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Anatomia de um genocídio em Alepo

Civis fugindo de Alepo leste a 29 de novembro, dia em que os ataques governamentais mataram 53 pessoas

EPA

Bombardeamento, frio e fome massacram civis nas zonas rebeldes

As forças que apoiam Assad já conquistaram 80% da zona oriental de Alepo nas mãos de grupos rebeldes há quatro anos. Quarta-feira caiu a cidade velha. Estes sucessos só foram possíveis devido ao apoio da aviação russa e de infantaria estrangeira, desde mercenários xiitas afegãos, paquistaneses e iraquianos à milícia libanesa Hezbollah, sem esquecer tropas especiais iranianas. Isto revela que o exército de Assad já não chega para as encomendas e que terá perdido metade dos seus efetivos, atualmente estimados pelo diário francês “Le Monde” em 150 mil homens. Este excesso de visibilidade da coligação que apoia o ditador sírio levanta dois problemas: acirra ódios confessionais, pois os sunitas sírios (maioritários) veem aqui invasores estrangeiros, ainda por cima apóstatas; por outro lado, estas tropas cuja vocação é o choque não são adequadas (nem quererão fazê-lo) a missões de vigilância e contraguerrilha, sendo que, se os rebeldes perderem as cidades mais importantes passarão à guerrilha, sabotagem e atentados.

Assad concluiu o cerco no início do verão, seguindo-se bombardeamentos que desgastaram os grupos rebeldes da Fatah Halab e segundo a ONU fizeram 16 mil deslocados. Falhada a última tentativa do Jaysh al-Fatah de quebrar o cerco a partir do exterior, a 15 de novembro o Governo deu início à ofensiva terrestre, com as unidades de elite a avançarem a partir de norte.

As Forças Tigre, a Brigada “Falcões do Deserto” e diversos batalhões da Guarda Republicana apoiados pelos palestinianos da Liwa al-Quds lideraram a ofensiva com o apoio dos curdos do enclave de Sheikh Maqsood. No Sul foram posicionados os iraquianos da Harakat al-Nujaba, os libaneses do Hezbollah, os afegãos treinados e financiadas pelo Irão e os inúmeros “conselheiros” iranianos da Força Quds, além de árabes sunitas das Brigadas Ba’ath e de várias unidades de milicianos.

Recuo rebelde generalizado

Dia 21, as Forças Tigre romperam a defesa da Fatah Halab em Hanano e avançaram para sul. Em menos de uma semana cortaram em dois o território inimigo. Centenas de rebeldes morreram ou renderam-se e dez mil procuraram refúgio em território governamental.

A 1 de dezembro, o Ahrar al-Sham e outros 10 grupos anunciaram a formação do Jaysh Halab e relegaram o que resta da Fatah Halab para um papel secundário, mas nesse mesmo dia a coligação pró-Assad virou de leste para oeste. Nalgumas horas conquistaram vários bairros. Segunda-feira, o Jaysh Halab contra-atacou em Katarji e o Jaysh al-Fatah lançou dezenas de foguetes Grad sobre as posições do exército, mas a iniciativa continuou do lado governamental, que na madrugada de quarta-feira atravessou a zona de Sha’ar até à cidadela, conquistando pelo caminho os bairros antigos de Alepo e a mesquita Umayyad.

Parte deste sucesso deve-se à aviação russa, que bombardeou a província de Idlib, evitando que o Jaysh al-Fatah pudesse mandar reforços para Alepo. A fragata “Admiral Grigorovich” lançou mísseis de cruzeiro Kalibr e do porta-aviões “Kuznetsov” partiram vários caças MiG-29 e Su-33. Operando a partir da base de Khmeimim, caças Su-24 e Su-34 fizeram centenas de ataques a depósitos de armamento e viaturas nas estradas para Alepo.

Maior envolvimento russo significa mais baixas. Segunda-feira, um caça Su-33 despenhou-se ao aterrar no porta-aviões “Kuznetsov”. Um MiG-29 sofrera destino similar no mês passado, o que talvez diga algo sobre a qualidade do material e o grau de preparação dos pilotos. Nesse dia um hospital de campanha em Alepo foi atingido por fogo de morteiro, que matou duas enfermeiras e o coronel Ruslan Galitsky, comandante da 5ª Brigada de Tanques da Guarda, oficial de maior patente a perder a vida no conflito (28 mortos russos e oito aeronaves destruídas).

Rússia veta na ONU

Segunda-feira, Rússia e China opuseram-se no Conselho de Segurança da ONU a uma resolução que previa sete dias de tréguas em Alepo. A Venezuela votou no mesmo sentido. O texto, apresentado pela Espanha, Nova Zelândia e Egito teve os votos favoráveis dos restantes membros do Conselho e a abstenção de Angola. É a sexta vez que Moscovo veta uma resolução sobre a Síria desde 2011, sendo este o quinto veto chinês sobre o mesmo assunto.

A diplomacia russa parece preferir negociações diretas com os EUA, que decorrem em Genebra tendo como tema modalidades de saída dos rebeldes de Alepo oriental, coisa que estes, mesmo acossados, rejeitam. Um porta-voz do grupo salafita Nourredine Al-Zinki (cujo nome remete para o emir de Damasco no século XII, Nur ad-Din) explicou: “Se alguém tem de sair são os russos.”

Se a queda de Alepo se confirmar e for continuada por vários enclaves rebeldes em redor de Damasco, Assad poderá libertar mais de 20 mil soldados para novas ofensivas talvez determinantes para o futuro do conflito. A futura posição da Casa Branca sob Trump e o maior ou menor empenho de potências sunitas como a Turquia ou a Arábia Saudita no apoio aos rebeldes sunitas ou laicos sê-lo-ão também.

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