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Internacional

Inaugurada “a melhor e derradeira hipótese” para reunificar a ilha de Chipre

A ilha de Chipre está dividida a meio desde que o país se tornou independente do Reino Unido em 1974

IAKOVOS HATZISTAVROU

Presidente cipriota e representante dos cipriotas turcos estarão hoje reunidos em Genebra para dar início às primeiras negociações diretas e oficiais em 43 anos, antes de um encontro oficial entre autoridades da Grécia, da Turquia e da Grã-Bretanha, que começa na quinta-feira para tentar enterrar o longo conflito diplomático

Tem início esta segunda-feira um esforço histórico para acabar com a divisão de Chipre, com os representantes das comunidades grega e turca a retomarem as negociações da reunificação já hoje, em antecipação da primeira conferência multilateral dedicada à reunificação da ilha pela primeira vez desde a sua partição há 43 anos.

Depois de 18 meses de intensas negociações para enterrar divisões interétnicas, Nicos Anastasiades e Mustafa Akinci vão encontrar-se na sede da ONU em Genebra para afinar os detalhes de um eventual acordo de paz a ser levado a referendo. O encontro é visto como um momento decisivo no longo e árduo processo para tentar resolver o que o "The Guardian" diz ser "o cubo de Rubik da diplomacia" internacional.

Antes das reuniões marcadas para esta semana, António Guterres, o novo secretário-geral da ONU, aplaudiu a "oportunidade histórica" e pediu "soluções inovadoras" para enterar o conflito. Em Nicósia, a capital e a maior cidade de Chipre, autoridades dos dois lados da "linha verde", assegurada pela ONU há cinco décadas décadas para impedir a explosão de conflitos interétnicos entre cipriotas gregos e turcos, dizem que esta é "a melhor e a derradeira hipótese" de se alcançar um acordo de paz. Outros especialistas citados pelo jornal britânico dizem que, se os esforços falharem, não restarão alternativas.

"Esta é a fase final da fase final", vaticina Hubert Faustmann, professor de História e Ciência Política na Universidade de Nicósia. "Será a primeira vez desde 1974 que a Turquia e os cipriotas gregos vão manter conversações diretas sentados à mesma mesa."

Na quinta-feira, 12 de janeiro, autoridades da Grécia, da Turquia e da Grã-Bretanha, ex-colonizadora de Chipre – os três "fiadores" da ilha sob a Constituiçao pós-independência cipriota – vão estar reunidas na sequência do encontro de hoje para discutir a segurança no território e a presença de tropas numa futura federação. "É uma fase final clássica de negociações", explica Faustmann. "Questões que nunca foram alvo de consenso e que têm estado pendentes vão agora estar interligadas."

O Presidente de Chipre, Nicos Anastasiades (dta) num aperto de mão com o líder dos cipriotas turcos, Mustafa Akinci

O Presidente de Chipre, Nicos Anastasiades (dta) num aperto de mão com o líder dos cipriotas turcos, Mustafa Akinci

IAKOVOS HATZISTAVROU

O que está em causa

A ilha de Chipre está dividida a meio desde 1974, quando na sequência de um golpe de Estado liderado por militares gregos a Turquia invadiu o norte da ilha para defender seus interesses e a população de origem turca ali instalada. Nessa zona, até hoje ocupada por tropas turcas, foi declarada a República Turca de Chipre do Norte, reconhecida apenas por Ancara.

A grande novidade neste longo processo é o facto de Anastasiades e Akinci terem aceitado encontrar-se antes da conferência marcada para o final da semana. Tanto Akinci como Anastasiades, que lidera o Chipre de Sul com reconhecimento internacional, evocam memórias de um passado não muito longínquo em que a coexistência era uma realidade, o que, dizem, alimenta o desejo de ambos em voltar a unificar o território.

No fim de semana, os governos da Turquia e do Reino Unido sublinharam a urgência de se encontrar uma solução para a questão cipriota em 2017. Em comunicados emitidos por ambos — depois de Theresa May ter telefonado ao Presidente turco Recep Tayyip Erdogan antes da sua viagem oficial a Ancara este mês — Downing Street disse que, nesta altura de profunda incerteza na Europa, enterrar o conflito terá um impacto positivo para "uma área alargada" e não apenas para os que habitam a ilha.

"A conversa oferece uma oportunidade real de garantir um futuro melhor para o Chipre e de assegurar a estabilidade de uma região mais alargada", declarou o gabinete da primeira-ministra britânica. Membros dos dois governos relevam que a perspetiva de se alcançar um acordo histórico entre gregos e turcos, cristãos e muçulmanos, no canto leste do continente europeu, envia uma mensagem poderosa de paz a todo o mundo e serve para alumiar a esperança num futuro melhor.

A "linha verde" criada pela ONU em 1964 e alargada após o golpe grego e a invasão turca do norte de Chipre dez anos depois divide a meio a capital cipriota, Nicósia

A "linha verde" criada pela ONU em 1964 e alargada após o golpe grego e a invasão turca do norte de Chipre dez anos depois divide a meio a capital cipriota, Nicósia

Andrew Caballero-Reynolds

Interesses em jogo

O início do processo diplomático para tentar resolver a situação cipriota acontece depois de terem sido descobertos depósitos de petróleo e de gás natural no Mediterrâneo oriental, colocando a ilha de Chipre numa posição de potencial eixo energético da Europa alimentado com estas reservas de recursos naturais.

Por causa dos sucessivos falhanços de anteriores negociações de paz, existe um consenso sobre estes esforços serem os derradeiros e sobre não haver mais caminho se falharem. Os analistas temem que, caso isso aconteça, a Turquia pode avançar com a anexação do norte de Chipre, onde mantém 40 mil tropas estacionadas desde o golpe grego que tinha como objetivo unificar a ilha à Grécia.

Sob o Tratado de Garantia ratificado em 1960 pela Grécia, Turquia e Reino Unido, os três países têm direitos de intervenção militar na ilha, direito esse que Ancara está determinada em manter. Qualquer potencial acordo que seja alcançado será levado a referendo entre os gregos e os turcos, à semelhança do que aconteceu em 2004, quando a minoria turca votou a favor da reunificação mas a maioria grega a rejeitou.

Convencer os turcos a ceder território suficiente para que os 90 mil cipriotas gregos deslocados após a invasão possam regressar às suas casas é tido como a alínea mais incontornável de qualquer futuro acordo. Citando violência interétnica que rebentou no rescaldo da independência de Chipre em 1974, os cipriotas turcos argumentam que as tropas da Turquia têm de continuar no terreno para os proteger de qualquer potencial conflito renovado.

A Comissão de Jean-Claude Juncker tem defendido que o facto de a ilha pertencer à União Europeia é garantia suficiente de que não voltará a haver episódios de violência. Os cipriotas gregos dizem temer que, sem a retirada das tropas turcas, será a sua própria segurança que estará para sempre em risco.