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Os desafios de Tony

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António Guterres é sobejamente conhecido pela elite política dos Estados Unidos, que aprecia o perfil conhecedor e simpático de Tony, nome pelo qual o antigo primeiro-ministro é conhecido nas terras do Tio Sam. O Expresso entrevistou antigos governantes e diplomatas de Washington que garantem que, embora as relações internacionais atravessem uma crise sem paralelo, o ex-líder socialista português é o homem mais bem preparado de sempre para liderar os destinos das Nações Unidas, cuja carta vai jurar formal e oficialmente esta segunda-feira

Brian Atwood trabalha na diplomacia norte-americana desde 1966. Durante a administração Clinton, chegou a vice-secretário de Estado e diretor da USAID, a agência de ajuda externa dos Estados Unidos, que gere um orçamento anual superior a 35 mil milhões de dólares (perto de 33 mil milhões de euros).

Quando a governação se torna cansativa, Atwood, de 74 anos, refugia-se na vida académica, chefiando a prestigiada Humphrey School of Public Affairs (HSPA), na Universidade do Minnesota. Mas o bicho da política acaba sempre por voltar.

Há cerca de seis anos não resistiu a mais uma chamada da Casa Branca e partiu para liderar o Comité de Desenvolvimento e Assistência da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Nessa altura, conheceu o amigo Tony, o então alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, um homem com fama de ser um profundo conhecedor dos dossiês e hábil nos corredores da política.

OTIMISTA Brian Atwood enquanto diretor-geral da USAID

OTIMISTA Brian Atwood enquanto diretor-geral da USAID

reuters

Tony é António Guterres e Brian um dos muitos políticos americanos que, numa série de entrevistas ao Expresso, teceram rasgados elogios ao futuro secretário-geral das Nações Unidas (ONU), que esta segunda-feira irá jurar a carta da ONU, assumindo o cargo no próximo dia 1 de janeiro, na cidade de Nova Iorque.

“Encontrei-me com ele várias vezes para discutir assuntos humanitários. Depois disso convidei-o para receber o prémio Humphrey Leadership Award, na HSPA. Lembro-me que durante o jantar de cerimónia todas as pessoas estavam encantadas com o Tony, inclusivamente o antigo vice-Presidente Walter Mondale, com quem ele partilhou a mesa”, conta-nos Atwood. “Ele é um político no verdadeiro sentido da palavra e isso é um talento que muitos diplomatas não têm, pois temem em excesso as consequências políticas dos seus atos. Ele tem essa coragem e isso é único. É a primeira vez que temos uma figura destas como secretário-geral da ONU. Estou muito otimista. Ele é a pessoa mais bem preparada de sempre para o cargo”.

Joseph Nye foi vice-secretário de Estado e da Defesa durante as presidências de Jimmy Carter e Bill Clinton, respetivamente, e é o autor da expressão “soft power”, um conceito de Relações Internacionais que determina o uso de influência económica e cultural em alternativa à força militar e que inspirou a política externa da Administração Obama.

SOFT POWER. Joseph Nye diz que Guterres tem competência e finesse diplomática q.b.

SOFT POWER. Joseph Nye diz que Guterres tem competência e finesse diplomática q.b.

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Eleito pela revista “Foreign Policy” como um dos 100 maiores pensadores globais, este professor da Universidade de Harvard também se deixou seduzir por Tony: “Guterres tem a competência e a finesse diplomática necessárias para chefiar a ONU.”

O mais preparado para lidar com o “pântano que se avizinha”

Porém, além dos elogios, todos os entrevistados apontaram para a extensa lista de desafios do próximo líder da ONU, do conflito sírio à crise de refugiados, da instabilidade na União Europeia aos assuntos transnacionais (Ambiente e Direitos Humanos, por exemplo).

Stephen Stedman, professor na Universidade de Stanford e ex-conselheiro especial de Kofi Annan (o primeiro negro a comandar os destinos daquela organização internacional), ironiza sobre a metáfora do pântano, que dominou a política portuguesa no início do século. “Quem sabe se pelo facto de ele ter lidado com o pântano português, que levou à sua demissão, não ficou ainda mais preparado para o pântano que se avizinha?”

Trump é um aliado

Em declarações exclusivas ao Expresso, a serem publicadas na edição do semanário deste sábado, o atual secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, reconhece que o seu sucessor entrará nas Nações Unidas “numa fase de insegurança e incerteza”, marcada pelo “aumento do extremismo e da xenofobia”.

Atwood concorda, avisando que o aumento do nacionalismo nos EUA e na Europa não podia ser “pior notícia para Guterres, numa altura em que o stress da comunidade internacional está em níveis máximos”.

Nye aconselha o antigo primeiro-ministro a usar a sua experiência política para reaproximar os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia são os únicos com poder de veto), um núcleo envolto em sucessivos bloqueios, nomeadamente sobre a guerra na Síria. “Urge fazer algo para atenuar as diferenças entre Moscovo e Washington.”

Neste capítulo, Stedman, Nye e Atwood concordam que o Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, acabará por ser um aliado de Guterres, visto que melhorou as comunicações com o Kremlin, o que facilitará a resolução daquele conflito no Médio Oriente.

“Trump e Putin acabarão por, direta ou indiretamente, proteger Bashar al-Assad (Presidente da Síria). Não sei o que farão à oposição síria que não desaparecerá de um dia para o outro, mas isso será um problema para mais tarde”, alerta Barbara Bodine, antiga embaixadora americana em vários países daquela região.

“Ninguém conhece melhor a situação na Síria do que Guterres, fruto do seu trabalho como Alto Comissário da ONU para os Refugiados”, salienta Atwood. “Não digo que será fácil negociar um consenso com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, mas ele tem autoridade moral e algo que Ban Ki-moon não tem: passado político. Guterres liderou uma nação e, por isso, terá mais credibilidade junto de países como a Rússia ou os EUA.”

O desafio europeu

A futura aliança entre os presidentes russo e americano poderá, no entanto, complicar a situação política na Europa, “onde Putin se esforça por acabar com a União Europeia (UE) e Trump apoia individualidades de extrema-direita como Nigel Farage e Marine Le Pen, que também estão ansiosos pelo fim da UE”, afirma Bodine.

PÂNTANOS Steve Stedman

PÂNTANOS Steve Stedman

d.r.

Stedman classifica este cenário de “muito perigoso”, explicando que, até hoje, os EUA sempre tiveram uma “política bipartidária para a Europa”, porque tal defende os interesses americanos. “O Plano Marshall não foi só um plano de ajuda, foi também um esforço de reconstrução de um bloco económico. Não sei se Trump está a agir conscientemente, na verdade acho que ignora o problema”.

Todos os entrevistados alertam, no entanto, para o risco de se olhar apenas para os esforços diplomáticos e se esquecer o trabalho administrativo gigantesco que Guterres terá pela frente. “Não podemos focar apenas no lado sexy do cargo, nas negociações internacionais, conferências e ignorar o facto de que a ONU necessita de ser reformada, pois é excessivamente burocrática e lenta”, lembra Atwood. “Se ele promover uma melhoria no sistema, ou seja, se arrumar a casa, reforçará a legitimidade junto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança”.

“A vida do Tony jamais será a mesma”

Torna-se, assim, evidente que Guterres possui um rol missões no mínimo longo, mas que não ficaria completo sem a inclusão dos chamados assuntos transnacionais. Joseph Nye destaca dois: Ambiente, com a supervisão do Acordo de Paris, e Direitos Humanos, onde é necessário dar prioridade à implementação dos Princípios de Kigali, referentes à proteção de civis em zonas de conflito. “A comunidade internacional continua a não fazer o suficiente para prevenir conflitos e atrocidades e proteger de forma adequada a população civil.”

Embora António Guterres só assuma o cargo dentro de três semanas, Atwood já tem uma certeza: “A vida do Tony jamais será a mesma”.