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Internacional

Administração Trump em rota de colisão com a China

Ulet Ifansasti

Rex Tillerson, o homem que o Presidente eleito dos EUA escolheu para secretário de Estado, diz que Pequim deve ser impedida de aceder às ilhas artificiais que tem estado a construir no disputado Mar do Sul da China

O homem que Donald Trump nomeou para chefiar a diplomacia norte-americana está a criar as condições para um potencial conflito sério com a China, com base nas suas recentes declarações de que as autoridades de Pequim devem ser impedidas de aceder às ilhas artificiais que têm estado a construir no Mar do Sul da China, sob queixas e conflitos diplomáticos de e com países da região que contestam a soberania do espaço marítimo.

Esta quarta-feira, Rex Tillerson, homem do petróleo cuja escolha para secretário de Estado da futura administração americana pode vir a ser bloqueada pelo Senado, declarou que o controlo chinês e a construção de ilhas artificiais nas águas do Mar do Sul da China “é semelhante à anexação da Crimeia pela Rússia”.

“Vamos mandar um sinal claro à China de que, em primeiro lugar, tem de parar com a construção das ilhas e, em segundo, o seu acesso a essas ilhas já não vai ser permitido”, disse Tillerson durante a primeira audiência de confirmação no Senado para se tornar chefe da diplomacia sob a administração de Trump. “Eles estão a tomar conta do território ou a controlar ou a declarar controlo sobre territórios que não são da China por direito.”

Nomeação de Rex Tillerson pode ser bloqueada pelos democratas e pelo senador republicano Marco Rubio

Nomeação de Rex Tillerson pode ser bloqueada pelos democratas e pelo senador republicano Marco Rubio

ERIC PIERMONT / AFP / Getty Images

Estas declarações deverão aumentar a tensão entre o futuro governo norte-americano e Pequim, numa altura em que o governo chinês continua a aguardar desenvolvimentos após o controverso telefonema de Trump com a Presidente de Taiwan, cuja independência não é reconhecida pelo governo chinês nem pelos EUA há várias décadas.

“[O Presidente chinês] Xi Jinping não vai aceitar ser visto como fraco e mole face à pressão dos Estados Unidos, portanto estou realmente preocupado com a possibilidade de uma crise precoce com a China”, diz ao “Guardian” Bonnie Glaser, conselheiro para a Ásia do Centro de Estratégia e Estudos Internacionais. “A China tem sido contida face a todos os tweets e à retórica [de Trump], porque tem esperança de conseguir pôr a relação EUA-China num ponto de equilíbrio", acrescenta o especialista. “Os chineses ainda não desistiram disso, mas a qualquer momento Xi Jinping pode começar a desistir, porque ser visto como fraco vai prejudicar as suas capacidades para consolidar o poder.”

Embora Tillerson não tenha avançado pormenores sobre como pretende bloquear o acesso da China às ilhas, os especialistas consultados pelo jornal britânico acreditam que isso pode passar pelo destacamento de tropas navais para a região.

“Bloquear o acesso da China, presumivelmente com navios de guerra dos EUA, vai precipitar uma crise, um confronto militar”, augura Ashley Townshend, professor associado do centro de estudos dos EUA na Universidade de Sydney. “E também é ilegal, sob as mesmas regras, que os EUA estejam a conduzir toda a atual política sobre o Mar do Sul da China. Tillerson, tal como Trump, está a preparar-se para assumir uma postura mais militante e mais abrangente com a China.”

Durante a administração de Barack Obama, os Estados Unidos mantiveram uma postura menos confrontativa face às reivindicações de soberania de Pequim, sem reconhecerem a qualquer nação o controlo do espaço marítimo e enviando várias vezes navios de guerra para aquele mar, enquadrado no que o país classificou de liberdade para exercícios de navegação.

Há conflitos internos no Partido Comunista Chinês sobre quem deve suceder a Xi Jinping

Há conflitos internos no Partido Comunista Chinês sobre quem deve suceder a Xi Jinping

© Bogdan Cristel / Reuters

Pequim reclama soberania sobre quase todo o espaço marítimo e já construiu sete ilhas artificiais sobre recifes e rochas, equipando-as com pistas militares e sistemas de defesa antiaérea. No ano passado, um tribunal internacional de arbitragem ditou que a maior parte das reivindicações territoriais chinesas são inválidas, mas o veredicto surtiu pouco efeito junto do executivo de Xi Jinping. 2017 é um ano crucial para Xi e para o Partido Comunista Chinês, que tem marcado para o final do ano um congresso especial para remodelar o governo e em princípio escolher o sucessor do atual Presidente.

No ano passado, Xi usou um discurso público para avisar as nações envolvidas no conflito de que Pequim não terá pudores em reagir ao que diz serem potenciais violações da sua soberania. “Nenhum país estrangeiro deve esperar que aceitemos engolir o fruto amargo prejudicial para a nossa soberania, segurança e interesses.”

Esta quarta-feira, na audiência de confirmação no Senado, Tillerson criticou ainda a China por não manter o programa nuclear da Coreia do Norte em cheque, dizendo que Pequim tem “total controlo sobre o que sustém o governo” norte-coreano. “Não podemos continuar a aceitar promessa vazias, como as que a China fez sobre pressionar a Coreia do Norte a aplicar reformas para depois se escusar a aplicar essa pressão”, disse o potencial futuro chefe da diplomacia dos EUA. “Olhar para o lado quando a confiança é quebrada só encoraja mais maus comportamentos. Isso tem de acabar.”

Sobre a linguagem tempestuosa e as ameaças proferidas por Tillerson, Townshend diz que o resultado pode ser o inverso: em vez de conseguir que a China atue da forma que os EUA querem, a administração Trump poderá pôr em risco a cooperação com Pequim noutras áreas importantes. “Não consigo pensar numa solução para a questão nuclear da Coreia do Norte que não envolva a China e os EUA trabalharem em conjunto. Criticar publicamente a China não me parece a melhor estratégia quando se quer induzir o país a cooperar.”