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Guterres diz aos funcionários da sede da ONU que não é “milagreiro”

JUSTIN LANE / EPA

Novo secretário-geral falou aos funcionários que foram receber quando entrou na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque: “A única forma de atingir os nossos objetivos é trabalhar juntos, como equipa, e ganhar o direito de servir os valores globais consagrados na Carta, que são os valores da ONU e os valores que unem a humanidade”

O novo secretário-geral das Nações Unidas disse esta manhã aos funcionários que o receberam na sede da organização, em Nova Iorque, que não é capaz de fazer milagres. “Sei que a forma como o processo de eleição decorreu gerou muitas expectativas. Acho que é útil dizer que não há milagres e tenho a certeza de que não sou milagreiro”, disse António Guterres. “A única forma de atingir os nossos objetivos é trabalhar juntos, como equipa, e ganhar o direito de servir os valores globais consagrados na Carta, que são os valores da ONU e os valores que unem a Humanidade”, acrescentou.

O antigo primeiro-ministro português, que entrou em funções no primeiro dia do ano, falava a várias dezenas de funcionários que o aguardavam no momento em que entrou na sede da ONU, em Nova Iorque. Ali, depôs uma coroa de flores na sede da ONU, em Nova Iorque, em homenagem aos funcionários da organização que morreram no cumprimento das suas funções. A acompanhar Guterres estiveram o presidente da Assembleia-Geral da ONU, Peter Thomson, a nigeriana Amina Mohammed, vice-secretária-geral das Nações Unidas, e outros titulares de cargos nas Nações Unidas.

O antigo primeiro-ministro português, que se despediu ontem do antecessor, o sul-coreano Ban Ki-moon, disse esta tarde (manhã em Nova Iorque) estar “lisonjeado” e “feliz” por regressar à ONU depois de uma década como alto-comissário para os refugiados. Guterres recordou que problemas globais não podem ser resolvidos por qualquer país isoladamente e elogiou o multilateralismo, tentando contrariar a “resistência e o ceticismo” que crê haver em relação a organizações como aquela que hoje lidera.

Desigualdade “insuportável” num mundo global

“Não devemos ter ilusões, estamos a enfrentar tempos muito desafiantes”, começou por dizer, lembrando o atentado terrorista na noite de passagem de ano em Istambul que vitimou 39 pessoas. “Podem imaginar como é para mim, que trabalhei com as pessoas da Turquia enquanto alto-comissário, país que se tornou o maior recetor de refugiados de todo o mundo, ver que se tornam agora vítimas deste terrível ataque terrorista”, lamentou.

Fazendo um balanço em que lembrou que os números da pobreza extrema desceram e que aumentaram as proteções sociais nas últimas décadas, Guterres notou que “a verdade é que as desigualdades sociais aumentaram”. “E num mundo em que tudo se tornou global, em que as comunicações se tornaram globais, o facto de ser-se excluído torna-se ainda mais insuportável. As pessoas podem ver como os outros vivem, podem ver a prosperidade em outras partes do mundo. Esta exclusão desperta e invoca raiva e torna-se um fator de instabilidade e conflito”, disse.

Guterres referiu-se ainda àquele que deve ser um dos grandes desafios do seu mandato: os ataques crescentes ao multilateralismo vindos de políticos nacionalistas como Donald Trump, que toma posse a 20 de janeiro como presidente dos EUA. “Este é o momento em que temos de afirmar o valor do multilateralismo. Este é o momento em que temos de reconhecer que apenas soluções globais podem resolver problemas globais e que a ONU é a pedra basilar dessa abordagem multilateral”, afirmou.

“Quando olhamos para as grandes tendências mundiais, como o crescimento da população e o aquecimento global, vemos que os problemas se tornaram globais e que não há forma de serem resolvidos país por país”, acrescentou. O antigo governante português disse ainda que não se deve “tomar nada como garantido” e que estes sentimentos “não são partilhados por muitas pessoas no mundo”. “Vemos em muitos países a crescente divisão entre opinião pública, governos e classe política. Também vemos em muitas partes do mundo, em relação a organizações internacionais como a ONU, resistência e ceticismo quanto ao papel que a ONU pode desempenhar”, disse o sucessor de Ban Ki-moon.

Combater a burocracia

É por isso, explicou, que os funcionários da organização devem estar orgulhosos do seu trabalho e “reconhecer os seus feitos” na melhoria da qualidade de vida de pessoas em todo o mundo. “Também precisamos reconhecer aquilo em que ficamos aquém, as nossas falhas, e reconhecer as situações em que não conseguimos ajudar, como deveríamos, as pessoas com quem nos preocupamos”, disse, indicando erros, por exemplo, na resolução de conflitos e manutenção de paz.

Numa mensagem dirigida à própria organização e aos seus colaboradores, Guterres referiu-se ainda à reforma institucional que pretende levar a cabo. “Precisamos de livrar-nos deste colete de forças de burocracia que nos torna a vida tão difícil em tantas das coisas que fazemos”, disse, retomando um assunto que referira durante a candidatura ao cargo e no discurso de aceitação do mesmo, em dezembro. “Estes tempos vão ser desafiantes. Mas precisamos saber que não é suficiente fazer a coisa certa. Temos de ganhar o direito para fazer a coisa certa. E isto é algo que, claramente, precisamos fazer todos juntos”, concluiu.