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A Rússia interveio nas eleições dos EUA? E depois, qual é o espanto?

DECIDIDO Vladimir Putin, numa reunião no Kremlin, no passado dia 8

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Os serviços secretos norte-americanos têm fortes suspeitas de que informações recolhidas ilegalmente de caixas de correio eletrónico de membros do Partido Democrata norte-americano foram entregues à Wilikeaks por figuras ligadas ao governo russo, durante a campanha presidencial norte-americana, para favorecer a candidatura de Donald Trump. O “sovietólogo” José Milhazes explica porque é que as “fortes suspeitas” têm sérios fundamentos - o contrário é que seria de estranhar

José Milhazes

Se os países têm serviços secretos, eles têm de mostrar trabalho. E, no caso de duas potências - Estados Unidos e Rússia -, seria muito estranho se não fosse assim, tanto mais quando estão em jogo questões fundamentais para o destino das relações entre esses dois países.

Além disso, não se pode esquecer que estamos numa época em que existem sistemas de espionagem sofisticados, como “ataques piratas” aos mais modernos sistemas eletrónicos. Por isso, qualquer serviço de informações com o mínimo de meios tenta tirar o partido máximo dessas novas possibilidades. É banal afirmar, mas vale a pena repetir, que só Edward Snowden provocou prejuízos ao sistema de segurança norte-americana maiores do que uma numerosa rede de espionagem clássica.

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Segundo uma fonte da CIA citada pelo “Washington Post”, “a avaliação da comunidade de informação [dos serviços secretos norte-americanos] é a de que o objetivo da Rússia passava por favorecer um candidato em detrimento do outro, ajudar a que Trump fosse eleito”.

O citado jornal norte-americano escreve que há fortes suspeitas da CIA de que as informações recolhidas nas caixas de correio eletrónico de vários membros do partido democrata foram entregues à Wikileaks por figuras ligadas ao Governo russo. Estas fortes suspeitas têm sérios fundamentos.

Porque é que Putin gosta mais de Trump

Não há dúvida de que o Kremlin estava interessado na eleição de Donald Trump e não fazia grande segredo da “azia” que nutria pela candidata do Partido Democrata, Hillary Clinton. Para o Presidente Vladimir Putin e a sua corte, a vitória desta última poderia significar a continuação da política externa de Obama, que provoca grave descontentamento no Kremlin devido às sanções contra a Rússia em retaliação pela ocupação russa da Crimeia ou devido à política norte-americana face à Síria.

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Tanto mais que Donald Trump, na sua campanha eleitoral, prometeu normalizar e desenvolver as relações com Moscovo, esquecer a questão da Crimeia e reduzir a participação norte-americana na NATO, além de ter feito numerosos elogios ao Presidente Vladimir Putin.

Claro que, em casos como estes, a utilização de todos os métodos, mesmo os mais “sujos” e ilegais, são justificáveis para dar uma ajudinha ao “inimigo da inimiga”.

Rússia não fabrica dispositivos. Mas sabe programá-los...

Não pode também esquecer-se que a Rússia, embora não produza computadores portáteis ou telemóveis, tem uma importante e competente escola de programadores informáticos.

Basta recordar o nome de Eduard Kaspersky, um dos mais conhecidos especialistas mundiais na esfera da segurança informática, dono de uma das quatro maiores empresas mundiais de criação de programas antivírus e antipirataria informática. É curioso recordar que Kaspersky terminou, em 1987, a quarta faculdade técnica da Escola Superior do KGB (os então serviços secretos soviéticos), onde estudou matemática, criptografia e tecnologias informáticas. Ora este não deve ter sido o único aluno extraordinário que se formou nessa escola. E, como se diz na Rússia, no KGB entra-se, mas não se sai.

d.r.

Parece não haver dúvidas de que os ataques contra os sistemas informáticos de organizações e personalidades ligadas ao Partido Democrático partiram de hackers russos ligados ao Fancy Bear (ou APT 28) e ao Cozy Bear (или Cozy Bear (или APT 29), trabalhando os primeiros para o Serviço Federal de Segurança (antigo KGB) da Rússia e os segundos para o Serviço de Informação Militar (GRU) da Rússia.
Uma coisa é certa: nenhum destes grupos de hackers poderia trabalhar na Rússia sem o consentimento das autoridades, pois é conhecida a “alergia” de Putin à existência de forças autónomas ou descontroladas.

Operações brilhantes do passado

Claro que não se pode esperar que Vladimir Putin venha algum dia a reconhecer operações deste tipo.

Talvez os nossos descendentes venham a saber toda a verdade. Recorde-se que só depois da queda da União Soviética, em 1991, é que tivemos uma ideia mais precisa da dimensão das redes de espionagem desse país no estrangeiro. Por exemplo, foram publicados novos documentos que confirmaram a suspeita de que o ditador soviético José Estaline recebeu muita informação sobre a preparação da invasão da URSS pelas tropas alemãs, que ele desprezou mesmo no dia da invasão, a 21 de junho de 1941. Sabemos agora também que foi graças à sua espionagem nos Estados Unidos que os soviéticos conseguiram fabricar antes do previsto a sua primeira bomba atómica. Basta recordar o nome de agentes soviéticos como o físico alemão Klaus Fuchs ou os cidadãos norte-americanos Ethel e Julius Rosenberg.

Espiões ao poder

Após a queda da URSS, em 1991, os serviços secretos russos sofreram pesadas baixas, não só devido à falta de meios como também à fama herdada: eram vistos como um dos pilares da ditadura comunista. Porém, com a chegada de um coronel do KGB (Putin) ao poder, em 2000, os serviços de informação receberam um novo estatuto social e político, bem como meios consideráveis para se modernizar. Eles passaram a ser uma das peças fulcrais da política externa soviética, participando em ações de desestabilização em países europeus ou em manipulação informativa.

É precisamente a isto que se chama “guerra híbrida”, em que os ataques informáticos, bem como a desinformação, são instrumentos importantes. No entanto, já não se trata da propaganda tipo revistas “Vida Soviética” ou “Mulher Soviética”, mas de canais televisivos como Russia Today ou a agência de informação Sputnik. Além de estarem mais bem equipados, a direção russa não poupou meios para recrutar no estrangeiro quadros competentes.

Que esperar de Trump?

Mais do que saber se o Kremlin influiu ou não nas eleições norte-americanas (considero que poderá ter influído, mas não decidido o resultado do escrutínio), é importante ver se valeu a pena a aposta em Donald Trump. Tendo em conta a nomeação do diretor-executivo da Exxon Mobil, Rex Tillerson - com fortes interesses económicos na Rússia e condecorado por Putin com a Ordem da Amizade em 2013 - para o cargo de Secretário de Estado, pode concluir-se que os esforços de Moscovo não foram feitos em vão. Mas é também importante assinalar que, na política norte-americana, a Câmara dos Representantes e o Senado não são “correias de transmissão” da Casa Branca, como acontece na Rússia na ligação entre as duas câmaras do Parlamento e o Presidente do país.

Seja como for, entramos numa fase das relações internacionais em que é cada vez mais difícil manter segredos e evitar fugas de informação. Por isso, mesmo que Trump seja o pró-russo com que alguns sonham, os serviços secretos dos dois países continuarão a fazer o seu trabalho, com material cada vez mais sofisticado, e os jogos de interesses obrigarão a fazer fugas de informação. A verdade acabará por vir à tona, e, às vezes, mais cedo do que o esperado.