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A honra perdida do sargento Azaria

AMIR COHEN/REUTERS

Condenação de militar que executou sumariamente palestiniano ferido opõe hierarquia militar e poder judicial a Netanyahu

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

“Culpado”. Foi este o veredicto no caso Elor Azaria, o sargento de 20 anos que está nas bocas dos israelitas e que foi eleito “figura do ano” por alguns media do país. O tribunal de Telavive considerou-o responsável do homicídio involuntário de um palestiniano. Este atacara com uma faca um soldado durante a intifada de 2016, em Hebron, na Cisjordânia.

O atacante, Abdul Fatah al-Sharif, já fora atingido a tiro e estava deitado no chão quando Azaria disparou contra o palestiniano. O ato foi filmado e mais tarde divulgado pela ONG B’Tselem. O major Tom Naaman, superior do arguido, testemunhou não ter dado ordem de fogo e garantiu que Azaria lhe disse após o incidente que “o terrorista estava vivo e merecia morrer”. O tribunal não deu como provado o homicídio qualificado mas apenas o involuntário.

Se as altas patentes do Exército criticam o ato de Azaria à luz da ética militar, a opinião pública israelita absolve-o. Segundo o Instituto pela Democracia de Israel, 65% da população apoia a ação de Azaria e multiplica-se por todo o lado o epíteto de “filho de todos nós”. A polícia deteve duas pessoas por incitarem à violência através da internet. Na quarta-feira, à porta do tribunal, um grupo de manifestantes ligados a uma claque de futebol de extrema-direita, do clube Beitar Jerusalem, ameaçou o chefe do Estado-Maior do Exército, Gadi Eizenkot, de que poderia ter o mesmo fim de Yitzhak Rabin, herói de guerra, Prémio Nobel da Paz e primeiro-ministro assassinado a tiro por um extremista judeu em 1995.

Reação política

Este clima de radicalização explica-se em parte pela identificação de alguns israelitas com o sargento Azaria. Filho de um casal de classe trabalhadora mizrahi (judeus descendentes das comunidades do Médio Oriente), representa para muitos o jovem comum de Israel. “Num país com serviço militar obrigatório (exceto para os ultraortodoxos), cada cidadão que serviu nas Forças Armadas [israelitas, IDF no original] e tenha filhos de uniforme consegue imaginar-se nessa posição”, escrevia a colunista Allison Sommer esta semana. A dimensão emotiva do julgamento acentuou-se pelo seu impacto no pai de Azaria, que sofreu um derrame cerebral.

O apoio popular ao condenado ajuda a explicar por que razão até membros de partidos de centro-esquerda apoiaram a proposta de indulto presidencial, avançada pelo líder da direita ortodoxa e ministro da Educação, Naftali Bennett. O diário “Haaretz” reagiu dizendo que os recentes acontecimentos provam que o Estado de direito em Israel ainda funciona, apesar da pressão dos populistas. Afinal de contas, o poder político contribuiu para a contestação, com Bennett a falar numa sentença “manchada” e com a ministra da Cultura, Miri Regev, a acusar os juízes de formarem um tribunal “de fachada”.

Até o próprio primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, aderiu ao pedido de indulto presidencial. “Os soldados das IDF são nossos filhos e têm de ficar acima de disputas”, declarou, numa posição diferente da que tomou inicialmente, quando condenou as ações de Azaria. Uma ação que não deverá ser indiferente ao contexto internacional (investidura de Trump) e à atual investigação por corrupção que pende sobre o líder israelita. Sentindo, ou não, Azaria como um filho, “Bibi” não se pode dar ao luxo de ignorar para que lado sopram os ventos da opinião popular.