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Acontecimento Internacional de 2016: Um salto
 no escuro

Britânicos decidiram sair da UE mas seis meses depois não sabem como e abriu-se uma caixa de Pandora. Xenófobos rejubilaram com resultado

Um dos aspetos mais caricatos da noite do referendo de 23 de junho foi o facto de muita gente ter ido para a cama convencida de que o Reino Unido escolhera ficar na UE. Até cerca da uma da manhã parecia ser assim. Quando acordaram, levaram o soco no estômago: por 52 contra 48%, o ‘Brexit’ vencera.

Reproduziu-se, em horas, o que se passara no mundo e no país ao longo de meses. Um estado de negação e sonolência coletiva fez com que poucos acreditassem na hipótese da saída. Nem mesmo o então primeiro-ministro David Cameron, cuja decisão de prometer o referendo para calar a ala eurocética do Partido Conservador foi um tiro no pé. Também as sondagens falharam, no que começa a tornar-se um padrão planetário: quase todas previam a vitória da permanência, por vezes com intervalos de dois dígitos.

Continuar na UE era desejo — embora com dissidências — do Governo e dos quatro maiores partidos (Conservador, Trabalhista, Liberais Democratas e Partido Nacional Escocês). Mais de 400 dos 650 deputados da Câmara dos Comuns votaram para ficar. O Banco de Inglaterra, a esmagadora maioria das empresas (sobretudo na praça financeira de Londres) e até governos e organizações internacionais avisaram que não era boa ideia sair da Europa dos 28. Não faltaram peritos dos mais diversos sectores a alertar para os perigos económicos, financeiros, sociais e geopolíticos do ‘Brexit’.

Acontece que os britânicos estavam “fartos de especialistas”, como anunciara, em campanha, o eurocético Michael Gove, ministro de Cameron. Milhões sucumbiram a frases curtas e ideias simples que prometiam soluções fáceis para problemas complexos, com escassa informação (como mostram as buscas no Google no dia da ressaca) e frequente desprezo pelos factos. A “pós-verdade”, que não é nova e até já se chamou “mentira”, teve aqui um dedo. No autocarro dos adeptos da saída lia-se “Mandamos para a UE 350 milhões de libras por semana. Financiemos antes o Sistema Nacional de Saúde [NHS]”. Ora, não só aquele valor (414 milhões de euros) é infundado como a promessa foi abandonada um dia após a votação. O NHS, mantido graças a milhares de trabalhadores imigrados, incluindo portugueses, terá de esperar.

O triunfo dos demagogos

Não foi por acaso que Donald Trump visitou o Reino Unido um dia após o referendo e vaticinou, na campanha para as eleições americanas, que a sua vitória iria ser um “Brexit-plus-plus-plus”. Uma vez eleito, telefonou primeiro a Nigel Farage, ex-líder do Partido pela Independência do Reino Unido (UKIP), e só depois à primeira-ministra Theresa May, sucessora de Cameron, demitido após o referendo.

A semelhança mais evidente aquém e além-Atlântico foi a utilização do emigrante, do estrangeiro, do outro, como bodes expiatórios. Se a globalização, melhorando a prosperidade no seu todo, cria ou agrava desigualdades; se a miscigenação altera a face das sociedades; se o avanço científico e tecnológico destrói empregos, embora criando outros, culpe-se o imigrante, que é como quem diz a livre circulação de pessoas, uma das quatro liberdades de movimentos da UE (com as de bens, capitais e serviços). Há anos que o “canalizador polaco” se tornou alvo dos poderosíssimos tabloides. Na habitual declaração de voto que os media britânicos fazem em cada ida às urnas, quase todos os jornais populares apoiaram o ‘Brexit’ e o ‘Bremain’ não fez sequer o pleno entre as publicações de referência.

No auge da maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial, não custou a Farage misturar candidatos a asilo com migrantes económicos, colocando às costas de uns e de outros os fardos do desemprego e da insegurança. Fica para os anais da infâmia um cartaz do UKIP com filas de refugiados na Eslovénia e a inscrição “Ponto de rutura”. No pós-referendo, multiplicaram-se os ataques racistas, não raro dirigidos a mulheres e homens de pele escura ou ascendência asiática e africana, mas nados e criados no Reino Unido, cujos direitos de cidadania serão intocados pelo ‘Brexit’.

Contra os do costume

Ainda assim, a decisão dramática de que hoje se assinalam seis meses tem outras causas. Os mais de 17 milhões que votaram pela saída incluem eleitores desejosos de recuperar poderes entregues, ao longo dos anos, aos “burocratas não-eleitos” de Bruxelas. Uns são nacionalistas, outros nem tanto. Repugna-lhes a coação exercida pelas instituições europeias sobre países em apuros, como a Grécia na crise do euro, ou declarações como as do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, sobre decisões que os povos tomam através do boletim de voto.

O resultado de 23 de junho foi, também, a rejeição de um certo “pensamento único” fictício e imposto, democraticamente questionável. E um castigo aos partidos “do costume”, minados por clientelas e corrupção e cegos a legítimas inquietações e palpáveis descontentamentos.

Passado meio ano, não há certezas. A posição de May é que o ‘Brexit’ é irreversível, mas nada se sabe sobre os seus moldes. A promessa de invocar até março o artigo 50º do Tratado de Lisboa, que rege a saída da UE (único dado concreto avançado pelo Governo) pode ser prejudicada por processos judiciais, um dos quais já obteve a vitória de exigir uma votação parlamentar. Do lado europeu esconde-se o jogo, alternando dramatização e apelos à concórdia. Assim fica um país de 64 milhões de habitantes sem saber do dia de amanhã.

Irá a Escócia, que votou pela permanência, repetir o referendo à independência? Como será gerida a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte, de futuro a única fronteira terrestre entre a UE e o Reino Unido? Os norte-irlandeses, que preferiam ficar na UE, temem que o ‘Brexit’ reacenda tensões que custaram vidas no século XX. Passarão para Dover os controlos de imigrantes de Calais (França)? Na pró-europeia Londres receia-se pelos negócios. Irá o país manter presença no mercado único? Isso poderia obrigar a quebrar promessas dos eurocéticos sobre soberania e imigração, forçando o país a contribuir para o orçamento da UE sem influenciar as suas decisões. Será a aposta pelas “relações globais” defendida pelos apoiantes do ‘Brexit’ uma alternativa ou mera ilusão de glórias imperiais passadas?

O rol de inquietações e incertezas é demasiado longo para esta página, mas suficiente para ilustrar o salto no vazio. Está aberto o precedente e há eurocéticos à espreita noutros países da União, como a francesa Le Pen ou o holandês Wilders. Só o passar dos anos permitirá saber se o ‘Brexit’ foi o princípio do fim da UE, mas não é arriscado vaticinar, no final deste conturbado 2016, que nada vai ficar como dantes na Europa e no mundo.