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Trump, Rússia, chantagem e ‘golden shower': o documento que anda a circular nos corredores de Washington

AFP/GETTY IMAGES

Há uma semana, as agências secretas dos EUA apresentaram a Barack Obama e a Donald Trump uma sinopse de um dossiê onde é alegado que Vladimir Putin tem estado a reunir “podres” sobre o Presidente eleito para o chantagear, ao mesmo tempo que se manteve em contacto com a equipa do americano durante a campanha para o ajudar a ganhar as eleições. Os serviços de informação ainda não apuraram a veracidade de algumas das alegações, mas garantem que a fonte é fidedigna

Quase ninguém sabe ainda o que esperar da conferência de imprensa que Donald Trump convocou para esta quarta-feira, a primeira que dá desde que venceu as primárias do Partido Republicano em julho. O encontro com os jornalistas estava inicialmente marcado para dezembro, um mês depois de ter derrotado Hillary Clinton nas presidenciais, mas poucos dias antes foi cancelado pela equipa de Trump sob o argumento de que o Presidente eleito estava assoberbado com as tarefas que a transição política para a Casa Branca envolve.

Desde então, os media aguardam com algum entusiasmo a possibilidade de se encontrarem cara a cara com o Presidente eleito antes da sua tomada de posse, entre outras razões pelo facto de ainda não ter explicado como vai enterrar os conflitos de interesse que estão a ensombrar a dita transição – à cabeça, o facto de ter nomeado para conselheiro da Casa Branca o seu genro Jared Kushner, desafiando as leis antinepotismo em vigor nos Estados Unidos para evitar favorecimentos ilícitos.

Não deixa de ser irónico que tenha sido esta terça-feira à noite, a poucas horas da antecipada conferência de imprensa, que a CNN decidiu noticiar em exclusivo a existência de um dossiê da comunidade de serviços de informação dos EUA com alegações sobre o Presidente eleito não só estar em contacto com os mais altos cargos do Governo russo há vários meses, como estar a ser chantageado pelo Presidente Vladimir Putin, que ao longo dos últimos cinco anos terá ordenado ao FSB, antigo KGB, que reunisse dados, informações e “podres” sobre Trump para manipular uma sua eventual candidatura presidencial, durante as várias viagens do magnata de imobiliário à Rússia.

Fontes que tiveram acesso a esses documentos dizem ao canal que o conteúdo do dossiê em questão – sobretudo baseado em informações de fontes russas mas também em dados recolhidos por um ex-agente do MI6, uma das secretas do Reino Unido – foi sumarizado num documento de duas páginas que as agências norte-americanas apresentaram há uma semana a Barack Obama e ao Presidente eleito Trump.

O briefing confidencial – que o BuzzFeed decidiu divulgar pouco depois "para que o povo americano possa formar as suas opiniões" – foi apresentado a Obama e Trump por James Clapper, diretor-geral das secretas, James Comey, diretor do FBI, John Brennan, diretor da CIA, e Mike Rogers, diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA). Uma das razões que levou os chefes dos serviços de informação a incluir no briefing uma sinopse dos documentos em questão, um passo "incomum", teve como objetivo, dizem as mesmas fontes à CNN, informar o Presidente eleito sobre as alegações que têm estado a circular entre as agências, membros do Congresso e figuras da atual administração nos últimos meses.

Não é para menos, considerando que entre elas se conta a denúncia de uma "fantasia sexual perversa" que envolveu Trump contratar várias prostitutas numa viagem a Moscovo, em 2013, e ordenar-lhes que fizessem um golden shower (urinar) na cama onde o Presidente e a primeira-dama dos EUA dormiram meses antes durante uma viagem oficial à Rússia, na suite presidencial do Ritz Carlton.

Tanto o BuzzFeed como a CNN sublinham que a veracidade desta e de outras informações contidas no dossiê ainda não foi confirmada "e pode nunca vir a ser", embora os serviços de informação norte-americanos já tenham atestado a credibilidade da fonte que as apresentou, o tal ex-espião britânico que criou uma agência de venda de informações secretas quando se reformou do MI6.

A CNN reviu as 35 páginas de memorandos, a partir das quais a sinopse de duas páginas foi produzida, e refere que essas informações foram compiladas primeiro a mando de republicanos que se opunham à candidatura de Trump e, mais tarde, a mando dos democratas que queriam minar as possibilidades de o candidato da oposição ser eleito.

Contudo, o canal referiu também que, "para já, não vai publicar detalhes sobre os memos, porque ainda não corroborou de forma independente alegações específicas" contidas no dossier. O BuzzFeed, pelo contrário, decidiu tornar pública a sinopse do material mesmo sem confirmar a veracidade do seu conteúdo, sob críticas de violação da ética profissional. Alguns jornalistas e ativistas já saíram em defesa do site, caso de Richard Tofel, presidente da ProPublica.

Alex Wong

Mais do que o golden shower ou outras informações escabrosas que o FSB possa ter recolhido para manipular e controlar Trump, as fontes ouvidas pela CNN sublinham que os documentos servem sobretudo para reforçar a crença de que a Rússia se ingeriu de facto nas eleições americanas com o intuito de prejudicar a candidatura de Clinton. Isto porque, naquelas 35 páginas, estão incluídas alegações de que houve uma contínua troca de informações durante a campanha entre representantes do candidato republicano e intermediários do governo russo – uma teia de conspiração que já tinha sido mencionada em briefings confidenciais apresentados aos líderes do Congresso em outubro.

Quando isso aconteceu, Harry Reid, então líder da minoria democrata no Senado, enviou uma carta ao diretor do FBI, a um mês das eleições, onde o instava a revelar publicamente tudo o que a agência sabia sobre a alegada interferência russa nas eleições por intermédio do candidato Trump. "Tornou-se claro que tem em sua posse informações explosivas sobre ligações próximas e coordenação entre Donald Trump, os seus altos conselheiros e o Governo russo – um interesse estrangeiro abertamente hostil contra os EUA."

James Comey não só ignorou esse pedido como, a apenas nove dias da ida às urnas, decidiu anunciar publicamente a reabertura da investigação a Clinton por causa do pretenso escândalo de emails no servidor privado que usou enquanto chefe da diplomacia no primeiro mandato de Obama. Foi uma decisão aparentemente política que terá custado a vitória da candidata democrata, como a própria denunciou no rescaldo da sua derrota, com um caso que rapidamente se comprovou ser um não-assunto.

Diante de um painel de senadores da comissão de serviços de informação da câmara alta do Congresso, Comey declarou esta terça-feira que "nunca comentaria investigações, se estão em curso ou não, num fórum aberto como este", quando foi questionado sobre se o FBI já abriu ou não um inquérito às alegadas ligações de Trump à Rússia. "Espantoso, considerando que [em outubro] passou a linha ao falar de Hillary Clinton" num fórum ainda mais público, nas televisões para toda a nação ouvir, sobre uma investigação em curso que foi rapidamente abandonada por falta de coerência – assim reagiu o site "New Civil Rights Movement".

Ao "The Guardian", fonte da administração Obama disse, sob anonimato, que a fonte das novas alegações é "consistentemente fidedigna, meticulosa e bem-informada e tem a reputação de ter uma extensa rede de contactos russos". Num dos documentos, que o jornal britânico também consultou e que terão sido entregues ao FBI pelo senador republicano John McCain, é revelado que o Kremlin esteve a "cultivar, a apoiar e a dar assistência a Trump" pelo menos nos últimos cinco anos, com o objetivo de encorajar "divisões na aliança ocidental". Putin também ordenou a recolha de informações sobre Clinton, mas desse dossiê constarão apenas pouco mais do que conversas da ex-secretária de Estado escutadas por agentes do FSB em viagens de Clinton à Rússia; a coisa mais escandalosa que conseguiram recolher foi ouvir a candidata a desdizer em privado coisas que defende publicamente.

No mesmo memorando é ainda referido que apesar de Trump ter recusado "várias propostas de negócios de imobiliário oferecidas de bandeja pela Rússia", em particular relacionados com o Mundial de futebol de 2018, o Presidente eleito "e o seu círculo próximo aceitaram o fluxo regular de informações secretas do Kremlin, incluindo sobre os seus rivais políticos, entre eles a candidata democrata". E acrescenta: "O FSB tornou Trump vulnerável através das suas atividades em Moscovo o suficiente para conseguir chantageá-lo."

A equipa de transição de Trump continua em silêncio desde as revelações, escusando-se a responder a vários pedidos de comentário da CNN, do "The Guardian" e de outros meios.

Já no Twitter, a plataforma de eleição de Trump para comunicar com os eleitores, o futuro líder norte-americano clamou: "NOTÍCIAS FALSAS — UMA CAÇA ÀS BRUXAS TOTALMENTE POLÍTICA!" Resta saber que declarações fará, ou não, esta tarde, quando se encontrar com os jornalistas americanos em Nova Iorque.