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Cimeira em Astana para segurar a trégua na Síria

Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, esta terça-feira, em Moscovo

© Sergei Karpukhin / Reuters

Prevista para a próxima semana, a cimeira de Astana sobre a guerra na Síria poderá possibilitar o primeiro encontro entre a Rússia e os Estados Unidos da era Trump. Em cima da mesa, estarão, apenas e só, aspetos militares do conflito. Grupos rebeldes já confirmaram a sua presença no Cazaquistão

Margarida Mota

Jornalista

Começa a ganhar forma a cimeira de Astana, a iniciativa diplomática que se segue visando o fim do conflito na Síria. Promovida por Rússia e Turquia — que no terreno estão em lados opostos da barricada (Moscovo apoia Bashar al-Assad e Ancara fações rebeldes) —, a reunião está prevista para a próxima segunda-feira, dia 23, na capital do Cazaquistão.

A Administração Trump, que inicia funções na próxima sexta-feira, foi convidada a estar presente. “Estamos a contar que a nova Administração aceite o convite e se faça representar por peritos a quaisquer níveis que eles entendam ser possível”, afirmou esta terça-feira, em conferência de imprensa, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov. “Será o primeiro contacto oficial durante o qual poderemos iniciar a discussão sobre o reforço da eficácia no combate ao terrorismo na Síria.”

As conversações de Astana irão concentrar-se exclusivamente na dimensão militar do conflito, deixando as questões políticas para um outro processo negocial já agendado, de iniciativa das Nações Unidas, previsto para fevereiro em Genebra (Suíça).

Na segunda-feira, grupos rebeldes confirmaram que estarão presentes em Astana. “Todos irão. Todos concordaram”, afirmou Mohammad Alloush, um dos líderes do Jaish al-Islam (Exército do Islão), uma aliança de grupos islamitas e salafitas. “Astana é um processo que visa acabar com a sangria provocada pelo regime e seus aliados. Queremos acabar com esta sucessão de crimes.”

Osama Abu Zeid, um advogado a trabalhar para os rebeldes, afirmou que estes foram encorajados a participar pelo facto de a ordem de trabalhos concentrar-se “apenas no cessar-fogo”.

Ofensiva sangrenta do Daesh

Apesar das iniciativas diplomáticas em curso, e da trégua oficialmente em vigor desde 30 de dezembro, no terreno a guerra está longe de estar terminada. No sábado, o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) — que não está abrangido pelo cessar-fogo e que continua a ter na cidade síria de Raqqa a sua principal fortaleza — lançou uma ofensiva contra as forças governamentais na província de Deir ez-Zor (leste) — rica em recursos petrolíferos — que os jiadistas controlam parcialmente. Segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, o ataque fez 82 mortos.

À semelhança do Daesh, estarão também ausentes de Astana os grupos curdos. A Administração Obama defendeu a participação das Unidades de Proteção Popular (curdas), conhecidas pelas siglas PYD ou YPG, mas o ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Mevlüt Çavuşoğlu, considerou essa possibilidade “um disparate”, defendendo: “Se for convidado um grupo terrorista, então também se deve convidar a Al-Nusra e o Daesh”. Ambos são rotulados “grupos terroristas” pelas Nações Unidas.

Para os turcos, as YPG são o braço sírio do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta por um Curdistão independente na Turquia e que Ancara considera ser um grupo terrorista.