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A vida não está fácil para Benjamin Netanyahu

ABIR SULTAN

Depois de os Estados Unidos terem permitido a aprovação de uma resolução na ONU a condenar os colonatos israelitas na Cisjordânia, procuradoria-geral de Israel anuncia investigação criminal ao primeiro-ministro por suspeitas de corrupção e fraude

O primeiro-ministro de Israel enfrenta uma investigação criminal por suspeitas de suborno e fraude, ordenada pelo procurador-geral Avichai Mandelbit depois de um inquérito secreto conduzido nos últimos nove meses pela polícia a Benjamin Netanyahu por suspeitas de ter aceitado subornos e cometido fraude agravada.

A notícia chegou na quarta-feira ao final do dia, depois de uma semana de derrotas e humilhações para o chefe do Executivo hebraico, que na véspera de Natal viu o grande aliado de Israel, os Estados Unidos, abster-se pela primeira vez numa votação da ONU a condenar os hebraicos pela ocupação da Palestina — o que permitiu que a resolução fosse aprovada sem qualquer veto nem voto contra.

Horas antes de a procuradoria israelita ter anunciado que Netanyahu será investigado em dois casos separados — um relacionado com doações de campanha e outro com um acordo do Ministério da Defesa para comprar submarinos à Alemanha — o primeiro-ministro tinha vindo a público renovar os ataques à administração Obama após John Kerry ter defendido a postura dos EUA na votação do Conselho de Segurança da ONU.

"A agenda de colonização está a definir o futuro de Israel e o seu propósito declarado é claro: eles [israelitas] acreditam num Estado apenas, o da Grande Israel. Se a escolha é de um Estado, Israel só pode ser ou judeu ou democrático, não pode ser as duas coisas e não pode nunca haver realmente paz", declarou o secretário de Estado norte-americano, defendendo que era necessário permitir a aprovação da resolução para salvar a solução de dois Estados e pedindo aos dois lados que respeitem as fronteiras definidas em 1967.

No rescaldo desse discurso, Netanyahu denunciou publicamente o "enviesamento" do chefe da diplomacia norte-americana. "Tal como a resolução do Conselho de Segurança que o secretário Kerry promoveu na ONU, o seu discurso esta noite foi enviesado contra Israel", declarou o gabinete do primeiro-ministro em comunicado. "Durante mais de uma hora, Kerry abordou obsessivamente a questão dos colonatos e apenas tocou na raiz do conflito — a oposição palestiniana a um Estado judeu sob quaisquer fronteiras."

A votação na ONU tinha sido suspensa pelo Egito, que apresentou a resolução, após o Executivo de Netanyahu ter contactado o Presidente eleito dos EUA, Donald Trump, para lhe pedir que impedisse que o documento fosse apresentado no Conselho de Segurança. Quatro países, entre eles a Nova Zelândia e a Venezuela, decidiram avançar com a votação, que viu Israel ficar isolado na cena internacional. Irado, Netanyahu convocou os embaixadores nos 12 países e anunciou cortes no financiamento à ONU e de programas de ajuda externa a algumas das nações envolvidas, como o Senegal.

Trump, que toma posse a 20 de janeiro, também já garantiu que vai cortar o financiamento da ONU em reação ao voto e que vai fazer tudo para reverter essa medida na organização internacional, que classificou no Twitter como "só um clube para algumas pessoas passarem bons momentos". Entretanto, Netanyahu deu um passo sem precedentes ao acusar diretamente o Presidente em fim de mandato de orquestrar a resolução anti-colonatos e garantindo que vai entregar a Trump "provas irrefutáveis" de que Obama negociou secretamente com os palestinianos antes do voto.

O representante diplomático da futura administração americana em Israel é um homem que defende a legalidade dos colonatos nos territórios ocupados da Palestina e que questiona a necessidade de uma solução de dois Estados, que vários atores regionais e mundiais tentam negociar há várias décadas, desde a criação do Estado de Israel em 1948. A par disso, o advogado David Friedman já disse que pretende mudar a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, outro passo inédito que vem ensombrar ainda mais as possibilidades de se alcançar uma solução pacífica para o longo conflito.

Israel continua a expandir os colonatos ilegais na Cisjordânia. Ativistas alertam que contiguidade do território palestiniano está cada vez mais em risco

Israel continua a expandir os colonatos ilegais na Cisjordânia. Ativistas alertam que contiguidade do território palestiniano está cada vez mais em risco

AHMAD GHARABLI / AFP / Getty Images

Investigado em casa

Horas depois de reagir ontem ao discurso de Kerry, o porta-voz do chefe do Governo hebraico era forçado a emitir um outro comunicado, em reação ao anúncio da investigação criminal ao líder político. "É tudo um disparate", disse citado pelo diário "Haaretz" sobre as acusações de fraude agravada e aceitação de subornos. "Desde a vitória de Netanyahu nas últimas eleições e até antes disso, elementos hostis têm recorrido a esforços heróicos para o fazerem cair, com falsas acusações contra ele e a sua família. [A acusação de corrupção] é absolutamente falsa. Não há nada [contra ele] nem vai haver."

De acordo com o canal 2 israelita, Netanyahu estava a ser secretamente investigado pelas autoridades do seu país há quase nove meses e, no decurso desse inquérito, a polícia recebeu novos documentos que levaram a procuradoria a anunciar uma investigação formal ao político da direita nacionalista. O "Times of Israel" avança que o comissário da polícia Roni Alsheich aprovou a investigação secreta da unidade anti-corrupção em junho sob a condição de cooperação total com a procuradoria apenas se em segredo.

O procurador-geral também instruiu o seu gavinete a investigar as alegações de que Netanyahu aceitou um milhão de euros do empresário francês Arnaud Mimran. Mimran, que está a cumprir uma pena de oito anos de prisão por fraude fiscal, diz que doou esse dinheiro ao primeiro-ministro israelita durante a campanha eleitoral de 2009. Netanyahu rejeita a alegação, embora já tivesse admitido que recebeu do francês 38 mil euros em 2001, avança o britânico "The Independent".

Em maio, o organismo que monitoriza as contas públicas do Estado hebraico tinha apresentado um relatório crítico em que questionava as viagens de Netanyahu ao estrangeiro enquanto ministro das Finanças entre 2003 e 2005, algumas delas com a sua mulher e filhos.

Num outro caso surgido no início deste mês, Netanyahu foi acusado de abuso de poder num negócio de compra de submarinos parcialmente detidos pelo Governo iraniano a uma empresa alemã. Informações surgidas há algumas semanas dão conta de que Netanyahu terá ordenado o Ministério da Defesa a avançar com esse negócio por causa de ligações pessoais do seu conselheiro, David Shimron, à fabricante dos submarinos, a ThyssenKrupp.

As suspeitas são desmentidas por Netanyahu e Shimron. Nos próximos dias, o primeiro-ministro será chamado pela polícia para responder às acusações.