Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Se Michel Temer fosse hoje a votos não ganharia as eleições no Brasil”

Luis Barra

É um dos gurus de comunicação da política brasileira e há poucos dias despediu-se do gabinete do Presidente brasileiro Michel Temer. Chico Santa Rita esteve em Lisboa e falou de Lula, de Passos e de vinhos do Douro

Chico Santa Rita, 77 anos, ex-consultor de comunicação de Michel Temer, bateu com a porta do gabinete do atual Presidente no início do mês. “Temer não seria eleito Presidente se as eleições se realizassem hoje”, garante o brasileiro, que tem 40 anos de análise política e se tornou, em 1989, numa figura central na campanha de Fernando Collor de Melo, ao convencer a enfermeira Miriam Cordeiro, ex-namorada do candidato rival Lula da Silva, a revelar na TV que o petista a tentara convencer a fazer um aborto em 1974 da filha Lurian, concebida fora do seu casamento. Hoje, manteria a decisão: “A vida do homem público é pública.” Chico Santa Rita (o nome completo é Francisco José de Santa Rita Behr) não esconde que está a pensar em mudar-se para Portugal, porque o seu sonho é acabar a vida a fazer vinhos. Mas não se negou a falar de políticos portugueses.

Porque razão bateu com a porta do gabinete do Presidente Michel Temer?

Fazia parte de um grupo de consultoria de comunicação do Presidente, logo que assumiu o governo interino [maio]. Foi-me pedida uma ajuda e trabalhei, como voluntário, para ajudar o meu país. Saí do grupo porque não havia condições para trabalhar: fiz mais de doze propostas e nenhuma foi aproveitada.

Que tipo de propostas?

Temer assumiu o Governo numa situação muito complicada. O país está endividado. O espólio que o PT deixou é terrível. Sugerimos, logo na altura em que se tornou Presidente interino, que preparasse um grande balanço da situação que havia encontrado, sobre todos os ministérios, secretarias, e grandes empresas, para mostrar publicamente a situação caótica de cada um destes setores. A população desconhecia a gravidade da situação. Temer gostou muito da ideia mas o tempo foi passando e nada foi feito.

Michel Temer ouviu pesadas vaias durante a abertura das Olimpíadas, no verão, mas já não as ouviu no velório dos mortos no acidente de avião com a equipa do Chapecoense, no início do mês. É um sinal de que está a ser aceite pela população?

Eu disse ao Presidente: “Tem que ir ao velório.” É um momento de comoção nacional em que o Presidente não pode estar fora. Mas hesitou durante algum tempo: “Pode pegar vaia.” No dia em que chegaram ao Brasil os corpos dos atletas ainda não se sabia se ele ia ou não. Acabou por ir e não foi vaiado. Mas não tirou o proveito. Foi meio forçado, com medo.

Desde quando o conhece?

Desde os anos 80. Era uma pessoa bem intencionada, séria, que eu acreditava que poderia trazer grande ajuda ao país.

Temer é um homem sem força para impor a sua vontade?

Não gostaria de fazer essa crítica. Temer está a tomar medidas fantásticas para arrumar o Brasil: mandou para o Congresso a chamada PEC do teto, que já foi aprovada pela Câmara e Senado. Trata-se de um projeto de emenda constitucional em que coloca um limite dos gastos nos Estados e prefeituras. Até agora gastou-se mais do que se arrecada. Mas 66% da população não sabe o que é e tem uma ideia errada do que se trata. Ou seja, ele está a fazer um belíssimo trabalho mas ninguém o vê. Isso repercute-se na opinião pública.

O seu nível de popularidade está quase tão baixo como o de Dilma Roussef...

É verdade. A avaliação negativa subiu gigantescamente desde que tomou posse e a positiva desceu gigantescamente. Isto vai atrapalhá-lo nos acordos económicos e políticos que ele vai tomar. O Governo fragiliza-se quando ele tem uma má aprovação da população. Apesar de ter o Congresso do seu lado, Temer não tem a opinião pública com ele. Isto poderia ter sido evitado se tivesse sido feito um trabalho de comunicação.

Mas não é difícil fazer um trabalho de comunicação com um Presidente que está envolvido na investigação do Lava-Jato e que pode cair a qualquer momento?

Há um erro de origem e que se vem agravando. O envolvimento dele na Lava-Jato não é profundo. Seguramente a posição dele não era de participante dessa situação. Ele não recebeu esse dinheiro. Esse dinheiro era recebido pelas pessoas que faziam a campanha de Dilma.

Mas pode cair por isso...

É uma hipótese toda ela muito insegura. Ele pode também não cair.

Voltava a trabalhar com Temer, caso cumprisse os seus conselhos?

Não trabalho sobre hipóteses.

Ficou dececionado com Temer?

Vejo isto com muita insatisfação, muita dor... Havia uma possibilidade de ter condições muito boas para trabalhar.

As condições ficarão ainda mais difíceis para o Governo de Temer?

Poderão ficar.

Se Temer fosse hoje a votos ganharia as eleições?

Não.

E ainda dará tempo para alterar essa dinâmica até às eleições em 2018?

É muito difícil.

Se as eleições fossem hoje, ganharia Lula, que está à frente nas intenções de voto? Como se explica o caso de Lula, que resiste aos escândalos?

O Lula é um caso estranho. Tem a maior intenção de votos mas também o maior índice de rejeição da população, segundo as sondagens. Ainda não há nenhum favorito a vencer as próximas eleições. A Marina também tem resistências muito grande.

Vai trabalhar com alguém nas próximas eleições?

Nas últimas eleições já tinha dito que não ia trabalhar com ninguém. Tenho passado muito trabalho para a minha mulher [a historiadora e politóloga Fernanda Zuccaro, presente na entrevista]. Mas ela pediu-me para supervisionar as últimas duas campanhas. Por enquanto a minha vontade é de não participar. Era preciso uma coisa muito emocionante para voltar. Em 2018, quero estar no Douro a fazer vinho.

O juiz Sérgio Moro seria um candidato emocionante?

Sim, seria.

Preferia fazer vinho do que trabalhar com o próximo Presidente?

Não, se aparecesse um bom candidato [a resposta é dada enfaticamente pela mulher e apoiada por Chico]. Mas garanto que não estou à procura de qualquer candidato. Em 40 anos de trabalho nunca enriqueci, não estou envolvido na Lava-Jato [ao contrário de outros publicitários brasileiros] e o meu escritório nunca foi alvo de qualquer processo.

Está em Portugal em negócios. Pondera trabalhar algum dia com políticos portugueses?

Estou a pensar em mudar-me para Portugal, por razões de negócios ligados ao vinho. A minha mulher [tem 38 anos] não descarta a hipótese de trabalhar com políticos portugueses.

O que pensa, por exemplo, de Pedro Passos Coelho?

Pelo que vejo nas sondagens, o partido está muito melhor do que ele. Passos tem um elevado nível de rejeição.

Seria possível alterar essa rejeição? Tem no seu historial pegar em políticos que estão em baixo nas sondagens e depois dar-lhes uma vitória eleitoral...

Não posso falar sem ter conhecimento aprofundado. Possível sempre é...

Em 1989, trabalhou com Fernando Collor de Melo, tendo como opositor Lula da Silva. Collor foi o político que mais o marcou?

Não, os trabalhos que mais me marcaram foram a decisão entre o Parlamentarismo e o Presidencialismo e mais recentemente o referendo sobre a proibição da venda de armas. Na campanha de 1993, o Parlamentarismo esteve à frente nas intenções de voto e acabou por ser ultrapassado pelos que defendiam o Presidencialismo, na qual eu trabalhava. Em relação ao referendo sobre a venda armas, realizado em 2005, era consultor pelos que eram contra a sua abolição. Nos dois casos revertemos a situação e senti-me a mexer na História do meu país. E fiquei feliz por ter feito estas campanhas.

E Collor?

Fiz o segundo turno, quando Lula crescia e Collor recuava. Viramos a situação e Collor ganhou. Mas sabe quantos trabalhos fez o meu escritório quando ele se tornou Presidente? Nenhum.

Porquê?

Porque nessa campanha descobri quem era Collor.

E não gostou do que viu?

Não.

Se fosse hoje, voltava a usar o caso da Lurian na campanha?

Claro, a vida do homem público é pública. E isto nunca foi contestado. Falámos a verdade.