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Trump convidou homem do petróleo para a Agência do Ambiente. DiCaprio não gostou e pediu uma reunião 

Scott Pruitt, o procurador-geral do estado do Oklahoma

Getty

Chama-se Scott Pruitt, tem 48 anos, e considera que ainda não há certezas de que as alterações climáticas existem mesmo e que são provocadas pelo homem. Ambientalistas e Democratas estão devastados com a decisão

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O presidente-eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou esta semana que convidou o procurador-geral do estado do Oklahoma, Scott Pruitt, para liderar a Agência de Protecção Ambiental (EPA na sigla original). Mas a escolha foi mal recebida, não só pelos cientistas e especialistas em ambiente, mas também por figuras do cinema, como Leonardo DiCaprio. O ator ficou tão incomodado que teve uma reunião com Trump logo no dia seguinte ao anúncio.

“Apresentámos ao presidente-eleito e aos seus consultores um trabalho desenvolvido pela Fundação Leonardo DiCaprio, em parceria com especialistas em economia e meio ambiente, em que mostramos como investir em infraestruturas sustentáveis pode ser o centro da recuperação da economia americana”, disse o CEO da Fundação, Terry Tamminem, à Associated Press.

E acrescentou: “A nossa conversa centrou-se em como é possível criar milhões de empregos na construção e na operação de centrais renováveis tanto a nível comercial como residencial”.

Mas esta já não é a primeira vez que DiCaprio, um feroz defensor do ambiente, se reúne com o clã Trump. Há uns dias teve um encontro com a filha de Donald Trump, Ivanka, para lhe mostrar o seu documentário mais recente chamado ‘Before the Flood’ que mostra os perigos que o mundo enfrenta por causa das alterações climáticas. E poderá não ser a última. Segundo Tamminen, Trump mostrou-se receptivo e sugeriu uma nova reunião em janeiro.

Mas nada indica que vá recuar na escolha que fez para a EPA, apesar de ainda não estar confirmada.

“Estamos muito acostumados aos opositores e críticos. O procurador-geral Scott Pruitt tem muitas qualificações e um bom desempenho em Oklahoma e havia um número de candidatos qualificados para aquela posição que o presidente-eleito entrevistou. Estamos ansiosos com as audiências de confirmação”, disse a assessora de Trump, Kellyann Conway, citada pelo “The Guardian”.

Afinal, qual é o problema de Pruitt ir para a EPA?

Uma das dúvidas em cima da mesa reside no facto de Scott Pruitt, enquanto procurador-geral, ter interposto várias ações judiciais contra a regulamentação da EPA para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa pela indústria do carvão.

A mais recente foi interposta por 28 estados norte-americanos. Além disso, afirmou que aquela agência era “ilícita e excessiva”. Foi ainda aliado da petrolífera Exxon Mobile num caso em que a empresa era acusada de mentir a investidores, dizendo-lhes que não tinha conhecimento da alterações climáticas.

Mas o que os especialistas consideram mais grave são as suas posições relativamente às alterações climáticas. Em maio deste ano, Pruitt escreveu um artigo de opinião na “National Review”, uma revista de opinião conservadora, onde chamava a Barack Obama e aos defensores do ambiente de “Gangue do Clima” e onde escreveu uma das suas frases mais polémicas: “O debate sobre as alterações climáticas está longe de estar resolvido. Os cientistas continuam a não concordar sobre o impacto das alterações climáticas e na relação que elas têm com as ações humanas.”

Ou seja, para Pruitt, não está ainda provado que as alterações climáticas sejam uma consequência das ações do homem ao longo dos anos, descartando assim inúmeras conclusões de cientistas de todo o mundo. Não é, portanto, de admirar que o anúncio de Pruitt tenha gerado as piores reações na comunidade ambientalista dos EUA e também na comunidade política, neste caso do lado dos Democratas.

“Ter Scott Pruitt na liderança na EPA é como ter um incendiário a comandar bombeiros”. As palavras duras, citadas pelo “The Guardian”, são de Michael Brune, o diretor executivo do Sierra Club, uma das associações ambientais mais antigas e respeitadas dos EUA, fundada em São Francisco, na Califórnia, por John Muir, em 1892.

Mas há outras igualmente fortes. “O líder da EPA devia garantir que o ar que respiramos é limpo e que a água que bebemos é segura. Não devia estar a trabalhar com os poluidores para eles ganharem mais dinheiro”, disse Trip Van Noppen, presidente da associação de advogados ambientalistas Earthjustice, também citado pelo “The Guardian”. Noppen diz ainda que “qualquer pessoa que não acredite em estudos científicos não está qualificado para liderar a principal agência do país que defende o ambiente”.

Até um colega seu, mais precisamente o procurador-geral de Nova Iorque, Eric Schneiderman, disse, citado pelo “The Guardian”, que Pruitt era “uma escolha perigosa e não qualificada” que tem sido “um agente da indústria do petróleo e do gás”.

“Se a EPA, enquanto liderada por Pruitt, falhar nos objetivos da nação no que respeita às leis ambientais, estou preparado para usar todos os meus poderes para assegurar que elas são cumpridas”, acrescentou.

Até o senador Bernie Sanders, que concorreu ao lado de Hilary Clinton para ser o candidato democrata à Casa Branca, já se pronunciou e não foi meigo. “Num momento em que as alterações climáticas são uma ameaça para o planeta é triste e perigoso que Donald Trump tenha nomeado Scott Pruitt para dirigir a Agência de Proteção Ambiental”, lamentou, em comunicado, citado pela Lusa.

Nos círculos politicos e ambientalistas dos EUA existe, cada vez menos, a dúvida que Trump se preparar para reverter toda a política ambiental de Obama, centrada na redução das emissões de gases com efeito de estufa e nas energias renováveis.

Já durante a campanha, Trump tinha dito que iria acabar com as leis e regulamentos para a proteção do ambiente, que iria desistir do Acordo de Paris e chegou mesmo a dizer que Obama tinha declarado guerra ao carvão, uma das maiores indústrias dos EUA.