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As forças que estão a mudar o nosso mundo

2016 foi o ano em que a História acelerou. A automação industrial, a globalização, a produtividade e a geografia económica são as principais forças da mudança

“Sempre gostei de política internacional”, disse-me um amigo em janeiro. “Só que agora não percebo o que se passa no mundo. Até recentemente, conseguia explicar o mundo lá em casa e nas conversas com os meus amigos. Agora não. Isto é tão confuso. O que se passa?” Na semana passada, um homem a caminho dos 80 anos disse-me coisa parecida: “O mundo está todo virado de pernas para o ar! Isto faz-me lembrar tempos antigos!”

Estes sentimentos de perplexidade e desorientação parecem não fazer sentido. Os principais índices bolsistas mundiais subiram durante o ano. Há confiança nos mercados. À hora em que escrevo na segunda-feira, 12 de dezembro, o Dow Jones está nos 19770,94 pontos em Wall Street, o que corresponde a uma valorização anual de 11,44 por cento. O barril de petróleo Brent está nos 56,05 dólares e pode subir para a casa dos 60. O cobre, um metal de referência na produção industrial e construção de infraestruturas, subiu mais de 28 por cento desde janeiro. O índice de matérias-primas da Bloomberg valorizou 12,83 por cento e chegou 88,42 pontos. As economias europeias e a dos EUA estão a recuperar. Também há mais emprego. Os números dos mercados internacionais sugerem que 2016 foi um ano de continuidade e de recuperação económica, ainda que tímida. Parece não haver razões para grandes preocupações.

Do ponto de vista político, todavia, as coisas são muito diferentes. Este foi o ano em que a História acelerou. A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais nos EUA com base numa retórica política nacionalista e antiglobalização, o sucesso da expressão “Take Back Control” no referendo no Reino Unido sobre a União Europeia, a revolta de algumas sociedades europeias contra a Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), a incerteza em relação ao resultado da eleição presidencial na Áustria, os problemas na banca italiana e alemã e o crescente namoro de importantes sectores sociais por políticos populistas e autoritários são os melhores exemplos desta aceleração. No final de outubro, o “Economist”, esse grande barómetro da liberdade e do comércio internacional, transferiu a Estátua da Liberdade da baixa de Nova Iorque para o Canadá.

Este foi o ano em que a volatilidade que sempre existiu nas nossas sociedades e na política internacional se transformou em turbulência. A turbulência é um processo dinâmico. Ou seja, a História está a acelerar, mas, ao contrário do que muita gente esperava nas cidades cosmopolitas dos países europeus e EUA, o processo não é linear. Estamos a entrar numa época que será caracterizada por avanços, recuos e ziguezagues políticos. A questão é: porque está isto a acontecer? Para responder à pergunta, temos de analisar o que tem vindo a acontecer ao nível da automação industrial, globalização, produtividade e geografia económica. Estas são as forças que estão a mudar o nosso mundo.

Inteligência artificial

Em março deste ano, a Toyota contratou 16 funcionários da empresa Jaybridge Robotics Inc. no estado de Massachusetts para o seu instituto de investigação. Na sua maioria são engenheiros especializados na investigação e desenvolvimento de tecnologias que permitem a automação e a autonomização de veículos automóveis, tratores agrícolas e robôs. Estas contratações pela empresa japonesa são uma consequência da sua decisão de investir mil milhões de dólares na inteligência artificial e nas suas aplicações. Empresas como a Mercedes, BMW, Volkswagen, General Motors, Ford ou a Nissan estão a fazer o mesmo.

Há duas semanas, a Amazon anunciou que tinha começado a testar a sua tecnologia “Just Walk Out” numa mercearia na baixa da cidade de Seattle. Tecnologias de visão computorizada, sensores e sistemas de aprendizagem dispensam a tradicional passagem pelas caixas à saída da mercearia. O pagamento é feito automaticamente através de uma aplicação descarregada previamente para o telemóvel dos clientes.

A Toyota e a Amazon mostram-nos o que é possível fazer agora com a enorme aceleração do poder computacional que tem vindo a acontecer nas últimas décadas. Como Martin Ford afirma no seu livro “The Rise of the Robots. Technology and the Threat of Mass Unemployment”, o poder da tecnologia computorizada aumentou 27 vezes desde a invenção do circuito integrado em 1958 nos célebre Laboratórios Bell. Na altura, as suas aplicações não eram evidentes.

De Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee com o seu “Race Against the Machine” em 2011 a Ryan Avent com “The Wealth of Humans. Work and its Absence in the Twenty-First Century” este ano, uma série de autores têm chamado a atenção para o que está a acontecer na área das tecnologias de informação e exploraram as possíveis consequências sociais, organizacionais e políticas. Porém, as sociedades e os governos dos países europeus e dos EUA não mostraram grande interesse na matéria. 2016 foi o ponto de inflexão nesta área.

A tecnologia está a criar as condições para uma evolução muito rápida — ou, talvez mesmo, uma reinvenção — de algumas das indústrias mais importantes da nossa civilização. A automóvel é um bom exemplo. Os carros elétricos e os veículos autónomos anunciam uma nova era ao nível da mobilidade urbana que começará a mudar profundamente as nossas cidades e vida diária ao longo das próximas décadas. Mudará certamente também muito ao nível dos empregos em todo o sector dos transportes. Milhões de pessoas trabalham nesta área. As mercearias são outro. Nos EUA, fazem parte do mercado de alimentação e bebidas, que vale 800 mil milhões de dólares por ano. Só nas caixas das mercearias e hipermercados norte-americanos trabalham 3,5 milhões de pessoas.

A retórica política e muitas das nossas conversas sugerem que o comércio internacional é o principal responsável pelo desemprego que se tem feito sentir nos países europeus ou nos EUA desde 2000. Em áreas como o mobiliário e os têxteis isto parece ser verdade. Porém, mesmo aqui, a maior parte do desemprego tem sido causado pela inovação tecnológica. Este é um ponto importante no debate sobre as consequências da aceleração da História que estamos a viver. Há uns anos apenas, diríamos que a tecnologia e os planos da Toyota e da Amazon eram ficção científica. Agora, vemos que fazem parte de um processo que tornou possível uma nova fase no processo de globalização, a segunda força que está a mudar a nosso mundo.

Trump critica a globalização

“É assim que vai ser”, disse Donald Trump a Nelson D. Schwartz do “New York Times” no início do mês na fábrica da empresa de ar condicionado Carrier em Indianapolis. “A América empresarial vai ter de compreender que também temos de tomar conta dos nossos trabalhadores. Eu não quero [que as empresas] saiam do país sem consequências.” Mike Pence, o vice-presidente-eleito, juntou-se à conversa. “O mercado livre tem vindo a ordenar as coisas e a América a perder.” “Sempre,” exclamou Trump. “Sempre!”

O declínio industrial foi o tema central da campanha presidencial nos EUA. As críticas de Trump à globalização, ao México, à China e às consequências de tratados comerciais como a Parceria Transpacífica para o emprego local foram cruciais para a sua vitória em estados como o Wisconsin, Michigan, Ohio e Pensilvânia. Na sua primeira comunicação ao país no final de novembro, Trump disse: “Quer se trate de produzir aço, construir automóveis ou curar doenças, quero que a próxima geração de inovação aconteça aqui mesmo na nossa grande terra natal, a América, criando riqueza e empregos para os trabalhadores americanos.”

A retórica e as primeiras opções políticas de Donald Trump colocam-no em rota de colisão com a geografia e a infraestrutura digital e física da globalização. Como Richard Baldwin e Parag Khanna explicam nos seus livros “The Great Convergence. Information Technology and the New Globalization” e “Connectography: Mapping the Future of Global Civilization”, nos últimos 25 anos, a tecnologia permitiu a criação de cadeias de valor logísticas globais, mercados virtuais e redes de informação de alta velocidade. Pela primeira vez na História, passou a ser possível coordenar a produção industrial que atravessa os países. Segundo a Cisco, o trânsito empresarial nos protocolos para internet crescerá a uma taxa anual composta de 18 por cento entre 2015 e 2020. Empresas como a Google, a Amazon, a Microsoft e o Facebook estão a financiar uma nova rede de cabos submarinos no Atlântico e no Pacífico para satisfazer a explosão da procura de comunicações rápidas.

Viragem. Trump foi capaz de sentir o espaço político criado pelas forças que estão a mudar o mundo

Viragem. Trump foi capaz de sentir o espaço político criado pelas forças que estão a mudar o mundo

O iPhone da Apple é um dos melhores exemplos desta globalização. Na parte de trás, feita de alumínio usado no sector aeroespacial, está a frase “Designed by Apple in California. Assembled in China.” A empresa tem 766 fornecedores em 28 países. Trezentos e quarenta e seis estão na China, 126 no Japão, 69 nos EUA e 41 em Taiwan. Empresas como a Foxconn de Taiwan montam o iPhone em sete fábricas — seis na China, uma no Brasil.

A Apple adotou esta vasta rede de produção e distribuição internacional por várias razões. Os salários dos trabalhadores e os seus seguros de saúde pesaram com certeza na decisão da empresa de Cupertino, Califórnia. A razão principal, todavia, tem a ver com o custo associado à sincronização de tudo o que é necessário para produzir os seus telemóveis e colocá-los nas mãos dos seus clientes da forma mais eficiente possível. A nova geografia da globalização assegura a competitividade do iPhone. Setenta e cinco elementos da tabela periódica são usados na produção de cada telemóvel. Nos EUA não há grandes minas de bauxite para produzir alumínio. No que toca aos metais raros utilizados na indústria eletrónica, a China tem praticamente o monopólio da sua extração, mineração e comercialização. Parag Khanna tem razão quando escreve que os produtos que usamos ou compramos deviam ter uma etiqueta com a expressão “Feito em todo o lado.”

O que é verdadeiramente importante em termos de competitividade industrial é estar integrado nas redes internacionais de produção e distribuição. Veja-se o caso da Autoeuropa em Portugal. A empresa da Volkswagen representa 4 por cento das exportações nacionais. É isto que explica o interesse de uma série de países em atrair a primeira fábrica da Tesla na Europa para o seu território.

A empresa norte-americana tem vindo a liderar a transição da indústria automóvel do motor de combustão para o elétrico. Esta mudança, que está a ser acompanhada por todas as grandes empresas do sector, terá consequências muito importantes em termos industriais, tecnológicos, económicos e sociais. José Mendes, secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, traduziu bem como é que a globalização funciona hoje em dia, ao afirmar há duas semanas: “Demonstrei o interesse do país em receber investimentos futuros ao nível da indústria automóvel e a disponibilidade de Portugal em trabalhar com eles para criar contextos favoráveis para testar inovações tecnológicas.”

A crescente sofisticação tecnológica da indústria está a criar as condições para fazer regressar aos países mais desenvolvidos alguma da produção que foi enviada para o estrangeiro a partir de 1990. Isto já é visível nos EUA, um país agora mais competitivo por causa da sua enorme produção energética, uma geografia interna que diminui os custos de transporte e de logística e um mercado verdadeiramente continental cada vez mais integrado com o México e o Canadá. Porém, será que tal significa que haverá mais investimento e empregos industriais como Donald Trump prometeu? Para responder à pergunta é preciso olhar para a terceira força que está a mudar o nosso mundo: a produtividade.

A década perdida

As sociedades dos países europeus e dos EUA estão no meio de um paradoxo. Por um lado, em determinadas áreas das indústrias e dos serviços, as pessoas são extremamente produtivas. Por outro, as economias têm crescido muito lentamente. Os salários estão praticamente estagnados desde 2000. Em alguns sectores, até desceram. No passado dia 5, Mark Carney, governador do Banco Central de Inglaterra, foi a Liverpool dizer o que muitos dos seus colegas europeus pensam: “Encontramo-nos hoje durante a primeira década perdida desde 1860. Ao longo da última década, os rendimentos reais cresceram à taxa mais baixa desde metade do século XIX.”

Como é possível que a produtividade esteja a subir em determinados sectores no meio de um período de fraco crescimento económico? O debate sobre o tema tem sido intenso. De um lado estão pessoas como Robert Gordon, Frederik Erixon e Björn Weigel, que defendem que os computadores e a internet não representam uma nova revolução industrial. Além disso, o capitalismo está a perder o seu dinamismo histórico e a ficar prisioneiro de monopólios institucionais que impedem a inovação e a destruição criativa. O resultado é a falta de oportunidades e o aumento da desigualdade nas democracias liberais. Erik Brynjolfsson, Andrew McAfee, Martin Ford e Ryan Avent defendem o ponto de vista oposto. Estamos a entrar numa nova revolução industrial.

Será preciso mais algum tempo para percebermos quem tem razão. Mesmo assim, as consequências do aumento da produtividade para o emprego industrial começam a ficar claras. De acordo com o “2016 Global Manufacturing Competitiveness Index” da Deloitte, os EUA, México, Canadá, China, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Índia, Alemanha e Inglaterra serão os países mais competitivos nos próximos anos. O problema é que isto não vai dar origem a um aumento substancial dos níveis de emprego nestas economias. Por duas razões.

A primeira, é que a automação transformou profundamente as fábricas. Em muitas áreas das economias europeias e norte-americana é possível agora produzir mais com muito menos pessoas. Em 2014, havia 85 robôs por cada 10 mil trabalhadores industriais na Europa. Os EUA estavam nos 79. Estes números têm vindo a crescer rapidamente. Pequim, por exemplo, ambiciona ter 150 em 2020. O cenário é igual na agricultura ou na energia. A produtividade nestas áreas é grande.

Tal como aconteceu no passado, as novas tecnologias criarão novas indústrias mas não haverá empregos para milhões de pessoas como aconteceu nos séculos XIX e XX. Isto leva-me à segunda razão: os níveis de qualificação necessárias para ter acesso aos melhores empregos. Portugal tem melhorado muito ao nível da educação mas não estamos certamente a caminho de um país onde todos os trabalhadores tiram a licenciatura e o mestrado na Universidade Católica, Instituto Superior Técnico, Universidade Nova, Faculdade de Engenharia do Porto ou têm uma formação profissional ao mais alto nível tecnológico. Daí que Ryan Avent escreva no seu livro “The Wealth of Humans” que vivemos numa época em que há um excesso de oferta de trabalho.

Este estado de coisas manterá os salários da maior parte das pessoas sobre pressão. Na ausência de investimento direto estrangeiro que olhe para Portugal como uma parte importante na sua rede logística internacional, o mais provável é que os níveis de desemprego continuem elevados. Um número apreciável de pessoas na Europa e nos EUA poderá mesmo ter de abandonar a força de trabalho. Do ponto de vista social, as consequências desta situação para a geografia urbana e a imigração são óbvias.

Habitação proíbida

“Para onde foram os seus colegas de MBA na Stanford Graduate School of Business?”, perguntei eu. “Metade foi para São Francisco,” disse-me o jovem gestor. “Quinze por cento foi para Nova Iorque. A terceira cidade nem sei qual foi. Ninguém em Stanford quer ir viver para o centro dos EUA. Nem por um milhão de dólares de salário inicial. A maior parte dos meus colegas foi trabalhar para as áreas de tecnologia, consultoria e finanças — capital de risco, hedge funds e fundos de investimento privados.”

Como acontece em todos os países europeus, em Portugal glorificamos a baixa de Nova Iorque, a baía e as colinas de São Francisco. São zonas urbanas onde sentimos que um liberalismo pluralista, culto, tecnológico e cosmopolita está a ser inventado. Ali tudo parece possível. Porém, como só estamos de passagem não nos apercebemos do que tem vindo a acontecer a estas cidades do ponto de vista urbano.

A enorme procura de habitação por parte da nova classe que alarga as fronteiras da economia digital está a fazer o preço das rendas subir cerca de 20 por cento anualmente em algumas zonas de São Francisco. Um apartamento de duas assoalhadas no Noe Valley, no sul da cidade, custa um milhão de dólares. Um apartamento em Nob Hill junto ao distrito financeiro, dois milhões e meio. Em Nova Iorque, os preços são ainda mais elevados.

A dura realidade é que a classe média e os mais pobres não conseguem viver nas zonas mais prósperas destas duas cidades. Nova Iorque e São Francisco têm os níveis mais elevados de sem-abrigo em todos os EUA. Se olharmos para as grandes cidades europeias, vemos a mesma coisa. Ao contrário do que Richard Florida, o mais influente urbanista na América do Norte, esperava em 2002, a ascensão da “Classe Criativa” não criou as condições para uma regeneração urbana que inclua todas as pessoas. Em vez de integração e diversidade, o que temos cada vez mais é segregação ao nível urbano. A competição pelo talento a nível internacional e a imigração agravam o problema.

Uma das características de livros como “Connectography. Mapping the Global Network Revolution”, de Paragh Khanna, é a desvalorização das consequências políticas do que tem vindo a acontecer na economia internacional desde 1990. A elite da economia do conhecimento que anda pelo mundo a trabalhar pode ser a nova “República Independente da Cadeia de Abastecimento” e ter várias identidades, mas, a maior parte das pessoas não tem. Não tem e, suspeito, que não quer ter. A identidade local, regional ou nacional continua a ser decisiva. Uma parte substancial das nossas sociedades sente que nos últimos anos passou por uma das transformações culturais e económicas mais rápidas da História e está a resistir politicamente nas urnas.

Olhar de frente

Nunca houve tanta gente a viver tão bem a nível mundial como em 2016. O capitalismo, a democracia liberal e a globalização têm sido os melhores mecanismos institucionais para preservar a liberdade individual, criar prosperidade e diminuir a pobreza. A China tem sido um dos países que mais partido tirou da integração económica internacional. Vale a pena relembrar isto no final deste ano em que abundaram os terramotos políticos. E também é importante dizer agora que, ao contrário do que muita gente pensa, a política não foi abolida. Saber quem tem o quê, quando e porquê voltará a ser uma questão essencial nos países europeus e nos EUA. Penso que é um erro continuarmos a pensar que a democracia liberal e novas políticas públicas serão, só por si, suficientes para controlar as consequências da automação, globalização, produtividade e alteração da geografia económica. Isto é uma ilusão. Ainda por cima perigosa.

Há oito anos, Barack Obama estava na capa da revista “Time”. Agora é a vez de Donald Trump. Porquê? Sobretudo porque Trump foi capaz de sentir o espaço político que tinha sido criado pelas forças que estão a mudar o nosso mundo. O populismo nacionalista a favor daqueles que se sentem vulneráveis do ponto de vista cultural e económico e estão fartos da cartilha politicamente correta das elites urbanas que vive numa bolha, foi a sua arma para o que é decisivo em política — a conquista do poder.

É irrealista pensar que esta situação é acidental ou sequer transitória. Temos de olhar de frente para a realidade, ter em conta o que aconteceu em situações semelhantes na História e não esquecer a natureza humana. Podemos começar pela Europa. No Velho Continente, o que vem aí é um enorme debate político sobre a distribuição dos benefícios criados pela globalização e a integração europeia. A História regista situações semelhantes no passado. Pela primeira vez desde 1989, os partidários da democracia liberal vão ter de a defender com coragem e sem ilusões e apresentar novas ideias.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 23 de dezembro de 2017