Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O campo minado que Trump tenta não pisar

Drew Angerer/ Getty Images

Cada vez são mais evidentes os conflitos de interesses que os negócios de Trump representam para a sua presidência. Da fundação suspeita aos interesses na Arábia Saudita, Trump corre contra o tempo para dissolver tudo até à tomada de posse

Habitualmente, Donald Trump, o próximo presidente dos Estados Unidos, acorda no número 725 da 5ª Avenida de Nova Iorque, um arranha-céus impressionante com um hall de entrada coberto de mármore e umas escadas rolantes que já mereceram aparições em séries de TV. Para ir trabalhar, no seu caso para a sede da Trump Organization, Trump não precisa de fazer muito: basta-lhe entrar no elevador privado de sua casa, tocar no botão com o número 26 e esperar. Em poucos segundos, encontra-se rodeado de conselheiros como o seu advogado principal, Alan Garten, e os três filhos mais velhos, Ivanka, Eric e Donald Trump Jr.

Drew Angerer/ Getty Images

Esta aparente mistura da sua vida privada e dos seus negócios, confirmada por vários dos seus funcionários, que falam de um “negócio de família”, está agora, a menos de um mês da tomada de posse, a tornar-se problemática. É que os conselheiros que o rodeiam na Trump Tower, onde reside e trabalha, também fazem parte da sua equipa e farão parte da sua administração; os seus filhos, fiéis conselheiros na empresa, tomarão alguns dos cargos da sua equipa governativa; e os seus negócios, que há tanto tempo gere de perto e nos quais faz questão de deixar a sua marca e influência, representam sérias ameaças de conflitos de interesses para o homem que será o 46º presidente dos Estados Unidos.

Apesar de durante muito tempo ter negado que essa promiscuidade entre família e negócios, assim como os projetos de construção que tem espalhado pelo mundo, pudessem representar conflitos e colocar dúvidas éticas quando tomasse posse, a verdade é que nas últimas semanas Trump e a família, aconselhados pelos seus representantes legais, estão a tomar medidas que não deixam dúvidas: sem o admitir, Trump está preocupado com a interferência que os seus negócios poderão ter na toma de decisões enquanto governante – e na sua própria credibilidade.

Chip Somodevilla/ Getty Images

Um gosto pela filantropia duvidoso

“Este é um processo que o meu pai e a minha família estão a levar de forma incrivelmente séria”, dizia há dias Eric Trump, um dos filhos envolvidos nos negócios do pai e que vai ajudar a supervisionar a Trump Organization, numa altura em que Donald Trump procura um supervisor independente para ajudar a tomar decisões de gestão e bloquear contactos inapropriados entre a empresa e o Governo. O mesmo será feito para Ivanka Trump, a marca de joalharia, roupa e acessórios liderada pela filha do presidente-eleito, que esteve debaixo de críticas intensas depois de ter aproveitado a aparição de Ivanka na primeira entrevista do pai depois das eleições para publicitar a pulseira usada pela empresária.

O próprio Eric Trump está a tomar cuidados redobrados com os negócios em que está envolvido, tendo, como o irmão Donald, cancelado uma aparição numa angariação de fundos que tinha como prémio uma caçada com Donald Trump e os filhos, mas tendo também decidido colocar fim à angariação de fundos para a sua própria instituição de caridade, a Eric Trump Foundation.

É também a instituição de caridade do próprio pai, a Donald J. Trump Foundation, que está a levantar algumas das mais sérias suspeitas nos dias que antecedem a tomada de posse e que foi alvo da mais abrupta decisão de Trump – foi no dia de Natal que o presidente-eleito decidiu divulgar um comunicado em que anuncia a dissolução da instituição, cujos bens quer repartir por outras organizações. “Para evitar qualquer impressão de conflitos com o meu papel de presidente, decidi prolongar o meu forte interesse na filantropia de outras formas.”

O “forte interesse na filantropia” de Trump não demorou a ser questionado: é que segundo os registos de contas da fundação, entre 2009 e 2014 Trump não doou qualquer soma de dinheiro à própria instituição, tendo mesmo angariado dinheiro em locais em que a instituição não estava registada, como Nova Iorque, estado onde está a ser investigada pelo procurador-geral desde outubro. Para mais, suspeita-se ainda que Trump tenha usado dinheiro da fundação para resolver conflitos legais por meio de acordos, em vez de o dar a pessoas necessitadas.

Tendo em conta todas estas suspeitas, atualmente a ser investigadas, as tentativas de Trump parecem não estar a resultar, como confirma um comunicado do gabinete do procurador-geral de Nova Iorque: “A Fundação Trump ainda se encontra sob investigação por este gabinete e não pode ser legalmente dissolvida até a investigação estar completa”. Mesmo que a dissolução da fundação resulte, argumenta Eric Walker, do Comité Nacional Democrata, citado pelo “The New York Times”, “isto não substitui a dissolução dos seus negócios que obtêm lucro”. “É uma forma de encobrir os restantes conflitos de interesse e um histórico penoso de doações para caridade.”

Mark Lyons/ Getty Images

Sem soluções à vista

“É uma das medidas possíveis, mas não é suficiente”, explica ao Expresso Germano Almeida, especialista e autor de vários livros sobre política norte-americana. “Alguns antecessores de Trump, também com muitas propriedades empresariais, optaram por decorrer a um blind trust, entidade independente onde colocaram os seus investimentos e propriedades, durante os respetivos mandatos, sem saberem quem eram os detentores desse fundo. Mas Trump, talvez pela grande dimensão dos seus investimentos, já garantiu que não irá recorrer a um fundo desse tipo para resolver a questão enquanto for presidente.”

A solução é apontada pelos especialistas em ética como a mais correta, mas se Trump não o fizer – o presidente-eleito já argumentou que a ideia é pouco prática e razoável –, Germano Almeida aponta outros cenários: “Sendo assim, o cenário mais provável passará pela necessidade de Trump ter de vender a Trump Tower em Manhattan ou a mansão Mar-a-Lago, em Palm Beach. Nalguns casos, Donald Trump não poderá vender a sua parte sem o consentimento de outros sócios, o que complica ainda mais esta questão”.

Enquanto não há solução que satisfaça os especialistas – Trump, que tinha prometido anunciar todos os passos que estão a ser tomados da sua equipa legal e família para prevenir conflitos de interesse, já adiou esse anúncio, provavelmente pela complexidade do mesmo -, o presidente-eleito vai apagando fogos nas várias áreas de negócio em que trabalha. Poucos dias depois das eleições, terminou nove projetos, todos por alegar falhas da parte dos parceiros estrangeiros ou por cláusulas contratuais, quatro deles alegadamente destinados a ter ligações à Arábia Saudita (Ivanka Trump anunciara esta primavera o interesse em áreas como o Médio Oriente ou a Arábia Saudita, dando como exemplos Abu Dhabi ou Dubai), ligações essas que já foram descritas por Alan Garten como “manobras rotineiras”.

Além do fim de projetos e negócios em países estrangeiros que poderiam estar implicados em decisões suas enquanto presidente dos Estados Unidos – também aconteceu em projetos com o Brasil, Azerbaijão, Geórgia, Argentina ou Índia - ou da nomeação de supervisores independentes para as suas empresas, também uma série de disputas laborais com trabalhadores dos seus hotéis, principalmente os do Trump International Hotel em Las Vegas, foram subitamente resolvidas: na semana passada, o hotel concordou em assegurar pensões, seguros de saúde ou aumentos anuais (“tudo aquilo por que lutavam há um ano”, esclarecia uma representante dos trabalhadores citada pelo “The New York Times”). Para mais, há ainda dúvidas sobre se estadas ou reuniões diplomáticas nos seus hotéis por governos de outros países poderiam violar a cláusula da Constituição que proíbe que funcionários do Governo recebam presentes ou pagamentos de representantes estrangeiros.

MANDEL NGAN/ Getty Images

Separação tão séria como a do Estado e da Igreja

Quanto ao envolvimento dos filhos Eric, Ivanka e Donald, as dúvidas permanecem: Ivanka terá um provável papel como conselheira na Casa Branca, assim como o marido Jared Kushner, ambos com negócios que podem ser afetados por decisões tomadas pelo presidente norte-americano; já o irmão Eric veio esclarecer que não terá “nenhum papel da administração”, dizendo que a separação entre os negócios da família – os maiores que algum presidente já possuiu na altura de entrar na Casa Branca – e a governação serão como a separação entre “Estado e Igreja”.

As medidas tomadas por Trump e pelos filhos garantem pelo menos que o Trump que antes assegurava que passaria simplesmente os negócios para as mãos dos filhos, sem ameaças de interferência, está mais preocupado e a examinar todas as possibilidades para evitar que as suas decisões sejam questionadas. Elijah E. Cummings, membro da Casa dos Representantes e do Comité de Supervisão da Casa e da Reforma Governamental, já pediu uma investigação aos potenciais conflitos e insiste, citado pela Slate: “A presidência é provavelmente o trabalho mais difícil do mundo. Porque é que haverias de querer que quase todas as tuas decisões fossem questionadas? Tens mais de 111 empresas a operar em 18 países. Isso é um campo minado, e infelizmente vai afetar a credibilidade dele”.

As interferências parecem estar por todo o lado – dos negócios suspeitos da Fundação Trump, em Nova Iorque, aos países em que se estabelecem e nos quais o Trump presidente terá de tomar decisões políticas sobre violações de direitos humanos ou terrorismo, como é o caso da Turquia ou das Filipinas. “Este é um tema tão evidente que até parece estranho que não tenha dominado a campanha. Creio que é mais uma prova de que muito pouca gente colocava como realista a sua eleição”, explica Germano Almeida. “Até agora, os sinais dados não são, de forma alguma, tranquilizadores. Por definição, a lei americana absolve o presidente, considerando que este tem tanto poder que qualquer decisão que venha a tomar será superior a algum interesse específico. O problema é que, no caso de Trump, é quase impossível separar totalmente as águas. O tema promete, por isso, dominar os primeiros meses de mandato, uma vez que não se prevê que todas as questões legais consigam ser solucionadas até 20 de janeiro [data da tomada de posse].”