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Sinais do além. Cientistas identificam origem de ondas rádio detetadas há dez anos

Equipa de investigadores diz que “rajada rápida de rádio” registada mais do que uma vez na última década “vem de uma galáxia anã a mais de três mil milhões de anos-luz de distância da Terra”, mas parte do mistério mantém-se – o que é que a produz?

ESA / Hubble & NASA

A origem de um tipo misterioso de ondas rádio registado no espaço profundo e apenas descoberto em 2007 foi rastreada pela primeira vez, mas continua por apurar o que está a provocar estas "rajadas" cósmicas detetadas pelos astrónomos.

De acordo com uma equipa de astrofísicos de vários países num estudo divulgado na revista "Nature", as chamadas rajadas rápidas de rádio (FRB, na sigla inglesa) registadas no ano passado por um telescópio instalado no Novo México terão emanado de uma galáxia anã a mais de três mil milhões de anos-luz de distância da Terra, à semelhança de outras pulsações rádio rápidas detetadas várias vezes por equipas de astrónomos desde 2007.

Desde esse ano foram regitadas 18 FRB, mas apenas uma – aquela que foi detetada em 2012 pelo Observatório Arcebibo em Puerto Rico e batizada FRB 121102 – ocorreu várias vezes. Confrontados com o facto, uma equipa de cientistas da Universidade de Cornell liderada por Shami Chatterjee passou 83 horas ao longo de seis meses a estudar os sinais do Espaço profundo e detetou nove pulsações distintas, entre elas esta de intensa força energética. "Sabemos agora que esta rajada em particular vem de uma galáxia anã a mais de três mil milhões de anos de distância da Terra", anunciou esta quarta-feira Chatterjee em comunicado.

As FRB são emitidas apenas por microinstantes, sendo capazes de produzir por milisegundo a mesma quantidade de energia que o sol produz em dez mil anos. A descoberta pela equipa de investigadores de Cornell e de outras universidades vem eliminar uma série de teorias sobre a FRB repetidamente registada desde 2007, embora não explique para já o que é que produz estas estranhas emanações de rádio.

As causas destas rajadas de ondas longas e altamente energéticas registadas no extremo do espectro eletromagnético continuam a ser alvo de intenso debate: nos últimos dez anos houve quem defendesse que a FRB 121102 resultava de material expelido por um buraco negro, quem defendesse que tanta energia só podia vir de uma estrela gigante e outros ainda a alimentarem a especulação sobre sociedades alienígenas que querem entrar em contacto com a Terra.

Shriharsg Tendulkar, astrónomo da Universidade de Montréal que esteve envolvido na investigação do sinal, diz que "todas essas explicações foram afastadas, pelo menos para esta rajada em particular". Citado no "The Guardian", Heino Falcke, da Universidade Radboud Nijmegen na Holanda, que não participou no estudo, diz que "apesar de não dar uma resposta clara" à origem do sinal, "a descoberta é um verdadeiro marco" para o estudo do Espaço profundo.

Até agora, muitos especialistas acreditavam que as FRB eram produzidas por eventos cataclísmicos como a explosão de estrelas e a sua consequente transformação em supernovas. Embora isso possa explicar algumas das rajadas de rádio registadas pelos astrónomos, cenários como esse são inconsistentes com as pulsações múltiplas como as que a FRB 121102 gera.

Para além disso, a descoberta enterra ainda a especulação de que as FRB têm origem na galáxia onde o nosso sistema solar está localizado. "Antes de se conhecer a distância de qualquer FRB, muitas propostas para explicar as suas origens sugeriam que poderiam vir da nossa Via Láctea ou de perto dela" mas essa hipótese cai agora por terra, defende Tendulkar. "Não é nada que esteja a passar-se no nosso quintal", reforça Casey Law, coautor do estudo e professor de astrofísica na Universidade Berkely na Califórnia.