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Engenharia tenta proteger milhões de iraquianos de catástrofe iminente

AHMAD AL-RUBAYE / AFP / Getty Images

Protegidos por 500 tropas italianas e peshmerga curdos, engenheiros italianos estão no terreno a consolidar as fundações da barragem de Mossul, para combater um desastre em potência “pior do que uma bomba nuclear”, que os especialistas dizem ser inevitável

Há duas importantes batalhas a serem travadas em Mossul neste momento: uma está em marcha há quase dois meses e opõe as forças iraquianas e curdas, apoiadas por via aérea pela coligação internacional, aos militantes do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh), que continuam a batalhar para não perder o seu último bastião no Iraque. A outra é silenciosa e está a cargo de uma equipa de funcionários da empresa italiana de engenharia Trevi, que já está no terreno a tentar salvar a barragem de Mossul, a cerca de 60 quilómetros a norte da cidade.

Depois de seis meses de preparação logística e de segurança, a equipa da Trevi deu início aos trabalhos de reparação e reforço das fundações da barragem esta semana, sob a proteção de 500 soldados italianos e pershmerga (combatentes curdos). A empresa tem 18 meses para evitar que a estrutura da barragem se desintegre e assim eliminar os riscos de uma catrástrofe iminente de proporções inimagináveis: se a barragem colapsar, até mais de 11 mil milhões de metros cúbicos de água irão submergir Mossul e outras cidades, inundando as localidades por onde a água vai passar e afetando as vidas dos milhões de iraquianos que vivem nas margens do rio Tigre. "Não sei se esta é uma corrida contra o tempo, mas temos os conhecimentos e a tecnologia para tornar a barragem mais segura por agora", diz fonte da empresa à Al-Jazeera, pedindo anonimato por questões de segurança.

A Trevi está em Mossul sob um contrato de 300 milhões de dólares (284 milhões de euros) financiado pelo Banco Mundial, com o objetivo de reforçar as fundações e a estrutura da barragem através de injeções de uma mistura de cimento na base da estrutura. Os funcionários da empresa de engenharia que foram enviados para o local estão ainda a treinar as equipas locais que gerem a barragem para que aprendam a sua tecnologia.

Cientistas consultados pelo canal qatari advertem, contudo, que as reparações são uma solução meramente temporária e que a população iraquiana deve estar pronta para sair das margens do Tigre ao primeiro sinal de perigo. "Não interessa quanta manutenção e rebocagem a empresa vai fazer, pode aumentar o tempo de vida da barragem mas só vai adiar um desastre", defende Nadhir al-Ansari, professor de recursos aquíferos e engenharia ambiental na Universidade Lulea, na Suécia, e um dos mais conhecidos especialistas da barragem de Mossul. Em entrevista à Al-Jazeera, Ansari diz que o colapso da barragem de 3,4 quilómetros, a quarta maior do Médio Oriente, é inevitável porque foi construída em solo instável: "É só uma questão de tempo e vai ser pior que atirar uma bomba nuclear contra o Iraque."

Azzam al-Wash, ambientalista iraquiano, acrescenta que o movimento lateral dos alicerces da barragem pode não parecer muito grande mas que para uma estrutura do tamanho daquela é um provável sinal de um desastre à espera de acontecer. As reparações em curso a cargo da TREVI, acrescenta, são como "pôr um penso rápido numa ferida de bala e fingir que tudo vai ficar bem assim".

Em abril, o Centro de Ciência da Comissão Europeia divulgou um estudo onde antevê que pelo menos sete milhões de iraquianos vão ser afetados caso a barragem colapse, como muitos especialistas antecipam. No relatório de 58 páginas há várias simulações de cenários que podem ter este resultado. Mesmo que apenas 26% da estrutura se desintegre, é apontado no estudo, as cheias geradas têm proporções catastróficas.

"Esta simulação resulta numa onda muito grande água [com até 25 metros de altura] a chegar a Mossul após 100 minutos. A capital Bagdade será atingida três dias e meio depois por uma onda com um máximo de oito metros de altura." A inundação irá destruir as infraestruturas de todas as cidades à beira do rio Tigre, incluindo Tikrit, até a água parar a cerca de 700 quilómetros a sul da barragem, anteveem os especialistas.

Ansari, que em 1995 trabalhou como consultor do Ministério iraquiano para a Irrigação, esteve em Bruxelas em junho a apresentar os resultados da sua investigação à barragem de Mossul, tendo alertado as autoridades e diplomatas europeus para a necessidade de preparar planos de evacuação de emergência e de identificar possíveis localizações para erguer campos de refugiados que alberguem as populações desalojadas.

Em março, engenheiros iraquianos que estiveram envolvidos na construção da barragem de Mossul e que agora vivem na Europa já tinham avisado que pelo menos um milhão de pessoas está em risco perante a degradação das estrutura.