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Sentenças para crimes na ex-Jugoslávia em lume brando

Mladic em Haia

Martin Meissner / REUTERS

Depois das acusações finais, o chefe militar responsável pelo genocídio de Srbrenica só terá a sentença pronunciada ao longo de 2017. Ratko Mladic manteve-se impassível durante a sessão em que foram ouvidas gravações das suas ordens sanguinárias

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

O julgamento de Ratko Mladic é prova da lentidão das rodas da justiça internacional. Esta quinta-feira foi o dia final da argumentação contra o chefe militar que é acusado do genocídio dos bósnios de Srebrenica em 1995, de perseguição dos bósnios e croatas na Bósnia e Herzgovina, que alcançou a escala de genocídio nalgumas localidades no ano de 1992, de aterrorizar a população no cerco de Sarajevo que durou 46 meses (o mais longo cerco da história moderna), bem como de fazer reféns tropas de manutenção de paz das Nações Unidas.

Em 7 de dezembro deste ano, os procuradores do Tribunal Internacional de Haia tinham pedido prisão perpétua para o comandante militar sérvio bósnio. O argumento daqueles responsáveis alegava que uma pena mais leve seria considerada um “insulto para as vítimas, vivas e mortas, e uma afronta para a justiça”, segundo as palavras do procurador Alan Tieger durante as alegações finais da acusação no Tribunal Criminal para a Ex-Jugoslávia.

Apesar da declaração daquele tribunal, esta terça-feira, Dragan Ivetic, o advogado de defesa do réu, instou o tribunal das Nações Unidas a absolver o réu de crimes de guerra e genocídio defendendo que “o único resultado justo é uma absolvição devido ao facto de a acusação ter falhado a apresentação de provas”, cita o site BalkanInsight.

Ivetic dedicou as suas observações finais relativas à acusação de genocídio de Srbrenica argumentando que o comandante militar não poderia ter sido responsável pelas execuções de mais de 7.000 bósnios após as forças sérvias bósnias terem tomado o enclave.

“Chegou a altura de Ratko Mladic ser responsabilizado por cada uma das suas vítimas e por todas as comunidades que destruiu. Ninguém pode sequer imaginar a extensão do sofrimento pelo qual Mladic é responsável”, declarou Tieger citado pelo “The Guardian”.

Em julho de 1995, Srbrenica foi bombardeada e ocupada pelo exécito da República Srpska apesar de ter sido declarada zona protegida pelas Nações Unidas. Mais de 7.000 pessoas morreram vítimas de genocídio. A responsabilidade de Ratko Mladic na matança está descita em pormenor em muitas acusações e veredictos anteriormente pronunciados em instituições judiciais internacionais.

Segundo o jornal britânico, Mladic, agora com 74 anos, assistiu impassível aos argumentos dos procuradores enquanto eram mostrados vídeos do tempo da guerra enquanto Mladic atravessava as cidades capturadas e dava ordens aos seus soldados.

No último dia da leitura das acusações finais foi também ouvida uma gravação de uma conversa de maio de 1992 via rádio que foi intercetada e na qual Mladic se diriga aos seus subalternos ordenando fogo de artilharia sobre dois distritos de Sarajevo “porque não vivem lá muitos sérvios”. “Vamos endoidecê-los de forma a que não consigam dormir”, ouve-se dizer o comandante, segundo relata o jornal.

Este é um dos últimos casos a serem julgados no contexto do tribunal e o veredicto será conhecido ao longo do ano de 2017.

O líder político sérvio bósnio Radovan Karadzic que foi condenado no passado mês de março a 40 anos de prisão vai apelar da sentença. O facto de ter sido considerado responsável pelo genocídio de Srebrenica e, ainda assim, ter escapado a pena perpétua escandalizou os sobreviventes.