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Putin e Abe tentam enterrar hostilidades da II Guerra

ALEXANDER ZEMLIANICHENKO

Presidente da Rússia e primeiro-ministro do Japão estão reunidos esta quinta-feira na cidade nipónica de Nagato para negociar o futuro de um pequeno arquipélago que as tropas soviéticas ocuparam em 1945 e que continua a ser disputado pelos dois países. A falta de um acordo nos últimos 70 anos é a principal razão pela qual nunca assinaram um acordo de paz desde o final da guerra

Os líderes da Rússia e do Japão estão hoje reunidos na cidade nipónica de Nagato para tentar alcançar um acordo sobre um conjunto de pequenas ilhas que têm impedido acabar formalmente com as hostilidades entre os dois países que remontam à II Guerra Mundial.

O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, já está reunido com Vladimir Putin em Nagato, cidade dos antepassados de Abe, na esperança de se enterrar a disputa pelo arquipélago ao largo da costa norte do Japão que as tropas soviéticas ocuparam em 1945.

A disputa pelas quatro ilhas, conhecidas como Kurils do Sul pela Rússia e como Territórios do Norte pelo Japão, tem sido um entrave nas relações diplomáticas dos dois países ao longo das últimas sete décadas. Apesar das preparações para o encontro, aponta o "The Guardian", as expectativas de resolução "não são boas", com os dois lados a minimizarem as possibilidades de virem a ser alcançados grandres progressos.

"Quero ir para esta cimeira determinado a acabar com este problema na minha geração", disse Abe aos residentes das ilhas no início desta semana, um grupo populacional envelhecido que não está a ver as suas gerações renovadas.

Putin, que não viajava para o Japão há mais de uma década, diz que quer acabar com o "anacronismo" que é o facto de os dois países não terem um acordo de paz em vigor desde o final da II Guerra Mundial. "Mas como vamos alcançar isto é uma questão difícil", disse o líder russo aos media nipónicos.

As discussões sobre o futuro das ilhas começaram em 1956 entre Tóquio e a então União Soviética. Para Abe, está também em causa o legado por cumprir do seu pai, Shintaro, que morreu em 1991 antes de conseguir alcançar um acordo com Moscovo enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros.

Fonte da diplomacia japonesa diz que, no encontro de hoje em Nagato, Abe e Putin deverão concentrar-se em questões territoriais e de paz, voltando a reunir-se amanhã na capital nipónica para continuarem as negociações e darem uma conferência de imprensa conjunta sobre o assunto.

Em 2010, o então Presidente russo, Dmitri Medvedev, irritou o Japão com uma visita não-anunciada à ilha de Kunashir

Em 2010, o então Presidente russo, Dmitri Medvedev, irritou o Japão com uma visita não-anunciada à ilha de Kunashir

MIKHAIL KLIMENTYEV

O que está em causa

Alguns milhares de japoneses começaram a emigrar para as ilhas ente os séculos XVIII e XIX, incluindo membros da minoria Aidu de Hokkaido. Em 1855, a Rússia e o Japção assinaram o Tratado de Shimoda, que dava a Tóquo total soberania sobre as quatro ilhas e a Moscovo a gestão do território marítimo a norte. Quando a II Guerra Mundial estalou, as três principais ilhas já contavam com 17 mil residentes japoneses. Entre a ocupação do arquipélago pela URSS no final da guerra e o ano de 1949, todos foram deportados para o Japão continental.

Sob o Acordo de Paz de São Francisco, assinado em 1951 pelos aliados e pelo Japão derrotado no conflito, Tóquio renunciava a "todos os direitos e reclamações sobre as ilhas Kuril". Mas o tratado nada resolveu, porque a Rússia se recusou a assiná-lo e porque o Governo nipónico nunca reconheceu as quatro ilhas como parte da cadeia Kuril russa.

Em 1956, a Declaração Conjunta Japão-União Soviética restaurou os laços diplomáticos entre os dois países, mas um acordo de paz formal nunca chegou até hoje por causa da disputa territorial. Na altura, Moscovo propôs devolver ao Japão as duas ilhas mais próximas do seu território, um acordo que Tóquio rejeitou em parte porque essas duas ilhas apenas representam 7% do total de território. A querela está por resolver desde então.

O interesse dos dois países no arquipélago, atualmente habitado por 30 mil russos e onde Moscovo tem presença militar, prende-se sobretudo com os recursos nautrais existentes na região. Em agosto de 2006, o Governo russo aprovou um plano de investimento de 17 mil milhões de rublos (263 milhões de euros) para melhorar as infraestruturas energéticas e de transportes no arquipélago, reduzindo ainda mais as hipóteses de se alcançar um acordo.

Dois anos antes, Putin tinha dado a entender que a oferta de duas das quatro ilhas ao Japão se mantinha em cima da mesa, mas não deu mostras de abdicar das outras duas, que estão rodeadas por ricas reservas piscatórias, num espaço marítimo que terá ainda enormes reservas de petróleo e gás natural. Há alguns anos, foram encontrados no vulcão Kudriavy, na ilha de Iturup, raros depósitos de rénio.

O turismo é outro dos prémios de que nenhum dos dois países quer abdicar, já que a enorme variedade de aves que habitam as ilhas e os vulcões nelas existentes têm o potencial de atrair um elevado número de visitantes anualmente.