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Internacional

Secretas dos EUA e do Reino Unido atestam credibilidade da fonte do dossiê Trump

A sede da Orbis Business Intelligence Ltd., a empresa de investigação privada que Steele fundou em Londres quando abandonou o MI6

Leon Neal

Ex-agente secreto do MI6 Christopher Steele, que o “Wall Street Journal” diz ser o homem que compilou o documento sobre as alegadas ligações do Presidente eleito à Rússia, é “um profissional altamente credível” e não “o tipo de pessoa que se limita a transmitir bisbilhotices”

Fontes dos serviços de informação dos Estados Unidos e do Reino Unido garantem que a alegada fonte do dossiê Trump, identificada pelo "Wall Street Journal" como sendo o ex-espião do MI6 Christopher Steele, é um homem "muito credível", "profissional" e que nunca se limitaria "a transmitir bisbilhotices" aos responsáveis pela segurança nacional. Será por isso, aponta o "The Guardian", que FBI, CIA e NSA decidiram informar o atual Presidente americano Barack Obama, e o seu sucessor Donald Trump, da existência do dossiê, apesar de as alegações nele contidas ainda não terem sido corroboradas.

"Na sua conferência de imprensa na quarta-feira", escreve o jornal britânico, "o Presidente eleito desafiou os media de todo o mundo a escrutinarem as 35 páginas de alegações, antes de acabar com esse desafio – onde estão a provas? Ninguém as tem. Caso encerrado. Mas na pressa de pôr para o lado o dossiê e os seus conteúdos, restava uma grande questão: porque é que as agências secretas da América sentiram a necessidade de entregar um compêndio a Barack Obama e ao próprio Trump?

A resposta está diretamente ligada à credibilidade do seu aparente autor, o ex-agente do MI6 Christopher Steele, à qualidade das suas fontes e à qualidade das pessoas que estão preparadas para o defender. A esse respeito, o homem de 53 anos tem muito crédito."

O ex-espião, que criou uma empresa de investigação privada em Londres quando abandonou a agência secreta, através da qual terá recolhido as informações contidas no dossiê sobre as alegadas ligações de Trump ao governo russo, fugiu da sua casa no sudeste de Inglaterra e está escondido desde quinta-feira, avança o jornal britânico.

Um dos antigos colegas de Steele, ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros que pediu para não ser citado, descreve-o como "muito credível", um "profissional" sóbrio, cauteloso e meticuloso com um currículo de louvar. "A ideia de que o seu trabalho é falso ou uma operação de comboys é falsa, não é de todo verdade. O Chris é um profissional experiente e muito conceituado, não é o tipo de pessoa que se limitaria a transmitir bisbilhotices. Se ele põe uma coisa num relatório, ele acredita que tem suficiente credibilidade para ser considerada. É um homem às direitas. Nunca teria sobrevivido ao trabalho que tinha se fosse propenso a fantasias ou a imprudências."

É assim que também a CIA e o FBI, a par do governo britânico, classificam a alegada fonte do dossiê, onde é sugerido que Vladimir Putin está há vários anos a "preparar" Trump para ele chegar à Casa Branca e, ao mesmo tempo, a reunir "podres" sobre o empresário tornado Presidente dos EUA, através do FSB (ex-KGB), que possam ser usados para o chantagear e controlar.

Licenciado em Cambridge, Steele – amigo próximo de Alex Younger, o atual chefe do MI6 – foi um dos mais eminentes especialistas do MI6 em assuntos relacionados com a Rússia. O "The Guardian" diz ter apurado que assim que passou a integrar a agência de serviços secretos ficou responsável pela pasta de assuntos soviéticos e viveu dois anos em Moscovo no início da década de 1990, quando a URSS se dissolveu. O interesse de Steele pela Rússia não diminuiu depois disso, pelo contrário, só aumentou.

Durante mais de 20 anos, o britânico desempenhou uma série de funções mas foi sempre sendo atraído de volta à Rússia. Dizem fontes que chegou a ser o chefe do gabinete do MI6 na Rússia. Quando a agência teve de lidar com o envenenamento de Alexander Litvinenko, em 2006, o agente do FSB que colaborava com as autoridades ocidentais, foi Steele quem rápida e corretamente atribuiu a morte do russo ao governo, dizem fontes próximas.

Perante a alteração de prioridades da agência, que relegou a espionagem na Rússia para segundo plano perante o aumento do terrorismo e outras ameaças não-estatais, Steele decidiu abandonar o MI6 em 2009 e dedicar-se ao lucrativo negócio da venda de informações secretas, através da Orbis Business Intelligence Ltd., que fundou com Christopher Burrows logo depois. Em declarações ao "Wall Street Journal" esta quarta-feira, Burrows disse que "não confirma nem desmente" que seja Steele a fonte primordial do dossiê Trump.

Por causa do seu trabalho de espionagem na Rússia, Steele deixou de poder entrar no país mas manteve a rede de contactos que criou ao longo de duas décadas e continuou a enriquecê-la, pagando por informações que os clientes da Orbis procuravam. Assim terá sido o caso com os documentos que estão no centro do novo escândalo em torno da futura administração Trump, uma investigação inicialmente encomendada por republicanos que se opunham à candidatura do empresário e também, depois das primárias do partido, por democratas que apoiavam Hillary Clinton.

O "The Guardian" aponta, com base em informações avançadas por fontes dos serviços de informação britânicos, que é improvável que Steele tenha mantido contacto direto com funcionários do Kremlin durante a investigação, os mesmos que, sob anonimato, são referidos no dossiê como fontes de algumas das alegações sobre Trump e Putin. As mesmas fontes britânicas dizem que Steele está impedido de visitar a Rússia há mais de 20 anos e que terá contado com a preciosa ajuda da sua rede de contactos infiltrados no terreno.

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