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Internacional

Neonazis americanos preparam marcha armada contra judeus

"Racista. Fanático. Trapaceiro"

DAVID MCNEW

Fundador do site de extrema-direita "The Daily Stormer" diz que protesto na cidade-natal do líder da alt-right em Montana, convocado para janeiro, já conta com mais de 200 participantes. Polícia local e o FBI já reforçaram patrulhas para estarem alerta no dia do evento antissemita. Grupos da sociedade civil estão a receber ameaças de morte

Bem-vindos aos Estados Unidos da chamada "direita alternativa" (alt-rigt), que no rescaldo da vitória de Donald Trump em novembro se congratulou de ter desempenhado um papel fulcral para que o empresário populista e xenófobo derrotasse Hillary Clinton nas presidenciais.

São os Estados Unidos dos ataques de ódio a membros de minorias como os negros e os muçulmanos, os Estados Unidos onde, neste momento, um homem que gere um site de extrema-direita está a organizar uma manifestação armada anti-judeus que já pôs as autoridades locais e federais sob alerta.

Há uma semana, Andrew Anglin publicou a seguinte lista de recomendações aos leitores do seu "The Daily Stormer" a propósito do "protesto" convocado para janeiro em Whitefish, no estado de Montana — a cidade-natal de Richard Spencer, fundador da alt-right:

- Escrevam postais com mensagens de ódio negativas e enviem-no para Love Lives Here na morada P. O. Box 204, Whitefish, MT 59937 (O carteiro entregá-los-á)

- Comprem ou peçam emprestadas cópias do "Mein Kampf" e organizem leituras para os filhos dos vossos vizinhos. Partilhem a história do que aconteceu em Billings, MT, nos anos 1990 quando eles [a população daquela cidade do Montana] apoiaram uma família de judeus na perseguição a goyim [não-judeus]

- Arranjem uma bandeira nazi para a vossa janela para mostrarem solidariedade com os vossos irmãos e irmãs arianos durante o Hanukkah [festa judaica celebrada entre 24 de dezembro e 1 de janeiro]

- imprimam o logótipo da swastika nazi e ponham-no no vosso carro ou casa ou escritório

- enviem emails para info@loveliveshereflathead.org e digam-lhes que estão bem cientes dos seus planos para espiar os goyim

- escrevam uma Carta ao Diretor a condenar a Love Lives Here e enviem-na para TODOS os jornais locais. Por favor restrinjam as vossas cartas a cerca de 100 palavras, no máximo 250, sejam breves e vão direitos ao assunto

Na quinta-feira, um dia depois de ter publicado esta lista, Anglin garantiu que 200 pessoas já estão envolvidas na marcha "contra judeus, negócios judeus e todos os que apoiam qualquer um deles", uma marcha que irá levar os manifestantes "com as suas metralhadoras poderosas" ao centro de Whitefish.

"Vamos trazer skinheads em autocarros da Bay Area [de São Francisco]. Já ultimei a maioria dos detalhes com líderes de grupos locais. Muitos dos nossos principais apoiantes de Silicon Valley já nos ofereceram importantes apoios para a marcha, mas podemos ter de pedir doações para pagar a gasolina e a comida dos skinheads." Logo a seguir ao anúncio da marcha, Anglin lembrou os leitores que devem evitar "sugestões de violência" contra os judeus de Whitefish.

Vamos por partes. Tudo começou com uma publicação do "The Daily Stormer" em 16 de dezembro, na qual eram listados os nomes, fotografias, contactos e moradas dos judeus de Whitefish, incluindo de membros do grupo cívico Love Lives Here e da agente de imobiliário Tanya Gersh, que alegadamente contactou a mãe de Richard Spencer, Sherry, para que vendesse o seu prédio da baixa de Whitefish e doasse o dinheiro a grupos anti-ódio, sob pena de enfrentar protestos de ativistas. "É isto que os judeus são", escreveu Anglin na altura. "São uma raça perversa e maligna de psicopatas cheios de ódio." O assédio do neonazi abrange ainda o marido e o filho pequeno de Gersh.

Há uma semana, um dia antes da publicação da lista, o "New York Times" noticiou que a polícia local está a levar muito a sério a ameaça de uma marcha armada anti-judeus e que já "reforçou as patrulhas" em parceria com o FBI para dar resposta à campanha de Anglin. Apesar dos avisos do fundador do "The Daily Stormer" aos leitores para que evitem "ameaças de violência ou qualquer coisa perto disso", o jornal avançou nesse dia que há mensagens dessa natureza a encher as caixas de email dos alvos da campanha antissemita.

"Rachel Carroll-Rivas, a co-diretora [da Human Rights Network em Montana] disse numa entrevista telefónica que têm estado a receber ameaças por telefone, através dos formulários do seu site e nas redes sociais", lê-se no artigo do NYT. "Numa das mensagens que citou lê-se: 'Todos vocês merecem levar com balas nos crânios. Engasguem-se em espingardas e morram. Todos serviriam mais a sociedade enquanto fertilizantes humanos do que enquanto cidadãos."

No dia a seguir à publicação deste artigo, Anglin lançou a dita lista de recomendações aos que pretendem participar na marcha armada anti-judeus. Nessa lista, o neonazi evoca uma campanha de supremacistas brancos em 1993 em Billings, no Montana, depois de um grupo de cidadãos ter protegido famílias de judeus que foram alvos de ataques xenófobos. Em resposta aos tijolos mandados contra casas de judeus e contra igrejas e escolas, dezenas de pessoas saíram à rua com menorahs ['candelabro' em hebraico] nas mãos em defesa da tolerância.

"Durante duas semanas em dezembro", relatou a Associated Press em 1994, "[supremacistas brancos] partiram as janelas de duas casas de judeus e de duas igrejas que exibiam menorahs, dispararam contra janelas do liceu católico de Billings e destruíram parcialmente seis carros estacionados em casas com menorahs, dizendo a dois dos proprietários ao telefone: 'Vão olhar para o vosso carro, amantes de judeus'."

Para já, ainda não se sabe quando é que a marcha antissemita vai ter lugar. Algures no meio das várias publicações sobre o assunto, Anglin exigiu que Gersh e a associação Love Lives Here peçam desculpa por apoiarem os judeus e garantiu que se a agente imobiliária enviar "um pedido de desculpas por escrito à mãe de Richard Spencer, admitindo que cometeu um erro e dizendo que espera que o negócio da sra. Spencer corra bem", a marcha "com metralhadoras" será cancelada.

Se isso não acontecer, como é provável que não aconteça, a manifestação xenófoba vai avançar numa data ainda por definir. "Estamos a apontar para a segunda semana de janeiro", escreveu o neonazi no "The Daily Stormer". "Mesmo antes da tomada de posse."

A de Donald Trump, claro está, um homem que escolheu para o seu gabinete o racista, sexista e antissemita Stephen Bannon, um dos líderes da alt-right. O movimento neonazi já está a pressionar publicamente o Presidente eleito para que cumpra as suas promessas de campanha, como a de deportar milhões de imigrantes clandestinos, sob pena de se rebelarem contra ele. "Penso que a direita da direita está absolutamente preparada para se revoltar", vaticina um desses elementos dos vários que o "The Guardian" entrevistou esta semana. "É isso que eles fazem."