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“Antes de sair, Obama devia reconhecer o Estado da Palestina”

Mahmud Abbas e Benjamin Netanyahu cruzaram-se pela última vez a 30 de setembro de 2016 no funeral do ex-Presidente israelita Shimon Peres. Um encontro que não se repetirá este fim de semana, em Paris

© Reuters

Paris acolhe este domingo uma conferência internacional sobre o processo de paz no Médio Oriente. O primeiro-ministro de Israel não estará presente. Benjamin Netanyahu teme que dali saia uma posição que origine uma nova resolução “anti-Israel” nas Nações Unidas

Margarida Mota

Jornalista

O futuro do conflito israelo-palestiniano discute-se, este domingo, em Paris, numa Conferência Internacional sobre o Processo de Paz no Médio Oriente organizada pelo Governo francês e onde são aguardados representantes de mais de 70 países.

Questionado pelo Expresso sobre o que consideraria ser um resultado positivo deste encontro, Uri Avnery, 93 anos, o decano dos pacifistas israelitas, é categórico: “O resultado deveria ser o total reconhecimento do Estado da Palestina, como parceiro do Estado de Israel”, defendeu. “O Presidente Obama devia fazer o mesmo antes de sair” da Casa Branca — a cerimónia de investidura de Donald Trump realiza-se a 20 de janeiro.

Na cena internacional, Uri Avnery não é voz única na defesa desta ideia. A 28 de novembro passado, num artigo de opinião publicado no diário “The New York Times”, o ex-Presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter escreveu: “Estou convencido que os Estados Unidos ainda podem dar forma ao futuro do conflito israelo-palestiniano antes da mudança de Presidentes, mas o tempo é muito curto. O passo simples mas vital que esta Administração tem de tomar antes do fim do seu mandato a 20 de janeiro é garantir o reconhecimento diplomático norte-americano ao Estado da Palestina, tal como 137 países já o fizeram, e ajudar a alcançar a plena adesão às Nações Unidas”.

Israelitas e palestinianos foram convidados a participar na Conferência de Paris. Mas se é esperada a presença do Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, já o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu — que só aceita negociar com os palestinianos através de conversações diretas — declinou o convite.

“A Conferência de Paris é manipulada pelos palestinianos sob os auspícios franceses para adotar mais posições anti-Israel”, afirmou na quinta-feira, durante um encontro com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega, em Jerusalém.

Israel teme que de Paris saia uma posição que origine uma nova resolução no Conselho de Segurança das Nações Unidas condenatória de Israel. A 23 de dezembro, foi aprovada a Resolução 2334 que considera os colonatos judeus em território palestiniano uma violação do direito internacional.

Num encontro com embaixadores e chefes de missão israelitas na Europa, realizado no início de janeiro, o primeiro-ministro Netanyahu afirmou: “[O grande esforço] em que estamos envolvidos agora é impedir outra resolução da ONU e também uma decisão do Quarteto [EUA, Rússia, ONU e União Europeia]. Estamos a fazer um grande esforço diplomático nesse sentido e esta tem de ser a vossa prioridade nos próximos dias”, disse. “Temos de ser bem sucedidos.”

Antes que Trump entre em cena...

O encontro em Paris — onde Portugal estará representado pela secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Teresa Ribeiro — realiza-se a cinco dias da saída de cena de Barack Obama.

Há muito que a relação entre Obama e Netanyahu — líderes de países que têm uma aliança inquebrável — se degradou irreparavelmente: Obama defende a solução de dois Estados independentes e Netanyahu, na prática, tudo faz para o inviabilizar.

No mesmo dia em que na ONU foi aprovada a resolução sobre os colonatos — com a abstenção dos EUA (que tradicionalmente protege Israel usando o poder de veto) —, Donald Trump garantiu: “Relativamente às Nações Unidas, as coisas serão diferentes a partir de 20 de janeiro”.