Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

UE “está a ser prejudicada” pelo Brexit e pela subida do populismo

VINCENT KESSLER / REUTERS

Na sua última entrevista enquanto Presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz ressalta as diferenças entre a geração de Kohl e Mitterrand e a geração de Viktor Orbán e relembra que “a união só é forte na medida em que os Estados-membros o permitam”

A União Europeia está a ser prejudicada pelo falhanço dos líderes nacionais em atraírem os habitantes dos seus países à visão de uma Europa unida que levou "a geração de Helmut Köhl e François Mitterrand" a apostar em força no bloco regional. Para Martin Schulz, os governos nacionais não têm tido a coragem política suficiente para enfrentar a subida da direita populista e reforçar as bases da estrutura da união para dar resposta a desafios como o Brexit.

Na sua última grande entrevista antes de abandonar a presidência do Parlamento Europeu, o social-democrata alemão sublinhou na terça-feira que houve uma mudança de paradigma nas atitudes dos líderes nacionais em relação à UE e que é também por isso que a estabilidade do projeto europeu está sob ameaça.

"A geração de Köhl e Mitterrand viajou até Bruxelas com a atitude de que uma Europa forte é do interesse dos seus países. A geração de [Viktor] Orbán [atual primeiro-ministro da Hungria] diz que 'temos de defender os interesses do nosso país face à Europa', como se estivessem sob ataque de Bruxelas."

Dando o exemplo da moeda única, o alemão, que foi uma das principais figuras da política europeia durante mais de uma década, garante que se a UE "implementar tudo o que for possível sem alterar os tratados, muita coisa pode melhorar". "A Comissão e o Parlamento estariam a bordo [dessa ideia], tudo dependeria do Conselho com os seus governos nacionais", sublinha o político, eleito eurodeputado pela primeira vez em 1994. "Contas feitas, a união só é forte na medida em que os Estados-membros o permitam."

Numa conversa com jornais que integram o grupo Europa, entre eles o alemão "Suddëutsche Zeitung" e o britânico "The Guardian", Schulz mantém-se focado nas críticas a algumas lideranças nacionais, sem as nomear, acusando de forma genérica os governos de não explicarem aos seus eleitores porque é que mais poderes foram sendo transferidos para Bruxelas nos últimos anos. "As mesmas pessoas que acenam que sim em Bruxelas em casa fingem que uma qualquer força anónima as pressionou. Isso é fatal."

O alemão admite que as diferenças culturais entre o lado ocidental e o bloco de Estados-membros do leste foram parcialmente ignoradas mas defende que o continente estaria numa situação ainda mais precária sem o alargamento da UE em 2004 para oriente, que viu o número de membros subir de 15 para 25 países, passando a integrar, na sua maioria, ex-nações da esfera de poder soviético.

"Subestimámos como as duas metades da Europa se foram afastando. As estruturas culturais, científicas e políticas do ocidente não podem ser adotadas uma a uma. [Mas] sob a atual visão política russa, imaginemos que a Polónia e os países do Báltico não eram parte da UE – haveria uma profunda incerteza no continente e possivelmente um medo da guerra. É por isso que foi historicamente correto integrar aqueles países e também introduzir o euro."

Schulz, que na Alemanha está na linha da frente para substituir Frank-Walter Steinmeier enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, nega integrar o chamado establishment de Bruxelas e acusa alguns políticos e dirigentes europeus de não estarem cientes das preocupações dos eleitores.

"Alguns no aparato de Bruxelas estão de facto bastante dissociados da realidade com que as pessoas são confrontadas numa base diária." E entre os atuais eurodeputados, acrescenta o político de 61 anos, "existem três grupos: alguns estão a liderar um discurso académico pelo aprofundamento da UE, outros estão a liderar [uma fação que defende] um curso brutal de destruição, e entre eles existe uma maioria de políticos realistas."

A entrevista de Schulz e a sua anunciada partida do cerne da política europeia surgem num momento fulcral para a união – este ano é esperado que Bruxelas comece a negociar a saída do Reino Unido após a vitória do Brexit, para além de ser um ano de importantes eleições nacionais, como as eleições federais na Alemanha e as presidenciais em França, que serão ensombradas pelas crises dos refugiados e do euro e pelos atentados terroristas em países da UE que, em parte, têm alimentado a subida de popularidade da extrema-direita.