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“Obama leu mal Putin e este último acabou a dizer-lhe: ‘Quem te ensina sou eu’”

FRIEZA. Vladimir Putin espera uma relação mais próxima com Donald Trump do que com Barack Obama

KEVIN LAMARQUE / REUTERS

Dureza de Obama contra Putin pode ser tentativa de limitar ação futura de Trump, reconhecidamente mais pró-russo do que o Presidente cessante

Há pouco menos de dois meses, o mundo olhava intrigado para a imagem de dois presidentes do país mais poderoso do mundo sentados lado a lado, na Casa Branca. Donald Trump, que toma posse no próximo dia 20, acabava de ganhar as eleições, contra as sondagens, contra o Partido Democrata e parte do Partido Republicano, pelo qual concorreu, e seguramente contra a vontade do homem a quem sucede, Barack Obama. Diante da lareira, trocaram apertos de mão, palavras de circunstância e promessas de cooperação na passagem do testemunho.

A paz improvável pouco durou. Se as nomeações de Trump para o seu Governo cedo indiciaram a vontade de desfazer muito do legado dos mandatos de Obama – algo normal quando muda a cor política da administração –, no dobrar do ano a tensão subiu num conflito que tem formato triangular, já que inclui, além dos dois americanos, o russo Vladimir Putin. “Estão em causa visões muito diferenciadas sobre o que é o poder”, afirma Miguel Monjardino, professor de Segurança Internacional na Universidade Católica e colunista do Expresso.

As opiniões opostas que Obama e Trump têm do Presidente da Rússia ficaram patentes nos últimos dias. O ainda líder dos Estados Unidos expulsou do país 35 diplomatas e agentes russos e impôs outras sanções económicas e políticas a Moscovo, incluindo o encerramento de instalações em solo americano. A decisão surgiu após confirmação pelos serviços de informações americanos de que piratas informáticos russos, alegadamente a mando do Kremlin, piratearam contas de e-mail do Partido Democrata e da sua candidata presidencial, Hillary Clinton, numa aparente tentativa de favorecer Trump na disputa presidencial. Moscovo desmente tudo.

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Mandem tudo pelo correio!

O Presidente-eleito depressa se demarcou deste gesto da Casa Branca, tendo chegado a comparar as acusações contra Moscovo às afirmações do ex-Presidente George W. Bush sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, no que toca a não estarem confirmadas. “É uma acusação muito grave”, frisou. “Não podemos ter a certeza”, disse, afirmando saber “coisas que outras pessoas não sabem” e que promete divulgar esta semana. Por via das dúvidas, aconselha os seus concidadãos a “enviar por correio” tudo o que for importante, pois até o seu filho de 10 anos conseguiria “fazer o que quisesse com um computador”.

Um porta-voz de Trump apressou-se a afirmar que a decisão de Putin de não retaliar expulsando diplomatas americanas (contrariando a recomendação do seu próprio ministro dos Negócios Estrangeiros) era uma vitória de Trump, “antes ainda de ser Presidente”. Ao mesmo tempo, o bilionário elogiava Putin na rede social Twitter: “Sempre soube que ele era muito esperto!”.

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A simpatia do futuro inquilino da Casa Branca por Putin não é segredo, dado que prometeu remendar as difíceis relações com a Rússia. Esse desejo pode, no entanto, colocá-lo em rota de colisão com os dois grandes partidos americanos. Senadores republicanos como Mitch McConnell (líder da bancada da maioria), John McCain ou Lindsey Graham aplaudiram o gesto de Obama, que o speaker e líder republicano na Câmara dos Representantes, Paul Ryan, até considerou “tardias”.

É quase certo que o Congresso lançará a sua própria investigação aos alegados cibercrimes russos, depois de McCain ter agendado uma audiência sobre o tema para quinta-feira, ele que defendeu “sanções mais fortes e significativas contra a Rússia por ter atacado os Estados Unidos da América”. O representante democrata Adam Schiff, membro do comité da Câmara dos Representantes para os serviços de informações, afirmou que “ninguém tem dúvidas sobre isto, a não ser, aparentemente, Donald Trump” e vaticinou que haveria oposição de ambos os partidos caso Trump tentasse, após empossado, reverter as sanções de Obama.

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Curso de boas maneiras fracassou

Monjardino concorda. “Chega a ser paradoxal. Ninguém fez tanto como Obama por reforçar os poderes executivos do Presidente, que, aliás, Trump vai querer aproveitar. Mas existe no Congresso uma aliança muito forte entre os democratas, que sentem que perderam a eleição por causa da Rússia, e o campo internacionalista republicano, liderado por homens como McCain, Graham, Marco Rubio, McConnell, Ryan ou até Devin Nunes [considerado próximo de Trump]. Eles concordam que a Rússia ultrapassou uma linha muito perigosa.”

O académico acredita que o Presidente cessante tenha querido, de facto, limitar a margem de manobra ao seu sucessor. “Obama criou-lhe um problema, porque fica a nu o conflito de interesses entre o Trump Presidente e o Trump investidor imobiliário, nomeadamente com a Rússia. Isto força Trump a definir-se num assunto crucial.” Monjardino recorda que Trump precisa que o Senado confirme os nomes que escolheu para o seu Governo. Divergências relativas a Moscovo podem dificultar, por exemplo, a nomeação de Rex Tillerson para secretário de Estado [equivalente a ministro dos Negócios Estrangeiros]. O ex-CEO da Exxon é reconhecidamente pró-russo. “Trump verá que ser Presidente é muito diferente de disparar tweets”, afirma Monjardino.

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A seu ver, a imposição de sanções fortalece os serviços de informações americanos, que poderão ser outro contrapeso futuro a Trump e cuja pressão Obama sentiu. “Ele é um homem muito cerebral a decidir, não gosta de correr riscos”, explica Monjardino, o que poderá ter exasperado os serviços secretos.

Outra motivação para esta decisão, nada típica do habitualmente ponderado Obama (demasiado para alguns dos seus apoiantes), é, acredita Monjardino, “uma certa frustração” relativa a Putin. Se o russo “pensa que o poder é para ser exercido em condições oportunísticas”, nisso se assemelhando a Trump, Obama tentou mostrar-lhe que não era assim e tentou “ensinar-lhe como é que uma potência internacional se deve portar hoje em dia”. O esforço fracassou notoriamente. “Obama leu mal Putin e este último acabou a dizer-lhe: ‘Quem te ensina sou eu’”, remata Monjardino.