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Tudo pronto para incendiar a República Democrática do Congo

JUNIOR D.KANNAH/ Getty images

Aumenta a tensão com a aproximação do final do mandato do Presidente Kabila. A perspetiva de guerra poderá ser regional

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Joseph Kabila declarou que não abandona a presidência quando terminar o seu segundo mandato, a 19 de dezembro. Depois de ter sido protelada várias vezes a marcação de eleições e apesar de, ainda há dois meses, se ter assinado em Kinshasa um acordo para a reorganização do ciclo eleitoral seguinte — ou seja, este — abrangendo a presidência, as duas câmaras do Parlamento e os executivos provinciais e municipais, a República Democrática do Congo (RDC) está de novo frente ao abismo.

O “país do eterno recomeço”, como lhe chamou a revista “África21” há dois meses, referindo uma transferência de poder credível que consiga evitar o mergulho do país e da região numa guerra sem saída previsível, parece estar a recorrer aos métodos habituais de perpetuação no poder. A cinco dias do final do mandato, as autoridades congolesas ordenaram o bloqueio das redes sociais incluindo Facebook, Twitter e WhatsApp, tentando deste modo evitar que sejam convocados protestos públicos contra Kabila.

Segundo a AFP, que teve acesso ao documento, a ordem da autoridade reguladora das telecomunicações da RDC foi enviada a pelo menos três empresas fornecedoras de serviço de internet para que entre em vigor a partir das 22h59 locais de domingo sem que nenhuma justificação fosse adiantada.

Violência à vista

É previsível que haja uma escalada da tensão já existente, alimentada pelo descontentamento do povo congolês com a fraca melhoria das suas condições de vida. A crise vem de longe, o poder alheou-se da realidade do país e o Reagrupamento das Forças Políticas e Sociais a favor da Mudança, liderado por Étienne Tshishekedi (líder da União para a Democracia e Progresso Social, UDPS, o partido mais antigo da oposição) e por Moise Katumbi (ex-governador e atual inimigo de Kabila) não hesita em declarar que o Presidente será derrubado pela força do povo, se necessário.

A promessa feita pela oposição de organizar protestos já a partir da próxima segunda-feira inflamou-se perante cinco dezenas de congoleses mortos nas manifestações contra Kabila em setembro. Na altura, foram incendiadas as sedes de três partidos da oposição, a UDPS, Forças da União e Solidariedade, FONUS, e o Movimento Progressivo Lumumbista, MPL, na capital Kinshasa, metrópole de dez milhões de habitantes onde o atual chefe de Estado nunca ganhou nas urnas.

O apoio a Kabila é muito baixo. Uma sondagem nacional de outubro revela que 80% dos inquiridos querem que o Presidente se demita e apenas 8% dizem apoiar uma sua nova candidatura. É evidente que há violência à vista. Nada de novo na RDC, onde milhões morreram na guerra de cinco anos iniciada em 1997 sob a presidência do pai de Joseph, Laurent-Desiré Kabila, que então alastrou a nove países da região. Vinte grupos armados daquela altura continuam ativos, alertam as Nações Unidas.