Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Morreu Clare Hollingworth, a jornalista que descobriu que a II Grande Guerra ia começar

LAURENT FIEVETAFP/Getty Images

Tinha 105 anos e morreu esta terça-feira, 10 de janeiro de 2017, em Hong Kong, onde vivia desde os anos 80

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

Foi um daqueles acasos que, na maior parte das vezes, só acontecem uma vez na vida. Clare Hollingworth, na altura com 27 anos, trabalhava há três dias do jornal britânico The Daily Telegraph e viajava de Gleiwitz, então na Alemanha, para Kotowice, na Polónia, mesmo na fronteira entre os dois países. "Fui lá para cuidar dos refugiados, dos cegos, surdos e mudos", disse numa entrevista em 2009. Mas o que encontrou foi bem mais relevante historicamente.

Estava vento nesse dia e, durante a viagem reparou num grande aparato de tanques e de carros e tropas armadas que se escondiam num vale por trás de uma lona que tinha sido destapada. No seu entender, a Alemanha estava a preparar-se para uma invasão militar sobre a Polónia. Assim que chegou a Kotowice ligou ao editor e disse-lhe o que tinha visto. No jornal do dia seguinte, 29 de agosto de 1939, no artigo - que não estava assinado - escrevia: "Mil tanques escondidos na fronteira com a Polónia. Dez divisões a postos para atacar" (100 tanks massed on polish border. Ten divisions reported ready for first strike".

A 1 de setembro, a Alemanha invadiu a Polónia e começou a II Grande Guerra Mundial. Foi "provavelmente, a maior cacha dos tempos modernos", escreveu o The Guardian em 2015.

Aliás, foi também ela que ligou ao seu editor, diretamente de Katowice, de onde conseguia ver as bombas a explodir. Segundo conta o New York Times, Clare ligou a um amigo na embaixada britânica e disse-lhe, a chorar, "a Guerra começou". "Tens a certeza?", perguntou-lhe o amigo. Clare teve de colocar o telefone à janela para que ele ouvisse os tanques a entrar na cidade.

Esta terça-feira, 10 de janeiro de 2017, Clare Hollingworth morreu em Hong Kong, onde vivia desde os anos 80. Tinha 105 anos e uma vida bem vivida.

Depois daquela cacha, e nos 40 anos seguintes, Clare tornou-se jornalista e correspondente de guerra, não só da Segunda Grande Guerra, mas também da guerra nos Balcãs e Norte de África, da guerra civil na Gécia e na Argélia, na guerra do Vietname ou nos conflitos entre Árabes e Judeus durante o mandato britânico na Palestina. E foi ainda a primeira jornalista ocidental a reportar da China onde o Telegraph abriu em 1973, conta ainda o New York Times.

O New York Times conta que, lembrando declarações de Ckare, que ela só estava realmente feliz quando andava pelo mundo equipada com pouco mais que uma escova de dentes, uma máquina de escrever e, caso fosse necessário, um revolver. Dormia onde podia e calhava e escapou à morte uma série de vezes. "Tenho de admitir que gosto de estar numa Guerra", disse ao Telegraph em 2011, quando fez 100 anos.

O escândalo de ser jornalista

Clare Hollingworth nasceu a 10 de outubro de 1911 em Knighton, Inglaterra, perto de Leicester. Enquanto criança, conta o The New York Times, gostava de andar a visitar antigos campos de batalha em Inglaterra e França juntamente com o pai, que era dono de uma fábrica de botas e sapatos.

Os pais insistiram que tivesse aulas de ciências domésticas em Leicester, mas Clare detestou. "Apesar de ser muito últil saber fazer uma omelete. O meu treino em ciências domésticas fez com que destestasse qualquer tipo de tabalho doméstico", escreveu Clare.

Pior ainda quando anunciou que ia ser jornalista, deixando a sua mãe escandalizada. "A minha mãe achava o jornalismo uma porfissão muito baixa e não acreditava em nada que os nornalstas escreviam", contou Clare numa entrevista ao Telegraph em 2011.

Mas a decisão estava tomada e no início dos anos 30, Clare foi para a faculdade em Londres, depois esteve em Zagreb, na altura na Jugoslávia. Contudo, não começou logo como jornalista. Esteve primeiro numa organização social em Varsóvia através da qual ajudou refugiados a fixarem-se na Polónia. Foi precisamente por este trabalho que o Thelegraph a decidiu contratar, a 25 de agosto de 1939, e a enviou para Katowice para reportar o prenúncio da guerra.

O resto, já se sabe, é História.