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“Diria que 99 de nós acreditam que os russos fizeram isto”

Republicanos têm-se dividido entre aqueles que acreditam que a Rússia interferiu nas eleições norte-americanas para ajudar Trump a vencer e aqueles que, na ausência de factos e conclusões finais, porque de facto ainda não os há, se têm mostrado mais cautelosos. Dizem que é preciso esperar para ver no que isto vai dar

Helena Bento

Jornalista

Enquanto Donald Trump continua a lançar farpas no seu Twitter sobre a alegada intervenção russa nas eleições norte-americanas de 8 de novembro, em relação à qual se tem mostrado muito cético, começam a surgir as primeiras divisões entre os republicanos. Enquanto uns, como John McCain, senador do Arizona, e Lindsey O. Graham, senador da Carolina do Sul, dizem acreditar na interferência da Rússia e têm reforçado a necessidade de se prosseguir com as investigações até não restaram quaisquer dúvidas, outros republicanos, reclamando a ausência de provas e conclusões finais, têm-se mostrado mais cautelosos.

A CIA e o FBI continuam a insistir ter “provas concretas” de que Rússia interferiu nas eleições norte-americanas de 8 de novembro para ajudar Donald Trump a vencer. Por causa disso, a Administração Obama anunciou recentemente um pacote de medidas para sancionar a Rússia, incluindo sanções económicas e censura diplomática, ordenando quase em simultâneo a expulsão de 35 diplomatas da embaixada da Rússia em Washington.

Já aí o senador Lindsey O. Graham dava a entender de que lado estava, ao manifestar-se a favor das sanções. “Diria que 99 de nós [senadores dos EUA, de um total de 100] acreditam que os russos fizeram isto e que alguma coisa vai ser feita quanto a isso”, dizia o republicano à CNN. Antes disso, em declarações aos jornalistas que cobriam a visita oficial, o senador já tinha declarado que “a Rússia está a tentar quebrar a espinha das democracias de todo o mundo. É altura de a Rússia perceber que já chega”.

Na quarta-feira, o presidente eleito Donald Trump voltou a atirar achas para a fogueira ao publicar uma mensagem na sua conta do Twitter em que afirmava ser “muito estranho que o briefing dos serviços secretos sobre a suposta intervenção russa nas eleições norte-americanas tenha sido adiado para a sexta-feira”. “Talvez precisem de mais tempo para construir a acusação”, escreveu Trump, instalando assim a dúvida e a intriga uma vez mais.

O senador John McCain, que tal como Lindsey Graham defende que as sanções devem ter como alvo o próprio Presidente russo Vladimir Putin e não apenas empresas e figuras de relevo na Rússia, e que tem sido um dos republicanos que mais convictamente tem defendido a necessidade de se prosseguir as investigações com firmeza e mão de ferro, disse na quarta-feira ao “Washington Post” não se identificar nem se deixar “influenciar” pelas alegações de Trump.

Do outro lado da barricada estão senadores republicanos como Thom Tillis (Carolina do Norte) e figuras obviamente próximas de Trump, que já trabalharam ou trabalham com ele, como Kellyanne Conway, que entrou para a sua equipa em julho de 2016, em substituição do antigo diretor de campanha Paul Manafort, e que se destacou pela presença constante na televisão e redes sociais, tendo sido posteriormente convidada por Donald Trump a assumir o cargo de sua conselheira.

Em declarações recentes à CNN, Conway disse que as acusações contra a Rússia não passavam de uma “manobra de distração” e acusou o Comité Nacional Democrático de ser o principal e único responsável pelo roubo e divulgação dos documentos que se revelaram embaraçosos para a então candidata democrata Hillary Clinton, por não ter sido capaz de assegurar a sua própria segurança. “Nós não concordamos que governos internacionais interfiram nas nossas eleições ou nos nossos serviços secretos. Mas também não concordamos que os nossos serviços secretos interfiram nas eleições quando tudo o que há são factos”, disse então Kellyanne Conway.

Declarações semelhantes - pelo menos em termos de posicionamento - fizeram também recentemente Carter Page, que foi conselheiro de Trump para os assuntos internacionais durante a campanha para as eleições presidenciais, e John Bolton, antigo embaixador dos Estados Unidos nas Nações Unidas e que chegou a ser tido como um dos favoritos para o cargo de secretário de Estado de Donald Trump.

Quando surgiram as primeiras notícias sobre a alegada interferência da Rússia nas eleições, Carter Page começou por dizer que as acusações não passavam de “especulação”, uma vez que não havia “provas suficientemente fortes”, mas depois foi mais longe e acusou mesmo o Comité Nacional Democrático de ter ele próprio roubado e divulgado os documentos para poder depois acusar a Rússia de o ter feito. “Falei com muitos especialistas na área da tecnologia que me disseram que há uma forte possibilidade de isso ter acontecido”, disse Page.

John Bolton fez acusações muito semelhantes numa entrevista à Fox News, durante a qual disse que não era “nada claro” para ele que tudo isto não tivesse passado de uma “operação falsa” conduzida pela administração de Barack Obama.

Já Thom Tillis, senador da Carolina do Norte, num registo mais neutro mas ainda assim revelador de grandes reservas em relação ao assunto, disse que Trump devia aproveitar a audiência desta quinta-feira do Comité dos Serviços Armados do Senador para contestar as alegações dos serviços secretos sobre o papel da Rússia nas eleições. “Quem vive pela espada, tem de estar preparado para morrer pela espada”, disse o senador republicano citado pelo “Washington Post”. Sabendo que deveria ser mais explícito, disse depois: “Quem divulga informação antes de estar preparado para apresentar os factos, tem de estar preparado para as reações das pessoas”.