Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O Kuwait e o aluguer dos Trump. Como o futuro Presidente dos EUA está a pisar a linha

epa

Fonte da embaixada do Kuwait diz ter havido pressões para mudar a sua festa nacional do Four Seasons para um dos hóteis do Presidente eleito. Horas depois, o site TMZ divulgou o convite para uma festa pós-tomada de posse: aqueles que desembolsarem entre 500 mil dólares e um milhão, poderão passar o dia a pescar ou a caçar com os filhos de Trump

Num artigo intitulado "As provas para destituir Donald Trump podem já aqui estar", a "Vanity Fair" escreveu na terça-feira que, "à medida que Donald Trump se aproxima da Sala Oval, muito tem sido dito sobre como vai afastar-se dos acordos que já fez no seu gabinete envidraçado na Trump Tower."

Neste momento, aponta a revista com base em denúncias recentes, um grupo de legisladores democratas já está a pressionar o Presidente eleito para que venda o seu novo hotel em Washington DC, num edifício histórico que Trump está a arrendar ao Governo federal e cujo contrato de aluguer diz claramente que não pode ser explorado por um funcionário público eleito. E antes disso, já muitos políticos e ativistas, da esquerda à direita, estavam a exigir que Trump anuncie claramente o que pretende fazer para marcar uma distância entre a sua persona presidencial e os negócios da Organização Trump e de que forma é que os seus filhos adultos vão ou não manter-se ativos no império sem problemas éticos.

Agora, duas novas denúncias vêm reforçar o aparente facto de que Trump já está a monetizar a presidência para proveito próprio ainda antes de tomar posse, ultrapassando todos os limites éticos afetos ao cargo de Presidente.

No início da semana, o site ThinkProgress noticiou que a embaixada do Kuwait terá cancelado um contrato com um hotel da capital norte-americana dias depois de Trump ter derrotado Hillary Clinton nas eleições de 8 de novembro, alegadamente sob pressão da equipa do futuro Presidente para que as celebrações do feriado nacional do país sejam feitas no seu novo hotel, o Trump International, o tal que não pode continuar a explorar sob o acordo assinado com o Governo federal muito antes de se imaginar que seria candidato à presidência — e que conseguiria vencer.

O hotel Trump International foi inaugurado duas semanas antes das eleições

O hotel Trump International foi inaugurado duas semanas antes das eleições

Chip Somodevilla

Ao site, uma fonte da embaixada do Kuwait, que regularmente recorre ao Four Seasons em Georgetown para as suas festas, disse que a reserva nesse hotel foi abruptamente cancelada após membros da Organização Trump terem pressionado o embaixador a alterar o local do evento, escolhendo em vez desse o hotel Trump International. A informação avançada pela fonte sob anonimato, que tem conhecimento direto dos acordos entre a embaixada e os hóteis, foi comprovada por documentos analisados pelo site.

Contactado pelo mesmo jornal online, o embaixador do Kuwait em Washington, Salem Al-Sabah, confirmou que este ano os festejos do Dia Nacional do país, celebrado a 25 de fevereiro, vão ter lugar no hotel de Trump e não no Four Seasons mas desmentiu ter sofrido quaisquer pressões. Inicialmente, Sabah garantiu na conversa telefónica com o jornalista que nenhum funcionário da embaixada manteve contactos com membros da Organização Trump. Pressionado para confirmar esse facto, o embaixador disse que tem "muitos amigos" e que "pode ter" falado com alguém das empresas do Presidente eleito mas não sobre a festa em questão. Sobre a alteração da morada do evento e a escolha do hotel Trump International, respondeu apenas: "Porque não?"

O Think Progress nota que o cancelamento da festa do Kuwait no Four Seasons aconteceu dias depois de o hotel Trump International ter sido palco de um encontro de diplomatas onde, segundo o "Washington Post", membros da equipa de transição do Presidente eleito os pressionaram a apostar em força naquele hotel. Nesse encontro, a conversa entre os diplomatas centrou-se na "forma como se vão construir laços com a nova administração", com um representante diplomático do Médio Oriente a dizer ao jornal que espera que entidades estrangeiras comecem a organizar eventos e a fazer reservas no mais recente hotel de Trump. "Acreditem, todas as delegações vão lá parar", garantiu essa fonte.

Há duas semanas, o "Politico" já tinha noticiado uma situação semelhante à do Kuwait mas a envolver o Bahrain, outra rica monarquia do Médio Oriente, cuja embaixada em Washington DC vai celebrar o seu Dia Nacional, a 7 de dezembro, no hotel Trump International.

Eric, Ivanka e Donald Jr. têm assumido papéis preponderantes — e questionáveis — na equipa de transição do pai

Eric, Ivanka e Donald Jr. têm assumido papéis preponderantes — e questionáveis — na equipa de transição do pai

AFP

Alugue um Trump?

No fim-de-semana, o site TMZ publicou um documento interno de uma organização de caridade cujo painel de diretores inclui um dos filhos de Trump onde é oferecido tempo exclusivo com o Presidente eleito e membros da sua família em troca de dinheiro, mais precisamente entre 500 mil e um milhão de dólares, no dia a seguir à sua tomada de posse, marcada para 20 de janeiro.

O convite oficial da recém-formada Opening Day Foundation faz referência a uma festa pós-tomada de posse onde é referido que as 16 pessoas que aceitem desembolsar um milhão de dólares cada terão acesso a "uma receção privada e oportunidades de fotografias" com o Presidente Trump, para além de "quatro convidados" poderem participar "uma excursão de vários dias para caça e/ou pesca com [os filhos do futuro líder dos EUA] Donald Trump Jr. e/ou Eric Trump e membros da equipa" do Presidente eleito.

Na terça-feira, a Organização Trump emitiu um comunicado a distanciar-se do evento em questão, dizendo que este "não foi aprovado ou proposto pela família Trump", isto apesar de haver documentos legais que mostram que Eric Trump integrou o conselho de administração do grupo sem fins lucrativos que está a organizar a festa. O evento continua marcado para o mesmo dia, mas as referências à "excursão de caça e/ou pesca" desapareceram. Eric Trump e o irmão já garantiram que não vão estar presentes.

O "New York Times" referia ontem que este é só "o último exemplo no matagal" de potenciais conflitos de interesses que o Presidente eleito e a sua família enfrentam a poucas semanas da tomada de posse, que demonstram que Trump tem de definir claramente os papéis que os seus filhos adultos vão desempenhar na futura administração norte-americana.

"Estou a ver muita insensibilidade face ao que os espera", diz ao jornal Michael H. Cardozo, que foi conselheiro do Presidente Jimmy Carter, cuja admimistração teve de lidar com o conflito de interesses relacionado com as atividades empresariais do irmão do Presidente, Billy Carter, que tinha negócios com a Líbia.

Nas semanas que sucederam a eleição de Trump, aponta o NYT, três dos seus quatro filhos adultos — Ivanka, Eric e Donald — que integram a sua equipa de transição têm participado numa série de eventos políticos do Presidente eleito: pelo menos um, Ivanka, esteve presente no encontro de Trump com o primeiro-ministro do Japão; um ou mais participaram na chamada com o Presidente da Argentina, na qual o futuro líder terá tentado negociar a construção de um hotel em Buenos Aires, e estiveram ainda presentes numa conferência com líderes de grandes empresas tecnológicas. Donald Jr. terá inclusivamente assumido um papel ativo na escolha de Ryan Zinke para o cargo de secretário do Interior.

O marido de Ivanka, Jared Kushner, é muito influente na equipa do Presidente eleito

O marido de Ivanka, Jared Kushner, é muito influente na equipa do Presidente eleito

Chip Somodevilla

Fala-se ainda na possibilidade de Ivanka assumir um papel de conselheira na administração do pai e o próprio Trump já referiu que o genro, Jared Kushner, poderá desempenhar um cargo semelhante no governo. Eric e Donald Jr. dizem que vão manter-se ao leme dos negócios da família. "Acho que é pedir para ter problemas quando se põe os filhos em encontros do governo, quer seja legal ou ilegal", defende Ari Fleischer, antigo porta-voz do Presidente George W. Bush. Peter J. Wallison, que foi conselheiro do Presidente Ronald Reagan, acrescenta: "As acções que o Presidente [Donald Trump] vai encetar já estão a ser controversas. Se há questões sobre como e porque é que uma decisão específica vai ter impacto na sua família, isso não é bom. Eles têm de pensar nisso."