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Escolha de Trump para chefiar o Comércio “não é para rir”

GREG BAKER

Jornais ligados ao Governo da China voltam a criticar o Presidente eleito dos EUA, desta vez por ter escolhido para gerir as trocas e a indústria um economista com opiniões “apocalípticas” sobre Pequim

A decisão de Donald Trump nomear para um cargo-chave da sua administração um professor universitário responsável por ataques “apocalípticos” à China é mais uma prova de que o empresário norte-americano que ganhou as presidenciais está a tentar comprar uma guerra com Pequim.

Assim é declarado esta sexta-feira no editorial do “China Daily”, um jornal ligado ao Governo comunista chinês, depois de Trump ter anunciado que Peter Navarro irá chefiar o recém-criado Conselho Nacional do Comércio da Casa Branca.

Oficialmente Pequim permanece em silêncio sobre essa escolha e sobre quase todos os recentes anúncios e tomadas de posição de Trump face à China, mas segundo o jornal em versão inglesa, que é controlado pelo PCC, a subida ao poder de Navarro só veio enfurecer ainda mais as autoridades chinesas.

“A sua nomeação é mais um sinal da estratégia de confrontação que a futura administração Trump parece estar apostada em seguir nas relações com a China”, lê-se no editorial de hoje. “[Isto] não é um assunto para rir.” Antes da surpreendente vitória de Trump nas eleições, era possível rir com a “linguagem apocalíptica” usada contra a China por Navarro, autor de livros como “Death by China” e “The Coming China Wars”. “Agora, contudo, há motivos reais para preocupação”, acrescenta o “China Daily”.

O “Global Times”, outro jornal ligado ao Governo chinês, também dedica o seu editorial de hoje a Navarro, referindo que o homem nomeado por Trump pode vir a ser responsável por futuros conflitos entre as duas maiores economias mundiais. “Isto não é, de maneira nenhuma, um sinal positivo”, aponta o jornal, pedindo ao Governo chinês que enfrente a realidade de que Trump e a sua equipa vão “assumir uma postura dura contra a China” ao adotar medidas “irresponsáveis” que têm como alvo empresas chinesas. “[O governo chinês] deve descartar quaisquer ilusões e preparar-se totalmente para qualquer passo ofensivo do Governo de Trump. Os EUA não podem continuar a brincar com a China.”

Navarro, de 67 anos, é professor de economia na Universidade da Califórnia e foi conselheiro de campanha de Trump, durante a qual o candidato republicano acusou a China de “violar” a economia dos Estados Unidos e de criar o “embuste” do aquecimento global para roubar postos de trabalho aos norte-americanos. No seu editorial, o “China Daily” diz que é ele o “cérebro” da campanha de ataques de Trump a Pequim.

Entre outras coisas, o economista culpa a entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2011 por dizimar a economia norte-americana e destruir milhões de postos de trabalho, tendo estado envolvido na produção de um documentário com base num dos seus livros, em que pede aos consumidores norte-americanos que boicotem produtos com etiqueta Made in China e às empresas que evitem lucrar com o que descreve como o "crescente militarismo" comercial de Pequim.

Para Orville Schell, líder do centro para as relações EUA-China na Sociedade Asiática de Nova Iorque, a escolha de Trump para a pasta do Comércio é “um negócio arriscado”. “O lado positivo é que é um sinal real de que as coisas estão desequilibradas — acho que toda a gente concorda que assim é — no que toca ao comércio e investimento [entre os dois países”, refere o especialista ao “The Guardian”. “O lado mau é que a China costuma reagir de uma forma muito nevrálgica a insultos ou a coisas que possam achar que são insultos. E consigo imaginar que olhem para as opiniões de Navarro como provocações.”

Schell admite que a escolha de Navarro é só mais um numa sucessão de controversos passos de Trump face à China — entre eles a conversa telefónica, inédita em décadas, que manteve com a líder de Taiwan e os tweets a acusar a China de manipular a sua divisa para anular a competitividade da economia norte-americana — que deixaram Pequim desorientada. “Mas é claro que quando eles ficam desorientados, por vezes tornam-se mais combativos.”

Ao “Wall Street Journal”, Cheng Dawei, ex-conselheira do Governo chinês para as trocas comerciais, disse acreditar que as autoridades do seu país estão “com muito trabalho” a preparar estratégias para responder a potenciais medidas anti-China adotadas pela administração Trump. “A China está agora a preparar algumas armas”, opina a professora de economia da Universidade Renmin de Pequim.

Citado pelo “China Daily”, Tu Xinquan, professor na Universidade de Economia e Finanças Internacionais de Pequim, diz que as empresas norte-americanas vão pagar “um preço muito mais elevado” que as chinesas caso estale um conflito comercial entre as duas nações.