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“É altura de falar sobre o que nós fazemos enquanto jornalistas e sobre o que fazem os ministros da propaganda”

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O dossiê escandaloso sobre Trump que afinal pode ser um escândalo jornalístico mas que também pode ser ambos ou nenhum - depende do ponto de vista e dos próximos dias, porque o debate está a arder e os factos estão em mutação - deixou a América nervosa e partida. Está tudo a ser posto em causa: os jornalistas, os serviços secretos, a verdade e a mentira

Existe uma pequena indústria de empresas de investigação privada em Washington, na sua maioria compostas por ex-jornalistas e ex-funcionários de agências de segurança cujo trabalho passa por apurar informação sobre políticos que os políticos gostariam de manter em segredo. Muitas vezes, aponta o “The Guardian”, essas empresas não sabem quem está a contratar os seus serviços: a encomenda pode vir, por exemplo, de uma sociedade de advogados que representa um determinado cliente anónimo, como acontece nos esquemas de evasão fiscal denunciados por recentes investigações jornalísticas transnacionais (Panama Papers e Football Leaks).

No caso das mais recentes alegações sobre Donald Trump e as suas ligações ao governo de Vladimir Putin, o pedido para que se desenterrassem “podres” sobre Trump veio de um dos seus rivais republicanos durante as primárias do partido. Quando uma dessas empresas subcontratou os serviços de outra firma para investigar o empresário, Trump já tinha derrotado todos os candidatos na corrida partidária. O caso ia morrer ali, ainda antes de começar, mas entrou em cena um novo cliente, ligado ao Partido Democrata — isto não quer necessariamente dizer que a investigação tenha sido encomendada pela equipa de Hillary Clinton ou pelo seu partido; muitas vezes estes trabalhos são financiados por pessoas endinheiradas que já doaram tudo que podiam ou queriam a determinado candidato político e que estão à procura de outras formas de o ajudar.

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Em julho, o dono dessa firma subcontratada — que o “Wall Street Journal” identificou ontem como Christopher Steele, um ex-espião do MI6 que fundou a Orbis Business Intelligence Ltd. para executar, a partir de Londres, trabalhos privados da mesma natureza — já tinha em sua posse uma quantidade significativa de material com base em fontes russas que confiavam nele, uma rede de contactos que foi montando enquanto agente do MI6 infiltrado em Moscovo e mais para oeste, em São Petersburgo.

A gravidade do que apurou assustou-o. Se os dados que tinha recolhido e que compilou no já famigerado “dossiê Trump” fossem verdadeiros, as suas implicações eram estrondosas. Por essa razão, decidiu entregá-los ao FBI para que a agência federal dos EUA apurasse a veracidade do conteúdo e decidisse o que fazer com ele. O “The Guardian” diz que o dossiê também foi entregue aos serviços de informação do Reino Unido mas que as autoridades britânicas ficaram tão constrangidas com o que leram que deixaram para os americanos a tarefa exclusiva de investigar o caso e tirar as suas próprias conclusões.

Por esta altura, quem segue a política norte-americana já saberá que o dossiê é um documento a três tempos que contém dados explosivos sobre o Presidente eleito. Nele, fontes russas garantem que a equipa de Trump manteve “contactos diretos e recorrentes” com intermediários do Kremlin ao longo da campanha presidencial. Mais do que isso, as fontes dizem que Putin está “há vários anos” a preparar Trump para a Casa Branca, ao mesmo tempo que o FSB (ex-KGB), sob as suas ordens, tem estado a reunir informações comprometedoras sobre o empresário que possam usar contra ele.

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À medida que o tempo foi avançando, o autor do relatório começou a ficar preocupado. O FBI já lhe tinha pedido mais informações, mas continuava sem reagir e sem confirmar se o que as fontes diziam era verdade. Em vez disso, a agência federal liderada por James Comey centrava-se no alegado escândalo de emails de Hillary Clinton, por ter usado um servidor privado enquanto secretária de Estado no primeiro mandato de Obama. No final de outubro, quando faltavam apenas 11 dias para a ida às urnas, Comey veio a público anunciar que os seus agentes iam examinar novo material descoberto no âmbito dessa investigação. Hoje acumulam-se evidências de que a derrota de Hillary foi também causada pela decisão de Comey questionar a idoneidade da rival de Trump quando, acabaria por se comprovar, não havia indícios de crime que justificassem uma nova investigação à candidata democrata.

Mais ou menos por essa altura, e confrontado com a inação do FBI, o protagonista desta trama à James Bond foi instado durante uma viagem a Nova Iorque a contar a sua história a David Corn, editor da revista “Mother Jones”, que a 31 de outubro noticiou pela primeira vez a existência do material escabroso sobre Trump. O FBI continuava então a recusar-se a comentar o assunto, embora tenham surgido rumores de que pediu — e que terá conseguido obter junto do FISA (o tribunal de vigilância e serviços de informação dos EUA) — um mandato para aprofundar a sua investigação ao caso.

Em meados de novembro, já depois de Trump ser eleito, os documentos mantidos no segredo dos deuses da informação foram parar aos corredores de Washington — o que em última instância terá levado os diretores do FBI, da CIA, da NSA e o supervisor de todas essas agências a decidirem, há uma semana, informar Obama e Trump do conteúdo do dossiê. (Trump e a sua diretora de campanha, Kellyanne Conway, garantem que as secretas nunca lhe falaram de tal documento.)

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Não se sabe quem vazou os documentos aos legisladores e jornalistas, mas sabe-se que isso terá acontecido porque o senador republicano John McCain foi apresentado a um diplomata ocidental que já tinha visto o dossiê, que conhecia a fonte, que a considerava credível e que o alertou para as perigosas ligações de Trump à Rússia. O encontro deu-se a 18 de novembro no Fórum Anual de Segurança Internacional em Halifax, no Canadá. McCain achou que as alegações eram alarmantes o suficiente para enviar um seu homem de confiança ir ter com essa fonte e descobrir mais pormenores. Foi dito a esse emissário do republicano que procurasse um homem com uma cópia do “Financial Times” debaixo do braço numa cidade que o “The Guardian” se comprometeu a não revelar. Em 24 horas, o homem estava de regresso e reunido com McCain, a quem mostrou os documentos e a quem disse que a informação era impossível de verificar sem uma investigação séria e aprofundada.

O republicano, inicialmente relutante em envolver-se no potencial escândalo, acabaria por decidir encontrar-se a sós com Comey para lhe entregar os documentos a 9 de dezembro, um mês depois das eleições. O circo só pegaria fogo, e não por decisão do chefe do FBI, esta semana, quando a CNN noticiou a existência do dossiê e o BuzzFeed publicou as 35 páginas secretas na íntegra. “Após examinar os conteúdos, e incapaz de apurar o seu rigor, entreguei a informação ao diretor do FBI. O meu contacto com o FBI ou qualquer outra agência governamental sobre este assunto acabou aí”, garantiu o senador em comunicado na quarta-feira.

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Há um coro de críticas ao BuzzFeed e ao seu diretor, Ben Smith, por ter decidido divulgar o conteúdo do dossiê sem antes comprovar que o que é dito é verdade. No “New York Times” (NYT), Max Boot, do Council on Foreign Relations, escrevia quarta-feira que “é preocupante que o material tenha sido publicado quando outras grandes organizações de media, que não gostam particularmente de Trump, se recusaram a fazê-lo por não conseguirem verificar as alegações”. Para o colunista, “o BuzzFeed cometeu um sério erro ao simplesmente publicar online toda esta informação não substanciada, ignorando a prática jornalística de investigar e corroborar”. Publicar o material, defende ainda, é “prejudicial porque a natureza questionável do dossiê pode ser usada para impugnar a credibilidade da comunidade de serviços secretos americana, apesar de não ter sido ela a fonte”. No “Washington Post”, a colunista Margaret Sullivan, antiga diretora do NYT, acrescentou que, “numa era em que a confiança nos media já anda pelas ruas da amargura, isto não veio ajudar absolutamente nada”.

Há quem não concorde e tenha saído em defesa da decisão de Smith, a começar pelo jornalista veterano Carl Bernstein, um dos dois autores da investigação ao escândalo de Watergate, que levou à queda de Richard Nixon, e coautor do artigo da CNN que veio agitar não só as águas de Trump como as da profissão jornalística. “Vamos falar sobre o que é fazer jornalismo”, declarou num debate organizado pelo canal sobre quem se portou bem e portou mal nesta história. “Obter a melhor forma versão disponível da verdade. É isso que é uma história, e a melhor versão disponível da verdade é que os chefes das secretas dos Estados Unidos da América viram este material, consideraram que merecia investigação, consideraram que o Presidente dos EUA e o Presidente eleito deviam ser alertados. Aquilo a que estamos a assistir aqui esta noite é a uma desconstrução do processo jornalístico. Nós fizemos o nosso trabalho e vocês podem desconstruí-lo.”

Carl Bernstein é um dos históricos do jornalismo norte-americano

Carl Bernstein é um dos históricos do jornalismo norte-americano

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Richard Tofel, diretor da agência de jornalismo de investigação ProPublica, foi ainda mais longe. “O que mudou quarta-feira foram duas coisas”, escreveu no Twitter. “Aprendemos que os serviços secretos consideram o dossiê importante o suficiente para informar Trump e Obama e que uma importante organização de media [a CNN] noticiou o facto e os pontos centrais apresentados no dossiê, mesmo sublinhando que eles continuam por verificar. Por causa disso, o dossiê tornou-se foco de debate público. O que restava era [decidir] se os que debatem devem ou não poder conhecer o que estão a debater. Além disso, a publicação [integral pelo BuzzFeed] vai provavelmente acelerar a descoberta sobre o que é verdade e o que é mentira no dossiê. É isso que deveríamos desejar.” É isso que até os que criticam o BuzzFeed desejam. Na sua coluna, Boot chega até a concordar com Tofel quando escreve que “só porque as alegações não foram comprovadas não quer dizer que sejam falsas”.

Para Trump são. Antes da sua conferência de imprensa de quarta-feira, a primeira em mais de seis meses, o Presidente eleito recorreu a letras maiúsculas no Twitter, como vem sendo costume, para expressar a sua frustração e questionar se acaso “estamos a viver na Alemanha nazi”. Já no encontro com os jornalistas, voltou a acusar as agências de informação do seu país de recorrerem a táticas nazis e cortou a palavra ao correspondente da CNN, gritando-lhe que faz parte dos “media falsos”. Pouco depois, o jornalista acabaria por denunciar, em direto no canal, que um assessor de Trump lhe foi dizer: “Mais uma destas e és expulso das conferências”. O seu delito? Tentar colocar questões ao homem que está a prestes a tomar posse como Presidente de uma democracia.

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Um dos artigos mais replicados pelos media nos últimos dias refere a ironia de Trump se sentir vítima de alegações por comprovar quando muita da sua campanha lucrou com alegações por comprovar que visavam Hillary Clinton. Algumas, senão muitas delas, terão sido alimentadas e disseminadas pela chefe de comunicações de Trump, a julgar pelas acusações diretas de Bernstein quarta-feira à noite. “Uma das grandes fontes anónimas da nossa era é Kellyanne Conway. Ela fá-lo todos os dias, ela tem sido uma fonte anónima em particular nos últimos dez meses, na campanha, quando lhe convém. É altura de falar sobre o que nós fazemos enquanto jornalistas e sobre o que fazem os ministros da propaganda, é isso que ela é, uma ministra da propaganda.”

Urge uma viagem ao fim de semana passado, quando o dissidente russo e campeão de xadrez Gary Kasparov notou, depois da trica do Presidente eleito com a atriz Meryl Streep no Twitter: “Trump já criticou: os republicanos, os democratas, o Papa, as eleições dos EUA, a CIA, o FBI, a NATO, Meryl Streep. Trump ainda não criticou: Vladimir Putin”.

Quarta-feira foi quando Trump esteve mais perto de criticar o líder russo, ao ser questionado sobre o relatório não-confidencial que as secretas lhe apresentaram e a Obama com “fortes indícios” de que a Rússia orquestrou uma campanha de ciberataques contra os democratas para influenciar o resultado das eleições (não confundir com o dossiê Trump). “Eles [russos] não deviam ter feito isso”, respondeu Trump. Mas acrescentou: “Se Putin gosta de Donald Trump, considero-o um ativo, não um passivo.”

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Antes do encontro com os jornalistas, o Presidente eleito voltou a desmentir quaisquer ligações à Rússia — “Não tenho nada que ver com a Rússia, nenhum negócio, nenhum empréstimo, nada!” — quando uma investigação básica aos seus registos empresariais dos últimos 30 anos mostra que isso não é verdade. A este propósito, Max Boot levantou a seguinte questão no NYT: “Se Trump é genuinamente inocente quanto a qualquer ligação com o Kremlin, não quereria uma investigação completa para limpar o seu nome? O facto de se opor tão inflexivelmente a qualquer tipo de inquérito diz muito”.

Para Boot, “só há uma forma de chegar ao fundo deste caso escabroso”: criar uma comissão bipartidária no Senado para investigar todas as alegações e chegar a conclusões que sejam tornadas públicas. Está na linha não só o nome de Trump mas também de funcionários influentes envolvidos neste caso, como o diretor do FBI, James Comey — se as suspeitas forem comprovadas, estarão em causa possíveis crimes de conspiração ao mais alto nível e traição à pátria.

  • O eixo da (pós) verdade: Obama, a democracia, Trump e os jornalistas

    O discurso de despedida de Barack Obama, a apenas nove dias da tomada de posse de Donald Trump, foi amargo e ensombrado por novos dados sobre alegadas ligações do Presidente eleito à Rússia. Obama já conhecia o conteúdo do dossiê e, no adeus, tentou apontar o caminho para acabar com as divisões na América e salvar a democracia. Mas o circo mediático que se gerou — e que não deverá terminar tão cedo — foi mais sonoro: pôs Trump alinhado com a Rússia contra os rivais do costume, mas também jornalistas contra jornalistas e americanos contra americanos. A era da pós-verdade em todo o seu sombrio esplendor