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Libertado por engano, arranja emprego, casa-se e tem um filho. Anos depois, levam-no para cumprir os 90 anos que faltam

A história de René Lima-Marin é uma boa ilustração dos absurdos da justiça nos Estados Unidos da América

Luís M. Faria

Jornalista

Um norte-americano que foi solto da prisão por engano noventa anos antes de a sua pena chegar ao fim, passando quase seis anos em liberdade antes de o erro ser detetado, pede às autoridades que o deixem regressar à família que entretanto constituiu. O seu apelo é secundado por um conjunto de opinion-makers no estado do Colorado, bem como por uma petição pública que já ultrapassou as duzentas mil assinaturas.

René Lima-Marin, atualmente com 37 anos, praticou dois roubos à mão armada em 2000 e foi condenado a 98 anos de cadeia, juntamente com o seu cúmplice. Um lapso administrativo fez com que o soltassem em 2008; alguém tinha escrito na sua folha, por distração, que as sentenças a que fora condenado seriam cumpridas simultaneamente, e não em sucessão. Ao fim de oito anos, ele já cumpria os requisitos da liberdade condicional, que lhe foi concedida. Aproveitou para arranjar um emprego, casar-se com a sua namorada de juventude e ter um filho, além de outro que adotaram.

Em 2014, alguém reparou no erro e René foi outra vez preso. Desde essa altura, tem tentado que o tribunal o restitua à vida normal que entretanto constituira. Um documentário já se ocupou do seu caso, mas os tribunais têm resistido.

Os procuradores dizem que ele se apercebeu do erro logo ao início, como se vê pelo facto de ter desistido subitamente de um recurso que havia interposto – algo que não é nada normal. O advogado de René, por sua vez, alega que não lhe seria justo exigir-lhe a ele que chamasse a atenção para o erro. Terá sido aliás o seu defensor oficioso a aconselhar-lhe não o fazer.

“Sou uma pessoa diferente”

Pela sua parte, o condenado admite o seu crime mas tenta pô-lo em perspetiva: “Eu era estúpido, um miúdo idiota que fez uma asneira. Acho que desde o princípio recebi um castigo que não era ajustado ao crime (…) Era apenas um roubo, mas eles acrescentaram três acusações de rapto e assalto e juntaram todas essas coisas de modo a dar-nos o maior tempo de pena possível (…) As armas nem sequer estavam carregadas. Não aconteceu nada que não acontecesse em qualquer outro roubo pelo qual as pessoas recebem cinco, dez anos. Não estou a dizer que fosse correto, de modo algum”.

René continua: “Assumo total responsabilidade pelo erro idiota, ridículo, estúpido que cometi quando tinha 18 anos (…) Mas qual é o objetivo da prisão? Não é apenas punir a pessoa pelo crime que cometeu, mas também reabilitá-la. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Mostrei que não sou a mesma pessoa que era aos 18 anos. Sou uma pessoa completamente diferente. Tudo o que se deseja de uma pessoa que cometeu um crime cumpriu-se em mim”.

Funcionou como membro da sociedade, diz o advogado

As vozes a favor da sua libertação têm-se multiplicado, embora também haja quem defenda o cumprimento da pena até ao fim (até por o seu cúmplice estar desde 2000 a cumprir uma pena idêntica à dele). Para já, enquanto espera pelos resultados de mais um recurso, René explica o que mais o aflige: “A pena que cumpri da última vez foi muito mais fácil do que a que estou a cumprir agora, pelo simples facto de que antes não tinha uma família. É algo que está na minha mente todos os dias, 24 horas. Fui tirado à minha família”.

“É suposto eu ser o chefe de família, a pessoa que os guia e os dirige”, lamenta, “e fui afastado deles”. Entre os motivos para ter esperança, o seu advogado Patrick Megaro já antes teve sucesso quando defendeu um outro condenado a quem as autoridades, durante 13 anos, se tinham… esquecido de prender”.

Com René os argumentos são ainda mais fortes, pois ele já cumpriu uma pena relativamente longa, e conseguiu sair da prisão em estado de retomar a vida normal. “Lima-Marin funcionou como um membro da sociedade“, diz Megaro, “igual aos seus vizinhos, completamente sem noção de que o Colorado um dia o arrancaria à sua vida e à sua família e viraria de pantanas uma vida que demorou anos a construir”.