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Embaixador britânico demissionário arrasa estratégia da primeira-ministra sobre o Brexit

FRANCOIS LENOIR/ REUTERS

Ivan Rogers, embaixador do Reino Unido na União Europeia que esta terça-feira se demitiu, diz que a sua equipa não tinha qualquer ideia dos objetivos de Theresa May para as conversações com Bruxelas

O embaixador britânico junto da União Europeia, Ivan Rogers, que apresentou esta terça-feira a sua demissão sem apresentar qualquer motivo, tece duras críticas à estratégia da primeira-ministra Theresa May sobre o Brexit.

Numa carta enviada à sua equipa, Ivan Rogers lamenta que não tivesse sido informado, nem qualquer um dos seus colaboradores, sobre os objetivos do executivo britânico neste processo, sublinhando que a equipa que irá desempenhar um papel fundamental nas negociações do Reino Unido com a UE estava completamente no escuro.

“Nós ainda não sabemos o que o governo vai definir como objetivos de negociação para a relação do Reino Unido com a UE após o Brexit”, escreveu o diplomata na missiva, citada pela BBC.

Acrescenta ainda na carta que espera que no futuro se continue a desafiar em Bruxelas “os argumentos mal fundamentados e o pensamento confuso” do Reino Unido, “sem receio em falar a verdade para aqueles que estão no poder.”

Ivan Rogers defende também a importância do conhecimento detalhado para sustentar a posição do Reino Unido e a discussão de diferentes perspetivas. “Espero que continuem a apoiar-se nos momentos difíceis em que tiverem de transmitir mensagens que sejam desagradáveis àqueles que precisem de ouvi-las. Espero também que continuem interessados em ouvir os pontos de vista dos outros, mesmo quando estejam em desacordo com eles, e que compreendam porque é que os outros agem e pensam da forma como estão a agir e a pensar”, acrescentou.

Diplomata conhecedor e experiente

As reações à demissão do diplomata não demoraram a surgir. O antigo chefe do serviço diplomático britânico, Simon Fraser, afirmou que a saída de Ivan Rodgers é um “golpe significativo” para as negociações do Reino Unido com a UE, sublinhando que o diplomata é um dos maiores especialistas na matéria.

Também Jonathan Powell, que foi chefe de gabinete de Tony Blair, considerou que a saída do diplomata é “muito preocupante”, refere o “Guardian”.

Desde 2013 no cargo que só deveria deixar em novembro, Ivan Rogers esteve envolvido na renegociação do acordo que antecedeu o referendo de 23 de junho sobre o Brexit.

O diplomata apresentou a sua demissão esta terça-feira depois de ter alertado, durante uma reunião com os ministros britânicos, que um acordo comercial entre o Reino Unido e a UE poderia demorar 10 anos até estar concluído, havendo ainda o risco de não ser aprovado pelos Parlamentos dos Estados-membros. Na altura, os ministros terão manifestado discordar desta perspetiva, considerado que o acordo poderia ser conseguido em 24 meses.

Esta terça-feira, o governo de Theresa May agradeceu o papel desempenhado por Ivan Rogers durante o processo que antecedeu o Brexit, menos de três meses do arranque das negociações com a UE. “Estamos gratos pelo seu trabalho e pelo compromisso que teve durante os últimos três anos,” declarou o porta-voz do governo britânico.