Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Futuro embaixador dos EUA em Israel, o defensor dos colonatos que critica judeus de esquerda

“The New York Times” diz que David Friedman, o advogado que Donald Trump escolheu para representar Washington no Estado hebraico, está “alinhado com a extrema direita israelita”, “questiona a necessidade de uma solução de dois Estados e compara os judeus americanos de esquerda aos judeus que ajudaram os nazis no Holocausto”

O Presidente eleito dos EUA escolheu para seu embaixador em Israel um advogado que está "alinhado com a extrema-direita israelita" e que defende que não seria ilegal anexar a Cisjordânia, um dos territórios palestinianos sob ocupação israelita há várias décadas.

É assim que o "New York Times" define David Friedman, o conselheiro de Donald Trump que, foi anunciado ontem, será o seu enviado a Israel e que ficará sediado não em Telavive, capital de facto do país, mas em Jerusalém, cidade que tanto os hebraicos como os palestinianos clamam como sua capital e cuja parte oriental, cedida à Palestina nos Acordos de Oslo de 1993, também está sob ocupação.

Segundo o diário nova-iorquino, Friedman, que não tem qualquer experiência diplomática, questiona publicamente a necessidade de se procurar uma solução de dois Estados, a fórmula de paz defendida por uma maioria na comunidade internacional, e já chegou a insultar os judeus da América com tendências liberais e de esquerda, comparando-os aos judeus que ajudaram os nazis durante o Holocausto.

Num comunicado enviado às redações pela equipa de transição de Trump, Friedman disse estar ansioso por começar a trabalhar "na embaixada dos EUA na capital eterna de Israel, Jerusalém". Há várias décadas que a embaixada americana no Estado hebraico está sediada em Telavive, já que o Departamento de Estado, quer de administrações republicanas quer de governos democratas, tem sempre defendido que o estatuto de Jerusalém — disputada por Israel e pela Palestina — só pode ser determinado quando as negociações de paz estiverem concluídas.

Friedman, pelo contrário, acredita que os hebraicos têm direito "eterno" à cidade e, considerando declarações públicas suas nos últimos anos, a todos os territórios palestinianos sob ocupação. Não crê que anexar a Cisjordânia fosse ilegal e apoia a contínua construção de colonatos, que Washington classifca de ilegítimos e como um obstáculo à paz.

No comunicado do anúncio, a equipa de transição de Trump destaca apenas a longa história pessoal de Friedman com Israel, apresentando o futuro embaixador como um "apoiante amigável" do país cuja ideologia e visão estão alinhadas com a posição dos EUA. "As duas nações têm mantido uma relação especial com base no respeito mútuo e numa dedicação à liberdade e à democracia. Com a nomeação do sr. Friedman, o Presidente eleito Trump expressa o seu compromisso em continuar a melhorar a relação EUA-Israel e a garantir que haverá uma cooperação extraordinária ao nível estratégico, tecnológico, militar e das secretas", lê-se no documento, onde é explicado que Friedman fala hebraico e que é "um estudioso de longa data da História de Israel".

Oposição e condenação

A escolha de Friedman para o cargo de emabixador em Israel foi de imediato aplaudida pela Coligação Republicana Judaica, com o diretor executivo do grupo de lobby, Matt Brooks, a referir "um sinal poderoso à comunidade judaica". Mas fora do espectro republicano, as reações foram tudo menos calorosas.

Daniel Levy, judeu de esquerda que chegou a participar nas negociações de paz, disse que, ao nomear como embaixador uma pessoa com opiniões tão rígidas como Friedman, Trump pode pôr em causa a segurança de Israel e dos EUA e condenar "os palestinianos a mais privação de direitos e desapropriação".

"Se um embaixador americano defende posições que reforçam ainda mais uma elite de colonialistas já de si triunfantes, então é provável que isso cause dores de cabeça aos interesses nacionais americanos em toda a região e até à própria segurança de Israel — especialmente um embaixador tão comprometido com a desaconselhável relocalização da embaixada dos EUA para Jerusalém", condenou Levy.

A J. Street, outra organização de lobby judaico que tem sido crítica de algumas políticas do Estado hebraico, também disse em comunicado que se "opõe veementemente à nomeação" de Friedman. "Sendo alguém que tem sido um líder americano amigo do movimento de colonização, que não tem quaisquer credenciais diplomáticas ou políticas, Friedman devia ser [uma escolha] inaceitável", referiu o grupo.

Os membros da J. Street têm sido alvos diretos do desprezo que o futuro embaixador nutre pelos judeus americanos que apoiam a solução de dois Estados. Em junho, num artigo publicado no site da Arutz Sheva, uma organização de media israelita, Friedman comparou os apoiantes da J. Street aos "kapos", os judeus que cooperaram com os nazis no Holocausto. "A J. Street? São só presunsoços que defendem a destruição de Israel a partir do conforto dos seus sofás seguros na América — é difícil imaginar alguém pior."

Numa sessão privada já este mês no Fórum Saban, um encontro anual de figuras da política americana e israelita, Friedman defendeu essas declarações. Questionado por Jeffrey Goldberg, editor executivo da revista "Atlantic", sobre a comparação dos membros da J. Street aos kapos, Friedman intensificou o sentimento. "Eles não são judeus e não são pró-Israel", terá respondido de acordo com pessoas presentes no encontro, citadas pelo NYT.