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Conversa de surdos

reuters

A Trump Tower é o local escolhido para o encontro que vai reunir o recém-eleito Presidente dos Estados Unidos e os CEO das principais empresas tecnológicas. Os interlocutores não têm quaisquer pontos de contacto. Estão separados por formas radicalmente diferentes de ver o mundo. O que terá Trump a dizer a estes visionários?

Esta quarta-feira, os responsáveis pelas maiores empresas das novas tecnologias nos EUA vão subir à torre dourada de Trump e, basicamente, engolir um sapo. Vão comer um anfíbio enorme servido frio, sem molho para facilitar a degustação e, de certeza, o prato vai estar cheio de cabelos alaranjados.

Microsoft, Amazon, Google, Oracle, Facebook… fazem parte do pequeno grupo de empresas convocadas a Manhattan. Esta cimeira tecnológica não será fácil para nenhum dos intervenientes. Durante a campanha eleitoral, a maioria dos CEO dessas organizações apoiou Hillary Clinton e foi muito crítica de Trump. É fácil entender porquê. A forma de operar e os valores defendidos nas tecnológicas estão longe de alinhar com os ideais preconizados pelo republicano que vai agora ocupar a Casa Branca.

Basta olhar para os quadros destas empresas para ver quanto é valorizada a diversidade. Há elementos das mais variadas etnias, orientações religiosas e sexuais. Organizações como a Google, só para dar um exemplo, são um verdadeiro melting pot. A Apple tem um CEO homossexual e Jeff Bezos, da Amazon, é o dono do “Washington Post” – um dos jornais mais críticos de Trump durante a campanha.

A lista total de convidados não é conhecida, mas, segundo o RECODE Satya Nadella (Microsoft), Larry Page (Google), Ginni Rometty (IBM), Brian Krzanich (Intel) e Sheryl Sandberg (Facebook) são alguns dos nomes que constam da seleção elaborada pela equipa de Trump.

Se é verdade que estes empresários vão ter de engolir um sapo, não é menos verdade que Trump também terá de provar dessa iguaria. Afinal, pediu um boicote à Apple (quando a empresa se recusou a abrir o iPhone de um alegado terrorista) e criticou o facto de mandarem fazer os dispositivos fora dos EUA; acusou Jeff Bezos de fugir aos impostos (VEJA AQUI; afirmou que o motor de busca da Google estava a esconder factos SOBRE HILLARY CLINTON; e, entre muitas outras acusações feitas a empresas de tecnologia, Trump também criticou o facto de a IBM ter deslocalizado algumas operações para a Índia e, assim, “roubado empregos aos americanos”, como disse à “Business Insider” o mês passado – sim, não foi há alguns anos, foi há pouco mais de um mês, NESTA EDIÇÃO.

Segundo o RECODE, alguns empreendedores terão recusado o convite de Trump. Meg Whitman, CEO da HP, que foi uma forte opositora do presidente americano nomeado; Reed Hastings, da Netflix; ou Travis Kalanick, da Uber. Falta saber, por exemplo, se Elon Musk, da Tesla, recebeu um convite.

O que terá “The Donald” para dizer a estas pessoas? Trump, que é contra a neutralidade na Internet, defende que os americanos estão dispostos a abdicar de privacidade para terem mais segurança e que a NSA deve ter mais poderes para vigiar (embora sempre com autorização legal para o fazer), diz que vai taxar severamente os produtos encomendados à China por empresas americanas… um Presidente que quer mudar a política de emigração contendo a entrada de profissionais qualificados nos EUA que tanta falta fazem às empresas de base tecnológica.

Tudo indica que será um encontro “institucionalmente correto”. Um daqueles momentos em que pessoas que não se suportam têm de partilhar o mesmo espaço durante algumas horas e tentar ter um comportamento aceitável. No fundo, uma perda de tempo. No seu âmago, os grandes de Silicon Valley esperam, desesperam, para que este Presidente seja passageiro. Esta quarta-feira, na torre dourada onde faz os seus negócios, Trump vai liderar uma conversa de surdos. Alguém vai falar, mas poucos estarão a ouvir.