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Escolha de Trump para secretário de Estado foi diretor de petrolífera russo-americana nas Bahamas

BEN STANSALL

Documentos oficiais daquele paraíso fiscal, obtidos pelo consórcio que investigou os Panama Papers, integrado pelo Expresso, mostram que Rex Tillerson se tornou diretor de uma subsidiária russa da ExxonMobil, a Exxon Neftegas, em 1998. Petrolífera garante que o americano abandonou esse cargo em 2006

Rex Tillerson, o homem do petróleo que Donald Trump nomeou para futuro secretário de Estado dos EUA, foi durante muitos anos diretor de uma empresa petrolífera russo-americana com sede no paraíso fiscal das Bahamas. Assim demonstram documentos internos do registo corporativo daquele arquipélago, obtidos pelo jornal alemão "Suddëutsche Zeitung" e analisados pelos parceiros do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, que o Expresso integra, no âmbito do caso Panama Papers que estalou no início de abril.

De acordo com as informações oficiais apuradas pelo "The Guardian" este fim de semana, Tillerson, atual diretor executivo da petrolífera ExxonMobil, tornou-se diretor de uma subsidiária dessa empresa, a Exxon Neftegas, em 1998. No documento datado de 2001, o seu nome — RW Tillerson — surge ao lado de outros envolvidos com atividade empresarial registada em Houston, no Texas, e nas cidades russas de Moscovo e Sakhalin. O registo de empresas de onde o documento foi retirado é público mas muitas vezes inclui informações incompletas sobre os diretores das empresas offshore a operar ali; noutras, esses detalhes são simplesmente inexistentes.

A descoberta vem elevar mais questões sobre a idoneidade e as capacidades de Tillerson para chefiar a diplomacia americana na administração Trump. Quando o Presidente eleito dos EUA anunciou a nomeação do homem do petróleo, os media já tinham referido como potencial problema a relação próxima de Tillerson com o governo de Vladimir Putin, o que alimenta as suspeitas de que a sua audiência de confirmação pela comissão de relações externas do Senado em janeiro será tempestuosa.

No domingo, a Exxon garantiu que Tillerson deixou de ser diretor da Neftegas em 2006. Apesar de o recurso a empresas offshore em paraísos fiscais não ser ilegal, o facto de o nomeado para secretário de Estado ter recorrido às Bahamas para obter privilégios fiscais e poder pagar menos impostos contradiz diretamente a promessa de Trump de "pôr a América em primeiro lugar", o seu grande slogan de campanha sob o qual acusou a China e outros países de estarem a "roubar postos de trabalho" aos EUA e a ameaçar a economia norte-americana.

Críticos de Tillerson dizem que é muito próximo de Putin e de Igor Sechin, líder da estatal petrolífera russa Rosneft que é a segunda figura mais poderosa do Kremlin a seguir ao Presidente russo. Em 2013, Putin condecorou o americano, dois anos depois de ter sido firmado um acordo entre a ExxonMobil e a Rosneft para exploração petrolífera no mar de Kara, na parte russa do Árctico.

Esse acordo foi suspenso em 2014 após a administração Obama ter aprovado sanções ao governo e a empresas russas por causa da anexação da península da Crimeia, na sequência da guerra civil que estalou no leste da Ucrânia no final do ano anterior.

A ExxonMobil é a maior petrolífera do mundo e está há vários anos a tentar garantir uma parte da exploração dos vastos depósitos de petróleo e gás natural da Rússia. Tillerson detém ações na empresa de valor superior a 200 milhões de dólares. A sua nomeação eleva potenciais conflitos de interesse e preocupa não só os democratas da oposição como vários membros do Partido Republicano pelo qual Trump se candidatou à presidência dos EUA.