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Internacional

Dez países acolhem 56% de todos os refugiados. Nenhum é europeu

Perseguidos pelo Daesh no Iraque, os yazidis contribuíram para o aumento do número de refugiados no mundo

© Rodi Said / Reuters

Em todo o mundo, há 21 milhões de refugiados. Destes, 12 milhões foram acolhidos por apenas 10 países, todos eles situados na região do Médio Oriente e em África

No mundo ocidental, tem-se frequentemente a perceção de que a maior crise de refugiados desde a II Guerra Mundial é essencialmente europeia. Mas, na realidade, nenhum Estado europeu se encontra entre os dez países atualmente mais pressionados pela deslocação forçada de populações e que acolhem mais refugiados.

Dos 21 milhões de refugiados existentes em todo o mundo, 12 milhões (56%) vivem em apenas 10 países da região do Médio Oriente e do continente africano. Todos são países subdesenvolvidos – detêm entre si apenas 2,5% do PIB mundial – e partilham fronteiras com outros países em guerra. Para os milhões de refugiados que acolhem, isso significa, muitas vezes, a ausência de condições básicas de vida, a continuidade de um futuro incerto e do desejo de voltarem a partir.

“Está na hora dos líderes realizarem um debate sério e construtivo acerca de como as nossas sociedades irão ajudar as pessoas que são forçadas a abandonar as suas casas por causa da guerra e da perseguição”, afirmou Salil Shetty, secretário-geral da Amnistia Internacional, por alturas da divulgação do relatório “Tackling the global refugee crisis”, em outubro passado. “Eles precisam de explicar como é que o mundo consegue resgatar bancos, desenvolver novas tecnologias e travar guerras, mas não consegue encontrar locais seguros para 21 milhões de refugiados, apenas 0,3% da população mundial.”

1. TURQUIA: 3.000.000 refugiados

O campo de refugiados em Osmainye (um dos maiores da Turquia) é o mais próximo da fronteira com a Síria e também da martirizada cidade de Alepo

O campo de refugiados em Osmainye (um dos maiores da Turquia) é o mais próximo da fronteira com a Síria e também da martirizada cidade de Alepo

© Umit Bektas / Reuters

É o país que mais refugiados acolhe em todo o mundo, estatuto a que não é alheio o facto de ser também o mais exposto à guerra na Síria, “a grande tragédia deste século, uma deplorável calamidade humana”, como lhe chamou António Guterres, enquanto Alto Comissário da ONU para os Refugiados (ACNUR).

Em números redondos, a Turquia acolhe três milhões de refugiados, a esmagadora maioria dos quais (2,8 milhões) são sírios. Há ainda 125 mil oriundos do Iraque, país com o qual a Turquia também faz fronteira, e 120 mil do mais longínquo Afeganistão.

Ao longo de 2014 e 2015, cerca de um milhão de pessoas partiram da Turquia e lançaram-se em jornadas incertas, por terra e mar, arriscando a vida para tentarem alcançar território da União Europeia. Milhares morreram afogadas no Mediterrâneo, um drama sem fim que expôs a incapacidade europeia para responder à altura, em conformidade com os valores civilizacionais europeus. Em março de 2016, UE e Turquia acordaram, mediante contrapartidas, que todos os novos migrantes ilegais que chegarem à Grécia provenientes da Turquia serão devolvidos. A Amnistia Internacional considera o acordo “um golpe histórico nos direitos humanos”.

2. JORDÂNIA: 2.700.000 refugiados

O campo de refugiados de Zataari, no norte da Jordânia, acolhe aproximadamente 115 mil refugiados sírios

O campo de refugiados de Zataari, no norte da Jordânia, acolhe aproximadamente 115 mil refugiados sírios

© Mandel Ngan / Reuters

Com uma população a rondar as 6,4 milhões de pessoas, a Jordânia acolhe no seu território 2,7 milhões de refugiados. Ou seja, sensivelmente um terço da população jordana são refugiados. Destes, mais de 2,1 milhões são palestinianos, o grupo nacional mais antigo entre os refugiados (o êxodo palestiniano iniciou-se a seguir à criação do Estado de Israel, em 1948).

Fronteira à Síria, Iraque, Arábia Saudita, Israel e ao território palestiniano da Cisjordânia, a Jordânia acolhe também cerca de 656 mil sírios. Destes, 79.597 vivem no gigantesco campo de refugiados de Zataari (sensivelmente a mesma população dos municípios de Vila do Conde ou Torres Vedras) e 54.024 no campo de Azraq.

Comparativamente ao caso jordano, o Reino Unido, por exemplo, que tem uma população dez vezes superior à da Jordânia, aceitou receber 8000 sírios desde 2011. O PIB jordano é 1,2% do PIB britânico.

3. PAQUISTÃO: 1.600.000 refugiados

Um grupo de afegãos, que se refugiou no vizinho Paquistão, é repatriado para o seu país de origem

Um grupo de afegãos, que se refugiou no vizinho Paquistão, é repatriado para o seu país de origem

© Fayaz Aziz / Reuters

Em termos globais, depois dos sírios e dos palestinianos os afegãos são o grupo de refugiados mais numeroso, com 2,7 milhões de pessoas. Mais de metade vivem no Paquistão (1,6 milhões), que partilha com o Afeganistão uma extensa fronteira de 2430 quilómetros e está, por isso, muito vulnerável a toda a conflitualidade que o país tem vivido: ocupação soviética (1979-1989) e guerra pós-11 de Setembro (2001-2014).

Graças a um programa de regresso voluntário ao país de origem, o número de refugiados afegãos diminuiu durante a primeira década deste século. Mas nos anos de 2014 e 2015 voltou a aumentar em virtude do ativismo dos talibãs afegãos e de outros grupos armados, alguns com ligações ao Daesh, que têm visado diretamente populações civis.

O Paquistão não é signatário da Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951, pelo que a situação dos refugiados registados junto do ACNUR é incerta, o que “encoraja a situações de assédio, ameaças e extorsão por parte da polícia” paquistanesa, denuncia a Amnistia Internacional.

4. LÍBANO: 1.500.000 refugiados

Muitos refugiados, como as duas crianças sírias da foto que encontraram refúgio no Líbano, vivem na miséria, sem as mínimas condições sanitárias

Muitos refugiados, como as duas crianças sírias da foto que encontraram refúgio no Líbano, vivem na miséria, sem as mínimas condições sanitárias

© Ali Hashisho / Reuters

Com cerca de 4,5 milhões de habitantes, o Líbano é o país mais pressionado pelo fluxo de refugiados, que já correspondem a um terço da sua população. Do milhão e meio de refugiados que o país acolhe, só 400 mil não são oriundos da Síria e 53% são crianças.

“Segundo a ONU, mais de 55% dos refugiados sírios no Líbano vivem em condições abaixo do padrão em acampamentos improvisados, edifícios sobrelotados e bairros pobres e densamente povoados”, denuncia a Amnistia Internacional.

Desde há décadas que o Líbano convive com o fenómeno dos refugiados, já que ali vivem cerca de 450 mil palestinianos. Dois dos 12 campos de refugiados palestinianos oficiais no Líbano (geridos pela ONU) são Sabra e Chatila (arredores de Beirute, a capital libanesa), onde em 1982 ocorreu um massacre realizado por milícias falangistas (cristãs) ajudadas pelas forças israelitas que ocupavam o sul do Líbano, e cuja memória perdura até aos dias de hoje.

5. IRÃO: 979.400 refugiados

Refugiada afegã, com o seu filho ao colo, num campo para deslocados afegãos, na província iraniana de Kerman

Refugiada afegã, com o seu filho ao colo, num campo para deslocados afegãos, na província iraniana de Kerman

© Gabriela Baczynska / Reuters

Com quase um milhão de refugiados registados, o Irão é o país que mais afegãos recebe a seguir ao Paquistão. E tal como neste país também acontece, no Irão os refugiados afegãos já vão na segunda e terceira gerações, em virtude de décadas de grande conflitualidade no seu país de origem – o grande êxodo de afegãos na direção do Irão aconteceu durante a ocupação soviética do Afeganistão (1979-1989).

Diz a Amnistia Internacional que apesar do país ter assinado a Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados (1951), “os direitos dos seus quase um milhão de refugiados afegãos registados são precários. O Governo estima que mais 1,5 a 2 milhões de afegãos indocumentados vivam no Irão. Em 2016, surgiram indícios de que os Guardas Revolucionários do Irão recrutaram milhares de afegãos não registados para combater ao lado de milícias alinhadas com o Governo sírio, nuns casos oferecendo compensação financeira e o estatuto de residência, noutros recorrendo ao recrutamento forçado”.

6. ETIÓPIA: 736.100 refugiados

Refugiados eritreus acabados de chegar à Etiópia enfrentam filas intermináveis nos centros de acolhimento

Refugiados eritreus acabados de chegar à Etiópia enfrentam filas intermináveis nos centros de acolhimento

© Tiksa Negeri / Reuters

A seguir ao Médio Oriente, o leste e o Corno de África são as regiões do globo mais pressionadas pelas sucessivas vagas de refugiados. No continente negro, a Etiópia é o país que mais refugiados recebe, sendo ela própria, simultaneamente, país de origem de demandantes de asilo. A esmagadora maioria dos 736.100 refugiados acolhidos pela Etiópia chegaram de países próximos, afetados por guerras e/ou situações de pobreza generalizada, como a Eritreia, o Sudão do Sul, a Somália, o Sudão e o Iémen.

Em 2016, a Etiópia, mas também o Quénia e o Uganda viram a sua população de refugiados aumentar devido ao conflito no Sudão do Sul, que forçou cerca de um milhão de pessoas a partir. A Etiópia abre as portas aos refugiados, mas não lhes permite que trabalhem nem que obtenham o estatuto de residência permanente. Ficam restritos aos campos das Nações Unidas, indefinidamente ou até conseguirem transitar para outro país.

7. QUÉNIA: 553.900 refugiados

Parece que estão a jogar futebol, mas na realidade fogem a uma nuvem de pó, no campo de refugiados de Dadaab, perto da fronteira com a Somália

Parece que estão a jogar futebol, mas na realidade fogem a uma nuvem de pó, no campo de refugiados de Dadaab, perto da fronteira com a Somália

© Thomas Mukoya / Reuters

O maior campo de refugiados do mundo está localizado no Quénia. Dos 553.900 refugiados que têm guarida no país, mais de 300 mil vivem em Dadaab, que ocupa uma extensão de cerca de 50 quilómetros quadrados. A 10 de maio de 2016, o Governo queniano anunciou a sua intenção de encerrar o campo por questões de segurança: a sua população, esmagadoramente somali, está a ser usada pelo grupo islamita Al-Shabaab visando a recruta de combatentes. A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch denunciou que o campo está a ser evacuado à força e que os refugiados estão a ser repatriados para a Somália, um país pobre e em conflito.

O segundo maior campo de refugiados em todo o mundo – Kakuma – fica também no Quénia. Abriga cerca de 150 mil pessoas, oriundas do Sudão do Sul, do Sudão, do Burundi, da Etiópia e da República Democrática do Congo.

8. UGANDA: 477.200 refugiados

Crianças congolesas aquecem-se à volta de uma fogueira, no campo de trânsito de Bukanga, 376 km para sudoeste de Kampala, a capital do Uganda

Crianças congolesas aquecem-se à volta de uma fogueira, no campo de trânsito de Bukanga, 376 km para sudoeste de Kampala, a capital do Uganda

© James Akena / Reuters

Localizado na região dos Grandes Lagos, o Uganda é um dos países que está na primeira linha das consequências humanas provocadas pela grande conflitualidade naquela parte de África. Entre os 54 Estados africanos, é o terceiro mais afetado pelo problema dos refugiados: quase meio milhão, oriundos sobretudo do vizinho Sudão do Sul.

O país acolhe também um contingente numeroso de cidadãos do Burundi, palco de uma crise política desde que o Presidente Pierre Nkurunziza anunciou, em abril de 2015, a sua intenção de se candidatar a um terceiro mandato, entendido como inconstitucional. Desde então, a violência já provocou centenas de mortos e motivou muitos cidadãos a procurar um porto mais seguro nas redondezas, ainda que com deficientes condições de acolhimento.

9. REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO: 383.100 refugiados

Nesta foto de 1996, um refugiado ruandês, em fuga ao genocídio no seu país, segura um bebé nos braços a bordo de um frágil barco, na cidade congolesa de Goma

Nesta foto de 1996, um refugiado ruandês, em fuga ao genocídio no seu país, segura um bebé nos braços a bordo de um frágil barco, na cidade congolesa de Goma

© Peter Andrews / Reuters

A República Democrática do Congo (RDC) acolhe quase tantos refugiados como aqueles que origina. As 383.100 pessoas que ali procuraram refúgio são maioritariamente oriundas dos vizinhos Ruanda, República Centro-Africana (RCA) e Burundi, os quais acolhem muitos dos 467.102 congoleses que fugiram da instabilidade e situações de conflito na RDC. O genocídio no Ruanda em 1994, no qual cerca de um milhão de pessoas foram assassinadas, originou uma vaga de refugiados que afetou dois milhões de ruandeses.

Igualmente, a RCA – que em breve receberá uma força portuguesa, que será integrada na Missão Multidimensional Integrada de Estabilização na RCA (Minusca), da ONU – vive uma instabilidade política crescente que, nos últimos anos, assumiu também uma conflitualidade sectária, com milícias cristãs e muçulmanas a enfrentarem-se de forma sangrenta, não poupando as populações civis. Este conflito levou a que 456.866 refugiados procurassem asilo na RDC, Camarões, República do Congo e Chade.

10. CHADE: 369.500 refugiados

Mulheres que fugiram do conflito no Darfur transportam bilhas de água para o campo Djabal, no leste do Chade

Mulheres que fugiram do conflito no Darfur transportam bilhas de água para o campo Djabal, no leste do Chade

© Finbarr O'Reilly / Reuters

É o quinto maior Estado do continente africano e um dos mais afetados pelo conflito na Nigéria – e pela crise humanitária dele resultante – entre o grupo terrorista islamita Boko Haram e as forças militares governamentais e que, segundo o ACNUR, originou mais de dois milhões de deslocados. O Chade, os Camarões e o Níger acolheram, no total, cerca de 190 mil refugiados nigerianos. Outro grande grupo de refugiados acolhidos pelo Chade vem da República Centro-Africana.

Os demandantes de asilo recém-chegados a campos no Chade são automaticamente acolhidos e obtêm o estatuto de refugiados, mas necessitam de uma autorização especial para se poderem deslocar dentro do país.