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O dia em que um roubo foi mais importante que uma violação (e como isso mudou o Reino Unido)

A trágica violação de Jill Saward, quando tinha apenas 21 anos, transformou-a numa reconhecida ativista pelos direitos das vítimas de violência sexual. Jill morreu esta quinta-feira: deixa um legado crucial para tantas mulheres. Para tantos homens. Para todos os que respeitam a vida. E também para os outros

Há 10 anos, Jill Saward explicava ao “The Guardian” que não desejava ficar para a História como a “vítima da violação do vicariato de Healing”. Mas era demasiado tarde, reconhecia ela, sabendo bem a importância da sua tragédia pessoal para tantas vítimas de violência sexual no Reino Unido. “Algo diferente seria agradável. Mas já não vai acontecer.”

Se Jill, que morreu com uns escassos 51 anos após uma hemorragia na zona craniana, pudesse ler esta sexta-feira todos os artigos e obituários que se escrevem sobre ela, todas as palavras de choque e as homenagens que recordam a sua coragem e valentia, teria uma certeza: Jill Saward foi muito mais do que uma trágica história de violação e injustiça – ela foi uma ativista “incansável”, um símbolo para as vítimas de agressões sexuais e um exemplo a seguir para tantas mulheres que passam pelo mesmo terror.

O terror de Jill, assim como a sua vida pública, começou exatamente no dia 6 de março de 1986. Nesse dia, Jill, com apenas 21 anos, encontrava-se na sua casa, no vicariato de St. Mary’s, na zona de Ealing, em Inglaterra, a ver televisão com o namorado da altura, David Kerry. Pela hora de almoço, o pai da jovem, o vicário Michael Saward, ouviu alguém bater à porta e abriu, sem poder antecipar o choque que se seguiria.

Pela porta entraram vários homens sob o efeito de drogas, pertencentes a um gangue de criminosos e armados com facas. Dois deles levaram Jill para um quarto, violando-a repetidamente até a deixarem presa à cama com uma corda. Os outros dois membros do grupo espancaram quase até à morte o pai e o namorado de Jill, recorrendo a um taco de basebol, e levaram dinheiro e joias.

Pelos contornos macabros da história, seria previsível que esta se tornasse um caso de agitação e de indignação por todo o país, com a população a pedir justiça para a jovem vítima. Mas na altura em que tudo aconteceu não foi apenas a violência que marcou o caso, que despertou a raiva e a indignação do público britânico e de tantas outras pessoas que o seguiram à volta do mundo: foi o processo judicial, assim como a cobertura mediática, que colocaram o caso na agenda pública e puseram a descoberto o grande problema do tratamento dado às vítimas de violação, tantas vezes injustiçadas.

Durante o processo judicial, um comentário ficou especialmente famoso e obrigou um magistrado a fazer um pedido de desculpas público. Considerando, segundo a interpretação de Jill, que por ter conseguido estado presente logo no início do julgamento na mesma sala que os agressores e que “por ser de uma família cristã tudo acabaria bem” para a vítima, o juiz John Leonard, de Old Bailey, dirigiu-se aos agressores: “Como o trauma da vítima não é assim tão grande, vou ser complacente convosco”.

Para fúria da opinião pública, o magistrado cumpriu a promessa. Robert Horscroft, de 34 anos, era o líder do gangue e foi um dos membros do gangue que não participaram na violação, mas apenas no roubo: como resultado, foi condenado à pena de prisão mais pesada de todas, obrigado a passar 14 anos atrás das grades. Já Martin McCall, de 22 anos na altura, foi condenado a cinco anos de prisão pela violação e cinco pelo roubo; Christopher Byrne, também com 22 anos, recebeu a sentença de apenas três anos pela violação e cinco pelo roubo.

As reações à decisão do juiz não se fizeram esperar: Neil Kinnock, então líder do Labour Party, afirmou em 1987 que “embora seja necessário um distanciamento em nome da lei, às vezes os magistrados demonstram uma insensibilidade em relação às vítimas que se torna difícil compreender”. Segundo a BBC e o “The Guardian”, também a então primeira-ministra Margaret Thatcher expressou uma “preocupação profunda” relativamente ao caso que agitou o país.

Mas o impacto do caso não se limitou à forma como Jill foi tratada durante as audiências em tribunal. Também a atuação da imprensa nacional mereceu duras críticas, com os jornais que fizeram capa com o assunto nos dias seguintes a exporem quase por inteiro a identidade da vítima: o “The Sun” publicou a localização exata do crime, acompanhada de uma fotografia de Jill em que apenas os olhos estavam tapados. Quando foi investigado, o jornal defendeu-se com uma lacuna na lei que permitia que a identidade da vítima fosse revelada pelos media enquanto não houvesse qualquer acusação formal a nenhum dos suspeitos. Ironicamente, Jill apenas pôde conhecer os nomes dos seus agressores no dia da primeira audiência, pois até aí eles estiveram protegidos pelas leis que lhes garantiam anonimato.

Jill Saward acabou mesmo por fazer História quando decidiu tornar-se a primeira vítima de abuso sexual no Reino Unido a renunciar ao direito ao anonimato, em 1990, para melhor poder falar publicamente pelos direitos das vítimas e chamar as atenções para este flagelo. Em 1987, Jill pedira que a identificação das vítimas fosse proibida, conforme cita o “The Guardian”: “A menos que isto aconteça, outros podem ser identificados num processo de dedução feito por terceiros, por serem vítimas de um crime, tal como eu fui. Isto foi muito perturbador, tanto para mim como para a minha família. A forma como alguns jornais transmitiram esta informação foi altamente insensível e ofensiva”.

Em resposta à forma “insensível e ofensiva” como o seu caso foi tratado, Jill decidiu, em vez de se resguardar ou esconder, falar publicamente para evitar que outras vítimas passassem pelo mesmo. Nas três décadas que se seguiram ao ataque, Jill lançou um livro, chamado “Rape: My Story”, onde contava o seu caso; deu formação a estudantes, agentes da polícia e juízes por todo o Reino Unido sobre a forma como lidar com as vítimas; fez parte de agências governamentais que trabalharam para mudar a formulação destas leis; e apareceu vezes incontáveis nos media para chamar a atenção para o problema.

Muitas das vitórias de Jill, a quem o crédito é dado por todos, desde organizações de defesa dos direitos das mulheres a políticos de primeira linha, são hoje reconhecíveis na lei: desde o seu ataque, a lacuna que permitia que as vítimas fossem identificadas foi resolvida; passou a ser possível apelar contra sentenças “complacentes” para com os agressores; a violação dentro do casamento passou a ser reconhecida como uma ofensa criminal; o sexo anal e oral passaram a ser considerados violação; os suspeitos sem advogado, que se representassem a si próprios em tribunal, foram proibidos de interrogar as vítimas; houve restrições sobre as “provas” que podem ser ouvidas em tribunal relativamente ao comportamento sexual das vítimas; e os violadores passaram a ser condenados a sentenças mais pesadas. Fora do domínio da lei, também o Press Council criou um guia de regras sobre a forma como casos de violação devem ser noticiados.

Jill nunca parou de defender os direitos das vítimas: em 2015, falou publicamente contra os pedidos para que os suspeitos de agressão sexual gozassem de anonimato, e recentemente pediu que vários graus de violação fossem reconhecidos na lei (argumentando, por exemplo, que um caso é mais grave quando o agressor está armado, fazendo com que a vítima “tema pela sua vida”). E a postura que pautou toda a sua ação como ativista foi clara: Jill queria, e em grande medida conseguiu, que o impacto do trauma nas vidas das vítimas fosse tido em conta – que ninguém voltasse a dizer que o trauma “não era assim tão grande”, como lhe disseram a ela. Em 2013, novas regras foram postas em prática em Inglaterra e no País de Gales precisamente com o objetivo de dar mais ênfase ao tratamento correto das vítimas. Comentava Jill na altura à BBC: “Durante muito tempo, sentimo-nos deixadas de parte em relação ao sistema. As pessoas dizem com frequência que se sentem violadas de novo durante o processo judicial”.

Não tens de pedir desculpa

Houve mais um aspeto que distinguiu a ação de Jill até ao fim – a sua capacidade de perdão, ela que em 1998 se viu cara a cara com um dos membros do gangue que participara no roubo e nas agressões mas não na violação. Disse-lhe simplesmente: “Não tens de pedir desculpa”. Acrescentou à BBC: “Acredito que o perdão nos liberta. É a liberdade de seguir em frente sem ficar presa pelo passado”. E admitiu, em 2006, ao “Daily Telegraph”: “A violação muda a nossa vida, nunca somos o que éramos antes. Às vezes acho que seria bom estar cheia de ódio e de vingança. Mas acho que isso cria uma barreira e que seria eu a acabar magoada. Por isso, mesmo que me torne vulnerável, o perdão é uma libertação. Acho que não estaria aqui hoje sem a minha fé cristã. Foi isso que me ajudou a seguir em frente”

Admitindo um “profundo choque e uma grande tristeza” com a prematura morte de Jill, aos 51 anos, a família – composta pelo esposo, Gavin Drake, três filhos e três irmãos – anunciou a morte da reconhecida ativista nesta quinta-feira, obtendo reações de altos responsáveis da Igreja inglesa ou de líderes políticos como Jeremy Corbyn, do Labour Party britânico. Tendo sofrido uma hemorragia na zona craniana na terça-feira, Jill já não tinha grandes condições para sobreviver, pelo que Gavin anunciara quarta-feira que o corpo estava a ser preparado para a doação de órgãos que Jill pedira em vida: “Ela passou 30 anos a ajudar os outros. É o último ato mais adequado para ela”.