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Figura Internacional de 2016: E tudo o vento levou...

Contrariando as sondagens, o ex-magnata do imobiliário e protagonista de reality shows levou a melhor. A vitória de uma campanha de soundbites nas redes sociais baseada na pós-verdade

Rui Cardoso

Rui Cardoso

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Editor

João Santos Duarte

João Santos Duarte

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Jornalista

Na madrugada de 8 de novembro, um furacão varreu a América quando o populista Donald Trump assegurou a maioria nos estados que, por via de regra, decidem as eleições: Florida, Ohio, etc... Uma vitória na representação proporcional mas não no voto popular onde Hillary Clinton somou mais 2,9 milhões de pessoas. E que em número total de votos ficou abaixo dos conseguidos há quatro anos por Mitt Romney que, mesmo assim, perdera para Barack Obama.

Uma vez mais as sondagens foram derrotadas, tal como sucedera no ‘Brexit’ e viria a suceder, já este mês, na eleição presidencial austríaca, se bem que aqui em detrimento do candidato da extrema-direita dado, erradamente, como vencedor antecipado. Decididamente as metodologias, as grelhas e o universo sondado estão a passar ao lado da realidade.

No mesmo sentido, as indicações dadas pe-
los grandes debates televisivos foram enganadoras: Hillary ganhou sempre ou empatou, tirando partido da sua experiência política e conhecimento dos temas, nomeadamente dos internacionais. Mas a simples suspeição, relançada a poucos dias da votação, de que praticara irregularidades com a gestão da conta privada e da oficial de correio eletrónico, poderá ter tido mais influência no eleitorado do que os debates, ainda que, em última análise, o FBI voltasse a dizer que 
não havia matéria para abrir um processo.

A chave da vitória de Trump foi ter sabido ir muito além do que seria a sua base natural de apoio (conservadores radicais, fanáticos do porte de arma, evangelistas, militantes antiaborto, eleitorado do sul e das zonas rurais), conseguindo falar para os desiludidos da globalização, dos operários da cintura industrial do noroeste (Rust Belt) aos brancos da classe média arruinados pela crise bolsista e desiludidos com a classe política tradicional. Apostou na visita a zonas industriais em crise e a fábricas falidas, e essa estratégia resultou, tanto mais que, à esquerda, o adversário que fazia algo semelhante, ou seja, Bernie Sanders, ficara afastado da corrida depois de um taco a taco inicial com Hillary.

Os excluídos da globalização

De facto, tanto na Europa como nos Estados Unidos, à medida que a globalização se ia expandindo, gerava-se um fosso cada vez mais profundo entre as massas populares e as elites. Se a mundialização incontestavelmente trouxe riqueza e progresso económico, também acentuou as assimetrias na distribuição da riqueza, motor do movimento Occupy Wall Street nos Estados Unidos e dos Indignados na Europa.

Com os partidos de esquerda e os sindicatos na defensiva desde a queda do Muro de Berlim, gerou-se um vazio junto das classes trabalhadoras e dos mais pobres que os populismos dos mais diversos matizes começaram a querer preencher.

Nesta campanha a linguagem e a retórica foram decisivas. Trump, que passara parte da sua vida recente no universo dos reality shows televisivos, usou frases curtas e um vocabulário muito limitado. Apostou no frenesim das redes sociais, nos soundbites e na guerrilha mediática, levado atrás de si os media de referência que se remeteram a um jornalismo seguidista, quando não zombie, seguindo atrás das tiradas do candidato republicano. Sobretudo quando este dizia uma coisa hoje e o seu contrário amanhã. Todos os demagogos sabem que a memória das massas tende a ser curta.

Tal como já havia sucedido no Reino Unido durante a campanha do ‘Brexit’, proliferaram campanhas de desinformação difundindo informações adulteradas, quando não totalmente falsas ou inventadas de raiz. Trump durante o mandato de Obama movera uma campanha para “provar” que o Presidente não tinha nascido nos EUA nem tinha nacionalidade americana. Aqui sucederam-se os boatos, o mais ridículo dos quais era que Hillary tinha morrido e estava a ser substituída por um duplo ou que a contagem de votos iria ser adulterada. Já as suspeitas de que hackers ao serviço do Governo russo tivessem levado a cabo ciberataques durante estas eleições foi tomada suficientemente a sério por Obama para, num dos seus últimos discursos, ter acusado Putin e prometido retaliar. Se por via informática ou outra não esclareceu.

O mais extraordinário é que todos estes disparates e mentiras ressoavam nas redes sociais e eram amplificadas por estas, ao ponto de se começar a falar numa era de “pós-verdade”, isto é, de um mundo em que o rigor factual tinha deixado de ter qualquer espécie de importância, pois o que interessava ao público era uma opinião emocional sobre as coisas.

Ora, na economia digital, dinheiro equivale a cliques. Quanto mais aleivosias forem postas a correr nas redes sociais, mais repercussão estas têm e é este aumento de tráfego que garante os lucros do Facebook e afins. Como explicou John Herman em “The New York Times Magazine”, esta é “a expressão mais pura da conceção do Facebook e dos incentivos constantes do seu algoritmo”.

Piscadela de olho a Putin

E agora, como fica o mundo? Haveremos de o ir descobrindo nos próximos meses. As primeiras indicações trazidas pelas nomeações para cargos de relevo sugerem algumas tendências. Para quem criticou a alegada proximidade de Hillary com Wall Street, Trump nomeou para pastas económicas dois administradores do banco Goldman Sachs (Steven Mnuchin e Gary Kohn). Uma série de cargos relevantes, tanto na política externa (como o secretário de Estado, Rex Tillerson, ex-Exxon Mobil) como na interna, foi preenchida por figuras que não escondem a sua tolerância para com Putin e o seu desagrado para com o Irão e o acordo nuclear conseguido pela diplomacia norte-americana, europeia e russa. E que também são hostis à China, pelo menos no plano comercial. A navalha de Occam simplificará tudo isto e reduzirá as proclamações sonantes a realidades, mas dificilmente a estabilidade internacional sairá beneficiada com a chegada de Trump à Casa Branca.