Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Vão cortar a minha cabeça”. Alemanha deu início às deportações dos afegãos com pedido de asilo negado

"O Afeganistão não é seguro" pode ler-se no cartaz de um manifestante no aeroporto de Frankfurt

RALPH ORLOWSKI/REUTERS

O primeiro voo com destino a Kabul partiu na quarta-feira. Noor Jan, um jovem de 23 anos, foi um dos 34 afegãos obrigado a embarcar. Vivia há quatro anos na Alemanha, mas antes tinha vivido outros quatro na Grécia. “Diga-me agora, o que devo eu fazer?”, questionou ao voltar a pisar o solo do país que abandonou há oito anos

Um avião descolou do aeroporto de Frankfurt com destino a Kabul na quarta-feira. A bordo seguiam 34 afegãos que viram negado o seu pedido de asilo e foram obrigados a deixar o país onde viviam há vários anos. Este voo representa a primeira de muitas vagas de deportações que a Alemanha prevê fazer. O ministro do Interior alemão, Thomas de Maizière, confirmou esta quinta-feira que a deportação foi possível graças a um acordo assinado com o Afeganistão.

Numa conferência de imprensa, o ministro declarou que nenhum dos afegãos em questão tinha a possibilidade de permanecer na Alemanha e que um terço tinha registo criminal por roubos, agressões sexuais e crimes violentos, escreve a Lusa. Por esse motivo, Maizère considera que as deportações foram “corretas e necessárias” para tornar mais eficaz o sistema de asilo alemão.

Por enquanto foram apenas deportados homens, mas Maizière adiantou que quando as condições estiverem reunidas, serão deportadas famílias inteiras. "Quando alguém não tem o direito de asilo nos termos da lei internacional, então tem de abandonar a Alemanha", referiu o ministro.

O embarque dos afegãos motivou protestos por parte de centenas de ativistas, que se reuniram no aeroporto de Frankfurt, na quarta-feira. Também nesse dia, alguns políticos protestaram no Parlamento alemão, exibindo cartazes que pediam o fim das deportações.

“Não é seguro regressar”

O jornal britânico “The Guardian” recolheu depoimentos de alguns dos afegãos deportados, que expressaram que a sua maior preocupação é em relação à sua segurança quando chegarem ao Afeganistão. Todos já viviam no país germânico há pelo menos quatro anos e estão a voltar agora a um país que ficou mais perigoso desde que se foram embora.

“Vivia como um alemão. Tinha o meu apartamento e pagava os meus impostos”, conta Zabiullah Noori, de 23 anos, que quando deixou a sua terra, há seis anos, Kunduz era uma cidade pacífica. Desde então já foi tomada duas vezes pelos Talibã. O jovem confessa que está “muito assustado”, que não sabe como chegar à sua cidade a partir do aeroporto de Kabul e que as suas roupas tipicamente europeias – sapatilhas, ‘skinny’ jeans e um casaco de cabedal – o vão denunciar mal saia do aeroporto. “Se os Talibãs pararem o carro e virem os meus documentos, vão cortar a minha cabeça”, revela o jovem.

Questionado sobre a situação em relação à segurança destas pessoas quando chegam ao Afeganistão, o ministro alemão reconheceu que se encontram numa posição complicada, referindo ainda que há “algumas áreas suficientemente seguras”, mas não especificou quais seriam.

Matiullah Aziz chegou à Alemanha com 15 anos. Sete anos depois, com 22, foi surpreendido pela polícia no seu local de trabalho, que lhe ordenou que recolhesse os seus pertences e foi detido na mesma tarde. Apesar de não ter certificado de asilo, Matiullah fala alemão fluentemente e estudou no país durante vários anos.

Abdul Ghafoor, diretor da Organização de Suporte e Aconselhamento dos migrantes afegãos, referiu que os jovens que passam meia década ou até mais na Europa e talvez tenham vivido anteriormente no Irão ou no Paquistão, não têm um motivo que os faça regressar ao Afeganistão. Admite ainda que “não é seguro para aqueles que tenham sido deportados regressarem às suas províncias. A maior parte nem sequer tem famílias lá”.

Segundo a lei, os requerentes de asilo que têm o seu pedido negado ficam sujeitos a serem expulsos um mês a seguir à receção da notificação, no caso de não se verificarem razões humanitárias ou de segurança que impeçam a sua repatriação. De acordo com a Lusa, o Governo alemão assume os custos da viagem de regresso ao país de origem e concede ainda ajudas no valor de 200 a 500 euros para quem aceitar o “regresso voluntário”.

No entanto, os deportados afirmaram que as autoridades alemãs não lhes deram assistência financeira. Segundo o “The Guardian”, em Kabul, a Organização Internacional para a Migração distribuiu cerca de 21 euros por cada um e ofereceu alojamento temporário.

Mas quem é forçado a regressar ao Afeganistão não fica muito tempo. Liza Schuster, perita em migração, explica que, a partir do que tem visto acontecer em Kabul, “80% partem durante os primeiros dois anos e o resto deixa o país em cinco anos”. Segundo Schuster, “falta alguma coisa que prenda os afegãos, logo, até que o Governo crie a oportunidade de garantir uma boa educação e boas perspetivas de futuro posteriormente”, vai haver sempre alguém disposto a emigrar.

O Afeganistão está ainda a enfrentar o desafio de receber quase um milhão de pessoas que regressaram ou foram deportadas do Paquistão e do Irão este ano, de acordo com as Nações Unidas. Como escreve o “The Guardian”, os deportados vindos da Europa vão contribuiu para o agravamento do desemprego e da crise económica que afeta o país.

Mas as expulsões do continente europeu não vão ficar por aqui. O próximo voo para Kabul está previsto que ocorra no início de janeiro. No total, o Governo alemão pretende deportar 12500 afegãos. De acordo com o Serviço Federal de Migração e Refugiados, em novembro, a Alemanha tinha cerca de 125 mil pedidos de asilo afegãos em avaliação. Aproximadamente 200 mil afegãos pediram asilo na Europa no ano passado, a maior parte na Alemanha e na Suécia.

Não obstante, a Alemanha não foi o único país que começou com as deportações de afegãos. Também a Suécia e a Noruega já obrigaram requerentes de asilo a regressar ao seu país de origem. No início desta semana foram registados 13 afegãos deportados na Suécia e nove na Noruega, entre os quais se encontravam menores não acompanhados, escreve o “The Guardian”. Este processo custou, no total, cerca de 144.585 euros ao Governo sueco.