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A despedida emocionada de Obama: “A democracia fica ameaçada quando a tomamos por garantida”

John Gress / Reuters

Presidente em fim de mandato quis “voltar ao sítio onde tudo começou”, Chicago, para o seu último discurso à nação antes de passar o testemunho a Donald Trump

Durante vários meses, muitos americanos, e por acréscimo muitos que fora dos Estados Unidos seguem a política interna do país, acharam que na terça-feira à noite, madrugada desta quarta-feira em Portugal, estariam a ouvir Barack Obama a preparar-se para passar o testemunho a Hillary Clinton. Só que foi Donald Trump quem ganhou as eleições presidenciais de novembro e, por esta altura, haverá poucos que não o saibam, até os que não costumava prestar atenção à política doméstica norte-americana.

Obama sabe que todos sabem quem é Donald Trump, o que tem dito e feito desde antes de derrotar Clinton graças ao sistema eleitoral americano, que neste caso ditou que o empresário populista vencesse apesar de ter obtido menos quase três milhões de votos populares que a rival democrata. Talvez por isso, ou até para evitar cair em maledicência num momento de tamanha emoção como o da despedida, decidiu concentrar-se não no Presidente eleito mas nos problemas que o produziram e que levaram os Estados Unidos ao momento epopeico em que o país se encontra – uma epopeia onde as pessoas comuns são as potenciais heroínas.

"Aprendi convosco todos os dias. Fizeram de mim um Presidente melhor e um homem melhor", declarou à plateia que se reuniu para se despedir dele ao vivo, não na Casa Branca como é costume mas numa arena de Chicago, "o sítio onde tudo começou" e onde Obama quis voltar para fechar o círculo. "Talvez continuem sem acreditar que conseguimos isto tudo", disse precisamente 2989 dias depois de ter subido a um palanque do Grant Park para agradecer aos que tinham acabado de o eleger para um primeiro mandato, no final de 2008.

Antes disso, era um senador relativamente desconhecido. Agora é um homem que fez história e que muitos não querem ver partir. "Mais quatro anos, mais quatro anos!", gritaram da assistência esta noite. Obama fez o que já é costume e levantou uma mão para acalmar as vozes. "Não, não, não, não posso fazer isso. Dentro de dez dias, o mundo vai testemunhar um marco da nossa democracia: a transferência pacífica de poder de um Presidente eleito livremente para outro. Comprometi-me com o Presidente eleito Trump que a minha administração iria assegurar a transição mais suave possível, tal como o Presidente Bush fez por mim."

Oito anos depois de terem visto o primeiro Presidente negro da sua História chegar à Casa Branca, os norte-americanos preparam-se para vê-lo ser substituído por um homem sem experiência política, de currículo duvidoso e retórica ainda mais suspeita, responsável por uma das campanhas mais xenófobas e divisivas da memória moderna e que tem estado a desafiar tudo e todos desde que venceu — desde não dizer o que planeia fazer em relação aos seus negócios para eliminar qualquer possibilidade de conflitos de interesse, até nomear o genro para um cargo na Casa Branca e pressionar Governos estrangeiros a ficarem nos hóteis da cadeia Trump.

Obama, o homem das raízes, o filho de um pastor queniano que chegou a autointitular-se de "miúdo magricela com um nome esquisito", preferiu não seguir a vereda dos ataques diretos. Evitou a maledicência e o criticismo e escolheu a rota do otimismo cauteloso. Declarou que, "em quase tudo, a América é um sítio melhor e mais forte" passados oito anos e que a retórica sobre uma era pós-racial não corresponde à realidade. "Depois da minha eleição, houve muita conversa sobre uma América pós-racial, mas essa visão, embora bem intencionada, nunca foi realista, já que a raça continua a ser uma força potente e muitas vezes divisiva na nossa sociedade".

Mas, concedeu, "a democracia está sob ameaça", uma ameaça que não é de agora mas sim latente, que levanta a cabeça "sempre que se toma a democracia como dado adquirido". Por essa razão, depende das pessoas comuns para sobreviver e continuar a singrar, a começar pela capacidade de cada um para cultivar relações com americanos de todas as origens e não apenas aqueles que integram as "bolhas" que criamos para lidar com a realidade, lembrou.

"Temos de prestar atenção e escutar. Se estão fartos de discutir com estranhos na internet, tentem falar com estranhos na vida real", disse sob gargalhadas e aplausos dos presentes. "Para muitos de nós, tornou-se mais seguro resguardarmo-nos nas nossas próprias bolhas, quer seja nos nossos bairros, campus universitários, locais de culto ou nos feeds das redes sociais, rodeados de pessoas que se parecem connosco e que partilham da mesma visão política e que nunca vão desafiar as nossas suposições."

A realidade, contudo, pede outra postura e foi essa a grande mensagem que Obama escolheu deixar aos norte-americanos esta noite, a pouco mais de uma semana de partir para outras aventuras, já longe dos holofotes presidenciais. "A subida da parcialidade partidária, o aumento da estratificação económica e regional, o estilhaçar dos nossos media em canais para todos os gostos – tudo isto faz esta divisão parecer natural, até inevitável. E assim tornamo-nos cada vez mais seguros nas nossas bolhas a um ponto em que aceitamos apenas informação, verdadeira ou não, que se enquadra nas nossas opiniões, em vez de basearmos as nossas opiniões nas provas que existem."

Exemplo disso, apontou, são as alterações climáticas, um facto cientificamente comprovado que o Presidente eleito e vários seus apoiantes dizem ser um "embuste" e não uma ameaça real, concreta e investigada há décadas. "Sem uma base factual comum, sem a vontade de aceitar nova informação e conceder que o nosso rival pode ter razão no que diz, e que a ciência e que a razão têm importância, vamos continuar a falar para o boneco, tornando impossível encontrar terreno comum e alcançar compromissos."

É por isso que a democracia depende não apenas de quem é eleito mas dos que elegem. "A nossa Constituição é um presente lindo e notável. Mas é só um pedaço de pergaminho. Não tem poder em si mesma. A democracia precisa de vocês. Não apenas quando há uma eleição, não apenas quando há interesses pessoais em jogo, mas ao longo da vida inteira. Se alguma coisa precisa de ser consertada, apertem os atacadores e organizem-se. Se estão desapontados com os vossos representantes eleitos, peguem numa folha, recolham assinaturas e candidatem-se vocês. Dêem a cara. Mergulhem. Mantenham-se firmes. Numas vezes vão ganhar, noutras vão perder. Mas mais vezes do que esperam a vossa fé na América, e nos americanos, vai ser comprovada."

Apesar da força da retórica a que Obama nos foi habituando, o derradeiro discurso a uma audiência de cerca de 18 mil pessoas foi até relativamente ameno. Pelo menos até chegar o momento de agradecer a Michelle, aí já com os olhos marejados de lágrimas. "Nos últimos 25 anos, foste não só a minha mulher e a mãe das minhas filhas, foste a minha melhor amiga. Assumiste um papel que não pediste para assumir e tornaste-o teu com elegância, coragem, estilo e bom humor. Fizeste da Casa Branca um sítio que pertence a toda a gente." Ao lado da mãe, a filha Malia largou umas lágrimas com o pai (a mais nova, Sasha, ficou em Washington a estudar para um exame — assim explicou a Casa Branca depois de um sem número de pessoas questionarem a ausência da Obama mais jovem).

Elegante foi ele também, ao lembrar que contra a divisão e o medo é preciso união. "Estou a pedir-vos que acreditem. Não na minha capacidade para trazer mudança mas na vossa. [...] Peço-vos que se agarrem com força a essa fé", a fé na América, "inscrita nos documentos fundadores" da nação. "Essa ideia murmurada por escravos e abolicionistas, esse espírito cantado por imigrantes e por aqueles que marcharam pela justiça. A crença reafirmada por aqueles que plantaram bandeiras em campos de batalha no estrangeiro e na superfície da lua, uma crença que está no âmago de cada americano cuja história ainda não foi escrita", disse sob fortes aplausos. "Yes we can. Yes we did (sim podemos, sim conseguimos). Obrigado."