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Internacional

60 crianças foram denunciadas por semana ao programa antiterrorismo do Reino Unido

Peter Macdiarmid / Getty Images

Dados do controverso programa governamental Prevent, criado no rescaldo do ataque de julho de 2005 em Londres e refundado em 2015, mostram que entre o ano passado e este ano houve 7500 pessoas referenciadas, 3100 delas menores, incluindo 61 com menos de dez anos

Uma média de 60 crianças foram denunciadas por semana ao controverso programa de contraterrorismo do Governo britânico entre 2015 e 2016. De acordo com dados do Prevent — o programa criado no rescaldo dos ataques ao metro de Londres a 7 de julho de 2005, que no ano passado foi reformulado sob a Lei Antiterrorismo, passando a exigir a organizações como escolas e autoridades locais que “cumpram o dever e a necessidade de impedir que as pessoas sejam atraídas para o terrorismo” — houve cerca de 7500 pessoas referenciadas entre o ano passado e este ano, a um ritmo de 20 por dia. Dessas, 3100 eram menores e 61 tinham menos de 10 anos de idade, avança o jornal “The Independent”.

As autoridades britânicas garantem que, através do Prevent, já conseguiram travar mais de 150 viagens de britânicos para os teatros de guerra no Iraque e na Síria, para além de terem em mãos uma série de casos e incidentes ligados à extrema-direita que foram detetados graças a ele. Contudo, o programa governamental de combate à radicalização continua a ser criticado por muitos, que falam numa cultura “tóxica” de denúncias até em infantários que cria um ambiente ao estilo Minority Report, em que as pessoas referenciadas às autoridades, incluindo crianças, se tornam suspeitas de crimes que não aconteceram.

“Alguns dos que tecem críticas criticam as perceções do Prevent e não aquilo que [o programa] é”, defende Simon Cole, líder do programa no Conselho Nacional de Chefes da Polícia britânica. “Algo que fica perdido no debate é o facto de este ser um esquema voluntário que acontece num espaço pré-criminal. Não tem a ver com pessoas que são suspeitas de crimes de terrorismo. Tem a ver com pessoas que [são alvos de] preocupações por profissionais, amigos, familiares e membros das suas comunidades, que acham que elas podem precisar de ajuda e apoio.”

Em setembro, a diretora da Universidade de Oxford tinha acusado o Governo de implementar um programa “errado” para combater o extremismo e o radicalismo, dizendo que as universidades e escolas devem ser locais onde os alunos podem debater de forma livre e aprender a rebater argumentos que consideram questionáveis e não sítios onde têm medo de se expressar.

Cole, pelo contrário, considera que é importante combinar a educação com a aplicação da lei e o policiamento, reconhecendo contudo que algumas comunidades têm “muitas suspeitas” em relação ao Prevent. Ao “The Independent”, o chefe da polícia de Leicestershire explicou como funciona o processo normal de referenciamento: “Existe uma avaliação de um indivíduo e é criado um programa para o apoiar. Às vezes sse programa não tem nada a ver com extremismo ou radicalização. Tem a ver com identificar uma pessoa que pode precisar de ajuda para encontrar emprego ou oportunidades de educação ou condições de habitação.”

Das 7500 referências ao Prevent entre 2015 e 2016, 28% dos casos continuam sob investigação e 10% foram avaliados como envolvendo pessoas vulneráveis ao terrorismo — já integradas no programa Channel que presta apoio aos que são identificados como estando em risco de radicalização. Dos casos em que foram identificados e registados motores ideológicos, 54% estiveram relacionados com o extremismo islâmico e quase 10% com a extrema-direita.