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Trump: OK a Moscovo, não a Teerão

reuters

Nomeações de Trump sugerem viragem 
na política externa: distância do Irão e China e mais transigência com a Rússia

Que sabemos sobre o que vai ser a política externa norte-americana durante a administração Trump? O que é factual e objetivo e o que é tiro de barragem nas redes sociais, na linha do que foi a campanha do magnata do imobiliário? Antes de entrar na substância das coisas, retenham-se dois sinais que nos ficam das notícias do final da semana. Por um lado Barack Obama disse sem meias palavras que houve interferência de hackers russos na campanha presidencial que Trump venceu, que esses ciberataques têm a marca do Estado russo e que os EUA se reservam o direito de retaliar onde, quando e como entenderem. E que já fez saber isso mesmo a Putin. Por outro, Trump deu um sinal do que poderá vir a ser a política norte-americana relativamente a Israel. Nomeou para embaixador dos EUA em Telavive o advogado de origem judaica David Friedman (os radicais da administração Trump gostariam que fosse em Jerusalém, o que equivaleria a reconhecer a soberania israelita sobre a cidade partilhada por judeus e palestinianos). Friedman, que há muitos anos assessora Trump em processos judiciais relacionados com falências, é descrito pelo diário israelita “Haaretz” como “um radical ortodoxo, por vezes mais à direita do que o próprio primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu”.

De Wall Street ao exército

Tentar adivinhar políticas em função das pessoas nomeadas para os cargos tem, apesar de tudo, alguns riscos. Ainda assim, algumas escolhas parecem falar por si. No plano interno, escolheu para o Departamento do Tesouro e para o Conselho Económico Nacional dois altos responsáveis do Banco Goldman Sachs, respetivamente Steven Mnuchin e Gary Kohn, o que não fica mal a um candidato que durante a campanha fustigou o poder de Wall Street com o qual a sua adversária, Hillary Clinton, estaria mancomunada. Escolheu para a saúde um opositor da política de Obama, Tom Price.

Mas o que nos diz mais sobre o que pode vir a ser a política externa de Trump são outras escolhas. Desde logo há uma profusão de antigos militares. Mike Pompeo, do Kansas, vai dirigir a CIA e é conhecido por ter criticado o fecho das prisões secretas daquele serviço e ser contrário ao acordo nuclear com o Irão. Idêntica posição relativamente a Teerão tem o novo secretário da Defesa, James Mattis, antigo comandante das forças norte-americanas no Médio Oriente, de resto alcunhado de “cão raivoso” (mad dog).

Além do próprio Trump, outros membros da sua equipa são claramente indulgentes para com Putin. É o caso de Michael Flynn, ex-responsável dos serviços de informações militares, agora indigitado para chefiar a Segurança Nacional. Já em relação à China não faltam partidários da linha dura, pelo menos no plano comercial, como é o caso do secretário do Comércio, Wilbur Ross (alcunhado de o rei das falências devido à sua especialização em comprar empresas falidas), que é um assumido opositor da entrada da China na Organização Mundial do Comércio.

Se para lugares relacionados com o ambiente Trump nomeou pessoas que fazem ponto de honra em negar a responsabilidade humana (leia-se industrial) nas alterações climáticas, para chefiar a diplomacia escolheu Rex Tillerson, da petrolífera Exxon Mobil, condecorado por Putin e adversário das sanções à Rússia na sequência da anexação da Crimeia. Tillerson dirigiu anos a fio uma diplomacia paralela à cabeça deste gigante do petróleo e do gás. Desenha-se um neo-isolacionismo americano, com os EUA a meterem-se na sua concha geoestratégica, o que segundo o secretário de Estado-adjunto de Obama, Antony Blinken, será um fator de instabilidade pois “as potências hegemónicas (leia-se Rússia e China) raramente se contentam com o que têm”