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Sargento israelita condenado por matar um palestiniano ferido e indefeso

O caso dividiu opiniões em Israel, com muita gente a defender o sargento por considerarem que Elor Azaria é um herói

AMIR COHEN/REUTERS

Elor Azaria matou com um tiro na cabeça um jovem palestiniano, ferido e imóvel, depois de este ter atacado à facada uma patrulha, e enfrenta agora uma pena de prisão de até 20 anos. A decisão do tribunal militar é o último episódio num caso que divide Israel

Luís M. Faria

Jornalista

Um militar israelita foi esta manhã condenado por homicídio involuntário num caso que está a dividir o país. O sargento Elor Azaria, um jovem auxiliar médico então com 19 anos, disparou sobre um palestiniano que jazia no chão, ferido e desarmado. O seu comandante ouviu-o dizer a seguir: "O terrorista merecia morrer".

Os eventos aconteceram em março do ano passado, num bairro de Hebron, cidade no território palestiniano da Cisjordânia ocupado por Israel. Dois palestinianos atacaram a faca soldados israelitas, conseguindo ferir um deles. Um dos atacantes foi logo morto. O outro, Abdel al Fatah al-Sharif, ficou gravemente ferido. Azaria, que chegou ao local minutos depois, queixou-se a um camarada: "Como é que o meu amigo foi esfaqueado e o terrorista ainda está vivo?". Apontou a sua espingarda para Al-Sharif e disparou sobre a cabeça deste.

O incidente podia ter passado como tantos outros, não fosse um vídeo que alguém gravou e divulgou. Perante essa evidência, o exército israelita abriu um processo e acusou Azaria de homicídio. Mais tarde, a acusação foi alterada para uma forma menos grave de homicídio, onde são aplicáveis circunstâncias atenuantes. Ainda assim, o caso deu origem a uma polémica nacional, com uma parte substancial da população a elogiar o ato praticado por Azaria.

“O filho de todos nós”

Para o exército, a questão parecia clara. Azaria infringiu as regras, e não se pode permitir que qualquer subordinado tenha um poder de vida e de morte arbitrário no exercício das suas funções. A única solução era castigá-lo, até para manter o argumento da superioridade moral de Israelitas em relação aos seus vizinhos.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu começou por concordar, mas quando os partidos mais à direita no seu governo se solidarizaram publicamente com Azaria, telefonou aos pais do sargento e disse que os compreendia, pois ele próprio tem um filho soldado. A sua atitude contrastou com a do então ministro da Defesa Moshe Yalom, que não tardou a demitir-se.

À medida que o julgamento de Azaria se aproximava, os seus apoiantes intensificaram a campanha de defesa, descrevendo-o como "o filho de todos nós". O general Gadi Eisenkot, chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, respondeu: "Um homem de 18 anos no exército israelita não é 'o filho de todos nós'. É um combatente, um soldado que deve dedicar a sua vida a desempenhar as tarefas que lhe damos. Não pode haver confusão acerca disto".

O motivo foi vingança

A coronel Maya Heller, que presidiu ao julgamento num tribunal militar em Jaffa, rejeitou todas as justificações apresentadas pela defesa. Num veredicto cuja leitura, esta manhã, durou mais de duas horas e meia, notou que Al-Sharif já não apresentava qualquer tipo de ameaça quando Azaria o matou. Os camaradas deste já tinham verificado que o ferido não tinha qualquer tipo de armas consigo, e a única faca no chão encontrava-se a uma distância considerável (um camarada aproximou-a do cadáver de Al-Sharif e filmou a cena, mas o truque foi descoberto).

Heller assinalou contradições notórias. Por um lado, a defesa alegou que Al-Sharif já estava morto quando Azaria o baleou. Por outro, disse que Azaria pensava que ele podia ter bombas escondidas no corpo. Ora, se de facto essas bombas existissem, disparar sobre Al-Sharif aumentaria imenso o risco de as fazer detonar. O motivo do crime foi vingança, concluiu Heller.

É justamente por isso que muita gente na sociedade israelita considera Azaria um herói: numa altura em que se repetem ataques de palestinianos a israelitas, qualquer “terrorista” deve ser imediatamente morto, sem processo nem julgamento. Para quem assim pensa, Azaria tem no mínimo direito a que lhe seja concedido um perdão. Algo que, mesmo admitindo que seja possível, nunca deverá acontecer antes da sentença, esperada para daqui a um mês.

Embora ministros como Avigdor Lieberman (Defesa) e Naftali Bennet (Educação) defendam a causa do sargento, os altos responsáveis militares estão contra. Yalom, que antes de ser ministro dirigiu as forças armadas, explicou o que está em causa: "Nós não disparamos simplesmente contra as pessoas, nem que seja um terrorista, ou mesmo um soldado que disparou contra nós. Se já se rendeu e foi neutralizado, não disparamos".