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Trump declarou €298 milhões em dívidas mas deixou de fora €1,4 mil milhões

reuters

Durante a campanha, o Presidente eleito dos EUA declarou à Comissão Federal Eleitoral que deve cerca de 298 milhões de euros a dez entidades. Investigação do “Wall Street Journal” apurou, contudo, que o futuro líder norte-americano só declarou dívidas a entidades que controla totalmente, e não os milhares de milhões de dívida titularizada que contraiu junto de pelo menos 150 entidades financeiras

Durante o verão, quando as sondagens norte-americanas antecipavam em uníssono a vitória da democrata Hillary Clinton nas presidenciais de novembro, Donald Trump entregou à Comissão Federal Eleitoral (FEC, na sigla inglesa) documentos que revelavam que deve pelo menos 315 milhões de dólares (cerca de 298 milhões de euros) a dez entidades.

Enquanto líder dos EUA, prestes a tomar posse dentro de duas semanas, Trump será responsável por regular entidades às quais deve dinheiro, o que na prática tira poder de alavancagem às empresas e instituições sobre o devedor no processo regulatório. É mais um conflito de interesses a ensombrar a futura administração norte-americana, mas aparentemente os valores declarados eram apenas a ponta do icebergue.

Ontem, o "Wall Street Journal" revelou que os documentos entregues pelo magnata do imobiliário à FEC só diziam respeito a dívidas que contraiu junto de entidades que ele controla totalmente. Isto deixa de fora "mais de 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,4 mil milhões de euros) emprestado para parcerias que ele detém a 30%". Essas dívidas foram contraídas junto de pelo menos 150 entidades financeiras, na sua maioria de Wall Street, e estão titularizadas (um processo em que parte do activo de uma empresa é vendido a outra entidade que, por sua vez, vai emitir títulos de dívida negociáveis dando como garantia aos investidores os activos adquiridos).

Entre as instituições a quem Trump deve milhões contam-se muitas empresas que, segundo o WSJ, estão sob escrutínio de agências federais que o Presidente eleito vai passar a controlar em breve. A Wells Fargo, por exemplo, que emprestou mais de 900 milhões de dólares a Trump, "está atulamente a enfrentar uma investigação dos reguladores federais por alegadas práticas de venda fraudulentas e outras questões".

Em dezembro, um mês depois de ter vencido as eleições norte-americanas com menos três milhões de votos que a rival democrata, o candidato republicano tinha convocado uma conferência de imprensa para explicar o que pretende fazer para enterrar os vários conflitos de interesses em torno dos seus negócios. Essa conferência foi cancelada e entretanto reagendada para 11 de janeiro, próxima quarta-feira, embora tudo indique que a conversa com os jornalistas não estará exclusivamente focada nas atividades financeiras do Presidente eleito.

Nesse dia, faltarão apenas nove dias para Trump tomar posse e suceder a Barack Obama na Casa Branca. Até agora, o futuro Presidente dos EUA disse apenas que não pretende afastar-se do seu império, tendo como plano passar o controlo das empresas para os seus filhos. No final de novembro, dois conselheiros de ética do ex-Presidente George W. Bush e de Obama sublinharam que o Colégio Eleitoral — o órgão que permite que um candidato vença as presidenciais norte-americanas com menos votos populares que um rival e cujos membros aprovaram a eleição de Trump há menos de um mês devia chumbar o candidato republicano se ele não vendesse os seus negócios. O Gabinete de Ética do Governo e outros especialistas têm igualmente sublinhado a única forma de Trump evitar conflitos de interesses é vender as empresas e colocar o dinheiro da venda num fundo fiduciário 'cego' (blind trust).

Em vez disso, Trump continua a pisar a linha, sobretudo pressionando Governos estrangeiros a investirem no seu novo hotel em Washington DC (numa concessão federal do edifício em questão que representa outro grande conflito de interesses do futuro líder). Receber dinheiro de outros Estados enquanto Presidente é uma clara violação da Constituição, da mesma forma que Trump estará a desrespeitar a lei se, quando tomar posse a 20 de janeiro, ainda não tiver enterrado a questão dos negócios.