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Apple retira aplicação do “New York Times” da sua app store “a pedido do Governo chinês”

FRED DUFOUR/GETTY IMAGES

Aplicação foi retirada da loja virtual na China por “violar regulamentos locais”. Embora o jornal norte-americano o afirme, não é claro que tenham sido as autoridades chinesas a ordenar a retirada. Sobre isso, a Apple ainda nada disse

Helena Bento

Jornalista

A Apple retirou a aplicação do “New York Times” da sua app store (loja virtual) na China “a pedido do Governo chinês”, informou esta quinta-feira o próprio jornal norte-americano.

De acordo com Fred Sainz, porta-voz da Apple, a aplicação foi retirada porque a empresa tecnológica foi “informada de que estavam a ser violados regulamentos locais”. Em declarações ao jornal norte-americano, o porta-voz sublinhou que quando “a situação mudar, a App Store vai disponibilizar novamente a aplicação do New York Times na China”.

Não foram avançados, contudo, quaisquer detalhes sobre este alegado incumprimento - Fred Sainz escusou-se a referir, por exemplo, que regulamentos foram violados e de que forma, recusando-se igualmente a prestar esclarecimentos sobre a origem do pedido e se foi apresentada ou não uma ordem de tribunal ou outros documentos para avançar com a eliminação legal da aplicação. “Há algum tempo que não é permitido à aplicação do jornal exibir conteúdos à maioria dos utilizadores na China”, disse apenas Fred Sainz.

As aplicações do jornal norte-americana - em chinês e em inglês - foram removidas a 23 de dezembro. Outras aplicações de publicações internacionais, como o “Wall Street Journal”, “The Guardian” e “Financial Times”, mantêm-se, no entanto, disponíveis, assim como se mantém disponível a aplicação do “New York Times” noutros países.

O “New York Times” terá tentado contactar a Administração do Ciberespaço da China para obter esclarecimentos, mas não obteve qualquer resposta. De acordo com Eileen Murphy, porta-voz do jornal em Nova Iorque, “o pedido das autoridades chinesas [à Apple] para retirar as nossas aplicações é parte de uma tentativa mais ampla para evitar que os leitores na China acedam a uma cobertura das notícias independente por parte do 'The New York Times' daquele país, que não é diferente do jornalismo que fazemos sobre qualquer outro país no mundo”, disse a responsável em comunicado, adiantando que o jornal já pediu à Apple para “reconsiderar a sua decisão”.

O jornal norte-americano tem informação de que o pedido para retirar a aplicação da app store foi feito no contexto de uma série de regulamentos aprovados em junho de 2016, segundo os quais “as aplicações não podem envolver-se em atividades consideradas ilegais, como pôr em perigo a segurança nacional, perturbar a ordem social e violar os direitos legítimos e interesses dos outros”. No seu site, a Administração do Ciberespaço da China informa ainda que as aplicações não podem publicar informação “proibida”.

Esta decisão limita o acesso a um dos poucos canais que permitem aos leitores na China ter acesso ao “New York Times” sem recorrer a um software especial. As autoridades chinesas começaram a bloquear o acesso às notícias do jornal norte-americano em 2012, depois de terem sido publicados uma série de artigos sobre a riqueza acumulada pela família do então primeiro-ministro Wen Jiabao. Nos últimos meses, o Governo chinês terá tentado evitar que os leitores do “New York Times” acedessem à aplicação no país, escreve ainda o jornal, sem justificar a afirmação.

Em Fevereiro do ano passado, a Apple foi intimada pelo FBI a criar uma versão do seu sistema operativo para que a polícia federal pudesse aceder aos dados gravados no telemóvel de Syed Rizwan Farook, o norte-americano que matou 14 pessoas no condado de San Bernardino, em dezembro de 2015, juntamente com a sua mulher, Tashfeen Malik. Na altura, Tim Cook, o patrão da empresa tecnológica, recusou-se firmemente a aceder ao pedido com o argumento de que isso iria abrir “um precedente muito perigoso que ameaça a liberdade de expressão de todos os cidadãos” e “que põe em risco a segurança e privacidade de qualquer utilizador Apple”.