas duas semanas iremos debater o conteúdo e as personalidades.

Preocupa-o o estado da Europa e dos seus valores?
Está em mau estado. Há desigualdades que ameaçam cada vez mais a coerência desta união de países e nações. Ora, a UE é uma grande proeza: países em cooperação transfronteiriça, com instituições comuns, em vez de andarem à guerra. Desistir seria um erro de proporções históricas. A Alemanha é o país da UE com mais habitantes e o mais rico. Tem especial responsabilidade, é uma das razões por que vou para Berlim.

Quão diferente deve ser o próximo Governo alemão?
A Europa precisa de estabilidade. Temos de convencer os cidadãos de que é possível mudar, não com populismo, mas com ação concreta. Enquanto sobreviver é um desafio para muitas famílias, mesmo com dois salários, várias multinacionais não pagam impostos na Europa. Não é aceitável. Faz falta uma política fiscal europeia que combata a fuga aos impostos e a especulação, e um controlo comum do sector bancário. Muitos não se sentem respeitados. Repare, passamos os dias a falar de milhões. Para a maioria dos cidadãos, um milhão é um valor gigantesco. Temos de discutir o que faz sentido para 99% das pessoas: milhares e não milhões.

Hoje quem parece ter esse discurso mais próximo do povo são os demagogos e os populistas.
É verdade. Pessoas normais que perdem o emprego vão, depois, votar no bilionário que se arroga em defensor dos seus interesses. Isso deve ser um sinal de alarme, sobretudo para os partidos da social-democracia.

Este ano há eleições cruciais na França, Holanda e Alemanha. Preocupa-o a ascensão de forças xenófobas?
A estratégia desses partidos é criar medo e, depois, dar-lhe resposta. É a direita mais extrema, um perigo para a democracia. Mas olhemos para os números. Se [o demagogo] Wilders tem, na Holanda, 25% de intenções de voto, é porque 75% estão contra ele. O mesmo acontece com Marine Le Pen, mesmo que passe à segunda volta das presidenciais, e com a Alternativa para a Alemanha. Mobilizemos essa gente contra eles.

Muita dessa gente não vota, como se viu no referendo britânico sobre a saída da UE.
Se outrora o aumento na participação eleitoral favorecia a esquerda, hoje são as forças populistas quem seduz os abstencionistas, desiludidos e marginalizados que acreditam que aqueles políticos estão mesmo interessados neles. Na verdade, dedicam-se a arranjar bodes expiatórios: hoje os muçulmanos, amanhã os homossexuais, depois os desempregados, a seguir os capitalistas. Nunca têm uma solução concreta. Ora, o cidadão comum precisa da proteção de um Estado forte. Em vez de se olhar só para a despesa e cortar até mais não, olhe-se para a receita e invista-se na educação, na saúde, no apoio aos mais velhos. Para tal, é preciso um sistema fiscal europeu. Tudo está ligado e não se resolvem problemas coletivos renacionalizando poderes, como quer a retórica populista.

Vai ser mais difícil adotar políticas comuns com tantos nacionalistas a ganharem votos?
Não acredito que Le Pen vença, mas ela e outros influenciam o ambiente político. As forças democráticas têm de se unir na procura de soluções concretas para as preocupações quotidianas do cidadão.

O eixo esquerda-direita está a dar lugar a um eixo abertura-fechamento?
A questão é: em que sociedade queremos viver? Queremos regressar aos anos 50 ou até aos 20 e 30? O futuro da Europa passará pelo discurso do ódio, do antissemitismo, do racismo? Penso que não.

Muitas das questões que alimentam esse discurso vão continuar a existir: refugiados, desigualdade, fraco crescimento...
A crise dos refugiados mostra que a globalização, mais do que um debate académico, é a vida real de todos nós. No primeiro mandato no PE falei de controlo das fronteiras externas, sistema legal de imigração e asilo com distribuição por países com base em pontos. Se pegar nos meus discursos de há 20 anos e lhes mudar a data, continuam válidos. Vamos cooperar ou aceitamos que [o primeiro-ministro húngaro] Viktor Orbán diga que os refugiados são um problema alemão? Criámos critérios para distribuir as pessoas: PIB per capita, desemprego médio nos últimos cinco anos e refugiados existentes no país. A Hungria teria de receber 1920, a Alemanha um milhão. E diz Orbán que isto é a ditadura de Bruxelas! Um milhão de pessoas distribuído por um bloco de mais de 500 milhões de habitantes não é problema.

Porque é que há castigo quando um país viola os limites do défice e não quando viola os valores europeus?
Em Bruxelas, a questão é se se violam regras. O Governo húngaro defende valores que não os europeus, mas não viola regras. Tem opiniões diferentes e valores diferentes dos meus, mas tem uma maioria de dois terços, legítima, que já lhe permitiu rever a Constituição. Logo, a insistência de Bruxelas nas regras não serve. Temos de combater o discurso e os valores de gente como Orbán, que é um dos líderes mais inteligentes da direita europeia.

Que opinião tem do atual e inédito Governo português?
Como ainda sou presidente do PE, não posso comentar governos nacionais. Mas sou amigo próximo de António Costa e apoio-o como primeiro-ministro. Também tive uma colaboração construtiva com Passos Coelho.

Como é estar em Lisboa para a despedida de Mário Soares?
Fomos colegas no PE e já o conhecia antes. Além disso, sou um social-democrata alemão. O PS nasceu em Bad Münstereifel, no meu círculo eleitoral. Soares foi um de vários dirigentes inspirados pelo nosso Willy Brandt, como Felipe em Espanha ou Papandreu na Grécia. Era um homem difícil, com um estilo combativo. Defendia as suas ideias, se preciso contra a maioria. E tornou-se uma figura histórica. O 25 de Abril foi um ponto de viragem na minha própria vida. A minha geração recorda nomes esquecidos como Rosa Coutinho, Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Otelo... mas o nosso herói era Mário Soares.

[Texto original publicado no Expresso de 14 de janeiro de 2017]