Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Israel diz ter “provas” de que Obama orquestrou resolução anticolonatos

DAN BALILTY

Fontes do Governo de Benjamin Netanyahu dizem ter sido informadas por fontes de países árabes sobre o alegado envolvimento do Presidente dos EUA na preparação do documento e da votação na ONU e garantem que vão entregar as “provas” à futura administração de Donald Trump

As autoridades israelitas continuam furiosas com o facto de a administração norte-americana de Barack Obama não ter chumbado uma resolução introduzida na ONU a semana passada para exigir o “fim imediato” da construção de colonatos na Cisjordânia, um dos territórios palestinianos ocupados por Israel há décadas, colonatos esses que a comunidade internacional dita há muito que violam lei internacional.

A abstenção dos Estados Unidos permitiu que a resolução fosse aprovada, sem qualquer veto ou voto contrário, num volte face em relação à tradicional postura dos norte-americanos face ao seu grande aliado no Médio Oriente. Na sequência do voto, o Governo hebraico convocou os embaixadores dos dez países que aprovaram a resolução, entre eles o dos EUA, para lhes exigir explicações, à exceção dos representantes diplomáticos da Rússia e da China, ambos com poder de veto no Conselho de Segurança.

Depois de Benjamin Netanyahu ter acusado diretamente o Presidente americano em fim de funções de estar envolvido na preparação do documento, que foi introduzido para votação no Conselho pelo Egito, fontes próximas do primeiro-ministro israelita disseram em entrevistas à CNN e à Fox News que os hebraicos têm “provas bastante fortes” de que foi Obama quem orquestrou o voto.

“Temos informações de ferro de fontes tanto do mundo árabe como internacionais a dar conta de que este foi um esforço deliberado dos Estados Unidos e que, na verdade, o país ajudou a criar a resolução à partida”, acusou ontem David Keyes, porta-voz de Netanyahu, à Fox News.

No domingo, Ron Dermer, o controverso embaixador israelita em Washington DC, tinha ido ainda mais longe numa entrevista à CNN, dizendo que foram reunidas provas “contra Obama” que vão ser apresentadas à futura administração americana de Donald Trump. “Vamos apresentar estas provas à nova administração através dos canais apropriados. Se eles [equipa de Trump] quiserem partilhá-las com o povo americano, nós agradecemos.” Segundo Dermer, os EUA não só não ficaram ao lado de Israel na votação como “estiveram por trás desta cabala contra Israel na ONU”.

O embaixador esteve no centro da controvérsia de março de 2015, acusado pela administração Obama de ter sido ele a orquestrar o discurso de Netanyahu ao Congresso americano durante a campanha israelita contra o histórico acordo nuclear dos EUA com o Irão. Foi a primeira vez que um líder estrangeiro falou aos legisladores do país sem qualquer espécie de convite ou aprovação do seu Presidente.

Na segunda-feira, Trump já tinha reagido ao resultado da votação antes do Natal, reduzindo a ONU a “apenas um clube de pessoas que se juntam, falam e passam uns bons momentos”, isto depois de uma fonte do Executivo hebraico ter revelado à Reuters antes do voto que a equipa de Netanyahu tinha contactado diretamente Trump para lhe pedir a sua intervenção em defesa de Israel.

As acusações de Keyes e Dermer vêm deitar ainda mais achas à fogueira da conturbada relação entre Obama e Netanyahu. Há dois anos, membros da administração Obama tinham denunciado sob anonimato à revista “Newsweek” que Israel tem estado a espiar o aliado norte-americano a um nível “alarmante e até pavoroso”, uma alegação que o então ministro israelita dos Negócios Estrangeiros, Avigdor Lieberman, disse ser “uma fabricação maliciosa com o intuito de arruinar as relações” entre os dois países.

No ano passado, as autoridades norte-americanas voltaram a acusar Israel de espiar o país, desta feita durante as conversações com o Irão sobre o seu programa nuclear, com uma fonte a dizer ao “Wall Street Journal”: “Uma coisa é os EUA e Israel espiarem-se um ao outro. Outra coisa é Israel roubar segredos dos EUA e usá-los contra os legisladores americanos para minar a diplomacia dos EUA.”

Os comentários tecidos por Dermer à CNN sugerem que o Estado hebraico continua a recolher informações secretas da administração que pretende entregar a Trump assim que este tome posse a 20 de janeiro. A ameaça de apresentar “provas” contra um Presidente em funções, para mais do mais próximo aliado de Israel, ao seu sucessor, aparentemente de forma pública, parece não ter precedentes, aponta hoje o “The Guardian”.

A administração dos EUA continua a desmentir as alegações israelitas. “Não preparámos esta resolução, não introduzimos esta resolução. Tomámos esta decisão quando chegou a hora de votar”, disse o vice-conselheiro de segurança nacional de Obama, Ben Rhodes, num comunicado emitido na sexta-feira. “Não podíamos em boa consciência vetar” um documento que se opõe à atividade de colonização com impacto e consequências para toda a região, acrescentou.

Recorde-se que, há duas semanas, Trump nomeou para embaixador dos EUA em Israel uma controversa figura que se opõe à solução de dois Estados e que apoia a construção de colonatos ilegais nos territórios ocupados da Palestina. O futuro embaixador, David Friedman, é duro crítico dos judeus americanos que defendem uma solução pacífica para o conflito de longa data e já anunciou que pretende mudar a embaixada dos EUA de Telavive para Jerusalém, a cidade que os israelitas e os palestinianos clamam como sua.